O braço "humanitário" do imperialismo: a ofensiva da ONU contra o Irã.

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Eduardo Vasco

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Os órgãos das Nações Unidas são ferramentas utilizadas quando e contra quem o imperialismo assim o desejar.

Em março deste ano, em meio à guerra de agressão criminosa travada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, tornou-se público o relatório sobre a situação dos direitos humanos no país, apresentado por Mai Sato, Relatora Especial das Nações Unidas para o assunto. O documento, carregado de um tom incomumente emotivo e de uma clara simpatia pelos violentos protestos que buscavam derrubar o governo iraniano, luta para disfarçar seu caráter propagandístico e profundamente desequilibrado.

“Há muitos aspectos em que a Relatora Especial é incapaz de conciliar a narrativa do Estado com as provas que recebeu”, afirma o documento, que rapidamente repercutiu em todo o monopólio midiático imperialista. Essa declaração é reveladora: para Sato, as alegações do governo iraniano não passam de uma “narrativa”, uma versão manipulada e não confiável dos fatos. Enquanto isso, as alegações feitas por ONGs sediadas na América do Norte e na Europa e financiadas por governos ocidentais são tratadas pela relatora como “provas”, sem sequer terem sido investigadas.

Sato acredita que os relatórios do governo iraniano sobre a destruição causada por manifestantes violentos (existe vasto material gráfico que documenta essas ações violentas) não são legítimos, mas considera até mesmo o número de mortos apresentado por organizações financiadas pelos Estados Unidos e atribuído à repressão estatal como "conservador".

Suas fontes, como é comum em reportagens sobre governos alvos da ira de Washington, incluem a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a Freedom House e outras organizações fundadas e financiadas por estados imperialistas e bilionários internacionais. Além disso, são citadas organizações especializadas no Irã e sediadas nos Estados Unidos, Canadá e Europa, como o Centro Abdorrahman Boroumand, financiado por governos europeus e fundações privadas e cujo conselho inclui Francis Fukuyama; a Holistic Resilience, patrocinada pelo Departamento de Estado; e o Centro de Documentação de Direitos Humanos do Irã, que admite abertamente "aceitar dinheiro de governos, organizações não governamentais e indivíduos privados".

Mas não é de surpreender que a relatora seja tão parcial em seu relatório. Esse cargo — o de Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos no Irã — foi criado precisamente para servir como mais uma frente na guerra imperialista contra Teerã. O cargo foi estabelecido pela notória Comissão de Direitos Humanos da ONU em 1984, apenas alguns anos após o triunfo da revolução e em meio à guerra por procuração do Iraque contra o Irã.

Mesmo assim, o duplo padrão típico das fraudes humanitárias imperiais já era evidente. A ditadura do Xá, nascida de um golpe de Estado patrocinado pela CIA e pelo MI6 para se apoderar do petróleo iraniano, e um dos regimes mais brutais do Oriente Médio graças ao apoio irrestrito da CIA e do Mossad à SAVAK e seus centros de tortura, não mereceu qualquer preocupação dos agentes humanitários das Nações Unidas durante 25 anos. Somente depois que essa ditadura brutal foi derrubada pelas massas iranianas é que o regime nascido da vontade dessas mesmas massas se tornou motivo de preocupação para o corpo imperialista — precisamente porque não era mais um peão dos Estados Unidos, mas sim uma ameaça à sua dominação global.

No entanto, havia outro aspecto do duplo padrão da ONU quando criou a função de relator para o Irã. Em 1984, o Irã não estava em guerra contra um fantasma. Lutava contra o poderoso exército iraquiano, armado pelos Estados Unidos e todos os seus aliados e, portanto, sentindo-se livre para fazer o que quisesse contra o novo demônio antiocidental, cometendo graves crimes de guerra em solo iraniano e severos abusos contra opositores internos ou supostos opositores — expulsão, tortura, execução e extermínio de iranianos, xiitas, curdos e comunistas iraquianos. Mesmo assim, a Comissão de Direitos Humanos não criou um mandato de relator para o Iraque — só o fez em 1991, quando Saddam Hussein passou de herói a vilão após perder a confiança do imperialismo por não ter conseguido derrotar a Revolução Iraniana e por ameaçar o controle ocidental sobre o petróleo comercializado pelas monarquias do Golfo.

A Comissão de Direitos Humanos, embora oficialmente despolitizada, seguiu à risca as diretrizes do Conselho de Segurança, cuja Resolução 479, de setembro de 1980, sequer exigiu a retirada das tropas iraquianas que haviam acabado de invadir e ocupar 650 quilômetros de território iraniano com milhares de tanques, veículos blindados e artilharia logo no primeiro dia da guerra. “Se o Irã não tivesse se tornado um estado pária após ocupar a embaixada dos Estados Unidos, poderia ter obtido uma moção e um voto favoráveis”, relembra o jornalista Robert Fisk em seu livro A Grande Guerra pela Civilização.

É evidente: os órgãos das Nações Unidas são ferramentas utilizadas quando e contra quem o imperialismo desejar. Não é coincidência que a pressão total exercida sobre o Irã tenha diminuído precisamente no momento em que os líderes iranianos decidiram arriscar uma reaproximação com os Estados Unidos após as invasões do Iraque e do Afeganistão por Bush — e então, como que por mágica, a Comissão de Direitos Humanos decidiu suspender o mandato do Relator Especial para o Irã. Contudo, quando a tentativa de reaproximação fracassou, a Comissão voltou a servir como instrumento dos Estados Unidos e retomou sua ofensiva total contra o país. Os direitos humanos, como se pode ver, nada mais são do que um argumento de conveniência.

Vejamos agora quem foram os Relatores Especiais sobre direitos humanos no Irã, nomeados pela Comissão de Direitos Humanos e, a partir dos anos 2000, por seu sucessor, o Conselho de Direitos Humanos:

Andrés Aguilar Mawdsley (1984–1986), alto funcionário do Estado venezuelano durante os governos do Pacto de Punto Fijo (uma fachada democrática), tendo atuado como Ministro da Justiça e embaixador nos Estados Unidos;

Reynaldo Galindo Pohl (1986–1995), que representou as sucessivas ditaduras militares de El Salvador (repressivas, corruptas e um fantoche dos Estados Unidos) em vários mecanismos internacionais, incluindo a OEA — conhecida como o “Ministério das Colônias” dos Estados Unidos;

Maurice Copithorne (1995–2002), funcionário do serviço diplomático canadense por três décadas;

Ahmed Shaheed (2011–2016), ex-ministro e alto funcionário das Maldivas, alinhou-se completamente com a política liberal do imperialismo, a ponto de fundar uma suposta “Associação Sociedade Aberta”, que, segundo a Wikipédia, é “dedicada à promoção dos direitos humanos, da tolerância e da democracia”, e de ser considerado pela Anistia Internacional — uma organização patrocinada por banqueiros e governos ocidentais — como um “líder na defesa dos direitos humanos” nas Maldivas. Ele também foi convidado de honra em eventos organizados pelo Ministério das Relações Exteriores do governo britânico e recebeu o Prêmio de Liderança Global da Vital Voices, uma entidade criada por ninguém menos que Hillary Clinton e Madeleine Albright;

Asma Jahangir (2016–2018), ex-ativista paquistanesa que, ao contrário dos outros relatores, nunca ocupou um cargo governamental, foi vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos, uma organização financiada por governos europeus e por George Soros. Mesmo que suas intenções fossem boas, a proeminência e a liderança em organizações financiadas por banqueiros e governos imperialistas — os maiores violadores dos direitos humanos na história — não legitimam ninguém como defensor dos direitos humanos; pelo contrário, desacreditam essas pessoas.

Javaid Rehman (2018–2024), um acadêmico britânico-paquistanês que, conforme revelado em seu perfil no site da Universidade Brunel de Londres, “recebeu importantes bolsas e financiamento para pesquisa” da Comissão Europeia, para a qual também atuou como consultor. Certamente, ele não teria recebido tal apoio se tivesse contrariado a política europeia em relação ao Irã, um alvo central de desestabilização para o imperialismo europeu. Ele também atua como consultor de parlamentares britânicos;

Mai Sato (2024–) é acadêmica e diretora do Instituto de Pesquisa de Políticas Criminais e de Justiça (ICPR) da Birkbeck, Universidade de Londres. O ICPR recebe financiamento público do Conselho de Pesquisa Econômica e Social do Reino Unido. Ela também é cofundadora da ONG japonesa CrimeInfo, que surgiu de um projeto financiado pela Comissão Europeia em 2017. Seu caso é semelhante ao de Rehman: se Sato contradissesse a política britânica e europeia em relação ao Irã, as instituições que ela supervisiona continuariam recebendo esse financiamento, considerando as repercussões altamente negativas sobre seu trabalho?

Justificando as sanções penais contra o Irã

Mai Sato dedica três parágrafos de seu relatório de 17 páginas às sanções internacionais contra o Irã. No entanto, ela não atribui importância real ao impacto das sanções na vida da população e na violação de seus direitos humanos.

Desde os primeiros dias da Revolução de 1979, os Estados Unidos congelaram bilhões de dólares pertencentes ao governo iraniano, proibiram o comércio e o investimento de suas empresas no país, sancionaram empresas estrangeiras que investiam no Irã e empresas iranianas que negociavam no exterior, e isolaram o país do sistema financeiro internacional. A Europa e o Ocidente, subservientes aos Estados Unidos, seguiram o mesmo caminho das sanções, assim como as Nações Unidas, que impuseram sanções econômicas ao país desde 2006.

Décadas de sufocamento fizeram com que, por exemplo, entre 2012 e 2024, o PIB per capita do Irã caísse cerca de 37%, segundo dados do Banco Mundial. Quando, durante seu primeiro mandato, Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã e os europeus seguiram o exemplo, reimpondo certas sanções, as exportações de petróleo iranianas caíram até 80%, seguidas por uma recuperação relativa, embora ainda muito abaixo dos níveis médios do início da década de 2010. Em 2025, o Conselho de Segurança da ONU também restabeleceu as sanções suspensas pelo acordo de 2015 — e Sato, em seu relatório, as justifica, acusando o Irã de não cumprir seus compromissos, ecoando o discurso de Trump.

As sanções também desvalorizaram drasticamente a moeda iraniana, o que, combinado com as restrições às exportações, encareceu consideravelmente a importação de bens e serviços, acelerando a inflação e afastando investidores. Segundo estimativas, nos últimos 15 anos as sanções reduziram significativamente a classe média iraniana, empurrando milhões de pessoas para uma situação social mais vulnerável, enquanto os preços dos medicamentos aumentaram em até 300%.

“O relator reconhece que as sanções agravaram as dificuldades econômicas do Irã, mas as evidências disponíveis indicam que as atuais dificuldades econômicas refletem múltiplos fatores interligados, incluindo décadas de decisões internas em políticas sociais, econômicas e ambientais”, afirma o documento.

Ela ressalva a afirmação: “nem todos os desafios humanitários e de direitos humanos do Irã podem ser atribuídos às sanções”. Contudo, o mesmo raciocínio não se aplica à “repressão”: a responsabilidade pelas violações dos direitos humanos recai sobre o Estado iraniano, ponto final. A maior potência da história da humanidade impõe um bloqueio econômico quase total ao país por quase 50 anos, e ainda assim o Estado é culpado por tudo — lembrem-se, o Estado nascido da Revolução de 1979, pois nunca se ouviu um pio sobre a sangrenta repressão da ditadura fantoche de Reza Pahlavi.

“A repressão sistemática da dissidência, as restrições às liberdades civis e políticas, a discriminação contra minorias, mulheres e meninas, a má gestão econômica e a corrupção, e décadas de degradação ambiental”, conclui Sato, “refletem escolhas de política interna pelas quais as autoridades iranianas são responsáveis”. Isso parece ser um ataque claro e barato — fora do mandato do relator — ao modelo político e econômico escolhido pelo povo iraniano em 1979. Talvez seja um dos sinais mais evidentes de interferência e uma tentativa arbitrária de forçar uma mudança de regime por meio das Nações Unidas.

Em última análise, o relatório de Sato serve para justificar o ataque de décadas contra a população iraniana, promovido pelos Estados Unidos e seus aliados, inclusive por meio das Nações Unidas. Ele encobre os verdadeiros ataques aos direitos humanos dos iranianos e incentiva sua continuidade, tentando incriminar o governo iraniano e pressioná-lo a seguir os ditames das mesmas potências que sustentaram a ditadura do Xá e que agora atacam o país, inclusive militarmente.

Ou, como reconheceu o próprio Maurice Copithorne, relator entre 1995 e 2002: este trabalho é um esforço de “guerra psicológica” destinado a quebrar a resiliência do povo iraniano.

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