Editorial
Israel anunciou a suspensão de suas relações com o gabinete do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, após o país ter sido incluído na "lista negra" de atores que perpetram violência sexual em conflitos armados. O relatório que detalha os estupros sistemáticos cometidos pelas forças de ocupação israelenses ainda não foi publicado, mas os Estados envolvidos o recebem antecipadamente.
A “indignação” de Tel Aviv nas Nações Unidas é uma farsa previsível. Ninguém no regime de Benjamin Netanyahu desconhece — e, ao que tudo indica, não desaprova — o uso da violência sexual como instrumento de tortura, humilhação e até mesmo mero entretenimento pelas forças armadas israelenses contra o povo palestino, bem como contra qualquer pessoa que considerem um obstáculo ao seu projeto de limpeza étnica.
Em março de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre o Território Palestino Ocupado publicou um relatório que documenta que a nudez pública forçada, o assédio sexual, incluindo ameaças de estupro, e a agressão sexual fazem parte dos procedimentos operacionais padrão das forças de segurança israelenses contra os palestinos. O relatório também estabelece o uso da violência sexual e reprodutiva contra os palestinos como parte de um esforço mais amplo para minar seu direito à autodeterminação e demonstra que Israel cometeu atos de genocídio por meio da destruição sistemática de instalações de saúde sexual e reprodutiva. Diante desses fatos, o relatório conclui que a violência sexual e de gênero é uma estratégia de guerra israelense para controlar e destruir o povo palestino.
A ONU não é, de forma alguma, o único órgão que documentou essas práticas. “O abuso sexual generalizado de prisioneiros palestinos é uma realidade”, afirma o diretor executivo (um advogado israelense-americano) do Comitê Público Contra a Tortura em Israel. De acordo com a ONG Euro-Med Human Rights Monitor, Israel emprega “violência sexual sistemática como parte de uma política estatal organizada”. Dezenas de jornalistas que trabalham na Palestina denunciaram os abusos, dos quais eles próprios são vítimas recorrentes. Até mesmo o The New York Times publicou uma reportagem expondo “um padrão generalizado de violência sexual israelense contra homens, mulheres e até crianças palestinas, perpetrada por soldados, colonos, interrogadores e guardas prisionais” (um eufemismo para os campos de concentração onde Tel Aviv mantém milhares de palestinos em cativeiro). Cabe lembrar que o jornal americano é tão próximo do sionismo que instruiu seus jornalistas a evitar o uso de termos como “genocídio”, “limpeza étnica”, “território ocupado”, “campos de refugiados”, “massacre” e até mesmo “Palestina” ao se referirem à ocupação e ao genocídio.
Em julho de 2024, um canal de televisão israelense transmitiu imagens mostrando soldados levando um refém palestino para um local isolado para abusá-lo sexualmente em um campo de detenção conhecido como "Guantánamo israelense". O regime de Netanyahu não negou a autenticidade das imagens. Há apenas 10 dias, o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, divulgou um vídeo no qual aparece zombando de dezenas de ativistas sequestrados, que foram filmados ajoelhados, amarrados e com a testa no chão. Ben Gvir não perdeu o emprego e defendeu a prática, argumentando que é assim que qualquer pessoa que desagrade Tel Aviv deve ser tratada. Isso levanta a questão de como os palestinos são tratados quando ninguém está olhando e se os europeus são tratados dessa forma diante das câmeras.
É evidente que o problema não é a inclusão de Israel numa lista de estados que promovem a violência sexual, mas sim a completa impunidade de que gozam todos os funcionários envolvidos nesses atos, e a passividade da comunidade internacional face a um regime fora de controlo.
"A leitura ilumina o espírito".
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