
Eugene Doyle
Peço desculpas se minhas palavras parecerem inflamadas — podem até ser consideradas extremas. Minha resposta é: o que não há de extremo em mais uma guerra de agressão, lançada por uma potência global contra uma pequena e empobrecida nação insular? Ouvir o Secretário de Estado Marco Rubio sinalizar na quinta-feira que uma guerra dos EUA contra Cuba é quase inevitável me dá nojo.
A acusação formal apresentada pelos EUA contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, nesta semana, é uma manobra clássica de propaganda pré-invasão. Outro exemplo recente é a farsa dos EUA sobre lutar pela democracia no Irã antes de matar centenas de crianças iranianas no primeiro dia da guerra e milhares de outros civis nos dias seguintes.
Luis Ernesto Morejón Rodríguez, embaixador de Cuba na Nova Zelândia, disse-me esta semana: "Cuba sustenta que esta acusação faz parte de uma escalada mais ampla de pressão política e de esforços para criminalizar a sua liderança histórica."
É impossível afirmar com certeza, mas será que os EUA estão tentando desviar a atenção da sua desastrosa guerra de agressão contra o Irã, lançando uma guerra de agressão contra Cuba?
O longo estrangulamento de Cuba pelos EUA começou no ano em que nasci – 1959 – e continuou por toda a minha vida. O crime que Cuba cometeu foi afirmar sua soberania e recusar a dominação dos EUA. Essa determinação ficou evidente recentemente – no Dia do Trabalho – quando mais de 500 mil pessoas marcharam em Havana para condenar a campanha de pressão dos EUA e celebrar a soberania cubana.
O estupro, como me ensinaram minhas amigas feministas na década de 1970, é primordialmente uma questão de poder, não de sexo. É usado por homens maus (quase invariavelmente homens) para afirmar domínio, ferir, controlar e impor sua vontade a pessoas que prefeririam ser deixadas em paz. Nesse sentido, o termo é apropriado quando se observa os Estados Unidos, que não têm respeito por nada que se aproxime de um comportamento humano decente. O estupro de Gaza pelos EUA e Israel agora figura na infâmia ao lado do estupro de Nanquim, na China, pelas forças imperiais japonesas durante a Segunda Guerra Mundial. A história, tragicamente, registra muitos crimes semelhantes que chegam ao nível de estupro. É o que os impérios fazem.
Que vergonha para os homens e mulheres que ficam de braços cruzados assistindo a mais um crime americano. Que vergonha para o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, por seus belos discursos sobre direito internacional que agora soam vazios. Que vergonha para todos os líderes ocidentais que, por décadas, fecharam os olhos sempre que os americanos foram ao exterior e cometeram suas atrocidades.
Lembro-me de quando era criança, ainda não adolescente, de ter aprendido sobre o Massacre de My Lai, no Vietnã, onde soldados americanos estupraram centenas de mulheres e meninas antes de assassiná-las, juntamente com seus pais, filhos, irmãos e avós. Tão grande era a impunidade americana que ninguém enfrentou consequências sérias, nenhuma justiça foi feita para as vítimas. Assim tem sido ao longo dos séculos – XIX, XX e agora XXI – quando os Estados Unidos se impuseram em diversos países.
Marco Rubio, esse camaleão ridículo, esse indicador de imoralidade, diz que Cuba é uma “ameaça à segurança nacional” dos EUA. Ridículo, se não fosse o prelúdio de um crime. O reflexivamente mentiroso Rubio disse esta semana que as chances de uma solução diplomática eram mínimas: “Sendo sincero, a probabilidade disso acontecer, considerando com quem estamos lidando agora, não é alta”. Não ouvi tudo isso antes de uma dúzia de guerras de agressão dos EUA?
Na ONU deste ano, a esmagadora maioria das nações, incluindo a minha, votou a favor da resolução intitulada "Necessidade de pôr fim ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba".
A Carta das Nações Unidas é o documento ao qual todos devemos recorrer e respeitar em momentos como este. Como me disse o Embaixador Rodríguez: “Qualquer ameaça ou uso da força contra Cuba constituiria uma violação direta dos princípios fundamentais do direito internacional”. Ele fez referência específica a artigos centrais da Carta, em particular:

a igualdade soberana dos Estadosnão interferência em assuntos internosa proibição da ameaça ou do uso da forçarespeito pela integridade territorial e independência política dos Estadoso direito inalienável dos povos à autodeterminação.
Em nenhum lugar da Carta está escrito que nossa mídia deve repetir acriticamente todas as mentiras que vêm de Washington – sugerindo que Cuba representa, de alguma forma, um perigo claro e presente para o país que a oprime.
Segundo pesquisas globais, Israel é o país mais odiado do planeta. Os Estados Unidos viram sua reputação na comunidade internacional despencar. Dos 68 países pesquisados no ranking Global Country Perceptions 2026, os EUA ocupam a 64ª posição, apenas quatro acima de Israel. Pesquisas da Nira mostraram que, globalmente, as pessoas identificam os Estados Unidos como a principal ameaça à humanidade.
Há algo de assustador nos Estados Unidos, algo a ser evitado, temido e detestado pela maioria global. Maquiavel pode ter dito: "É melhor ser temido do que amado", mas acrescentou: "se não puderes ser ambos". O ódio, alertou ele, pode levar à resistência.
Os povos da Terra estão fartos da insanidade, da incoerência, da crueldade e violência sem fim, da estupidez bruta do império americano. Basta!
Choro pela Palestina, choro pelo Irã e por tantos outros países que sofreram com o poder americano. Temo por Cuba e pelo seu povo cubano, que tanto sofre. Estou ao lado do povo de Cuba. Defendo a Carta das Nações Unidas e, acima de tudo, o respeito à integridade territorial dos Estados.
A Carta da ONU nos diz que o povo cubano, e não os EUA, deve determinar os sistemas sociais, políticos e econômicos de seu país.
¡Cuba Libre!
Eugene Doyle
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