O caso Ypê

Imagem: Jessica Tan


Por CRISTIANO ADDARIO DE ABREU*
aterraeredonda.com.br/


A paralisia regulatória no caso Ypê expõe a captura do aparato estatal pelos monopólios e a ineficácia das agências públicas diante do dogma da autorregulação

Eis que mais um problema sanitário, depois das bebidas envenenadas há pouco tempo terem, literalmente, destruído a paz etílica dos brasileiros, surge agora bem nos produtos de limpeza: a Anvisa notificou que a marca Ypê tem um lote de produtos contaminados com uma superbactéria resistente a antibióticos. A bactéria é a Pseudomonas aeruginosa e a Anvisa determinou a suspensão e o recolhimento de mais de 100 lotes e 24 itens de limpeza (com numeração final 1) devido a falhas no controle de qualidade e risco de contaminação microbiológica.[i]

Então um padrão cíclico de produtos contaminados/envenenados passou a ocorrer? O que ajudaria a explicar o que está ocorrendo?

Pois o próprio procedimento coletivo de “como lidar” com o “caso Ypê” (L’affaire Ypê: como, ironicamente, prefiro nomear) pode iluminar os descaminhos do que está acontecendo.

Caso sua casa tenha produtos identificados com os que precisam ser recolhidos, o que é para fazer? Há pessoas que voltaram ao supermercado com os produtos, e as notas de compra, e o comércio se recusa a devolver o dinheiro, ou a trocar os produtos. Há os que ligam e escrevem para a Ypê: e essa empresa, logo sua diretoria, simplesmente ignora o tsunami de reclamações, escondidos que estão. E, last but not least, há os que ligam para a Anvisa, a agência pública nacional responsável pelo assunto sanitário.

Ligando para a Anvisa e pedindo orientação do que fazer com os produtos identificados para serem “recolhidos” (por quem e onde?), a funcionária responde que “a empresa Ypê ainda não determinou” (palavras dela!) “o que é para ser feito”. Ao ser mais específico e perguntando se “havia algum tutorial da Anvisa sobre o que fazer com os produtos identificados nas casas das pessoas”, a funcionária some por um tempo para achar uma resposta, e retorna com ela: “a Anvisa não indicou, ou liberou, nenhum tutorial de como proceder com os produtos que devem ser recolhidos”. Ponto! (n°. do protocolo de contato com a Anvisa: 2026116671).

O que essa curta descrição demonstra é que o neoliberalismo (essa religião sectária laica) já domina o aparelho de Estado. Pois a primeira resposta dos funcionários da Anvisa sobre o caso é: “a empresa Ypê ainda não determinou o que é para fazer”. Como assim??? Quem tem que determinar o que quer que seja é o estado brasileiro, através de sua agência reguladora responsável (Anvisa). Mas eis aqui o exemplo, para lá de pós-moderno, kafkiano, da eficiência dos “mercados autorregulados”: um dos dogmas da religião neoliberal é a capacidade autorregulatória dos “mercados”.

Pois é evidente o caos que sempre sairá disso. Que é o mesmo que dizer ser mais eficiente as raposas cuidarem do galinheiro. Os “mercados” já foram aqui postos entre aspas porque quem escreve este artigo é um braudeliano que sabe que mercados são um andar econômico, e capitalismo é outro andar: capitalismo é o andar monopolista, ligado aos Estados, capitalismo é o antimercado.[ii] Os mercados (que tendem ao monopólio), e seus monopólios de vanguarda, precisam dos Estados: quanto maiores os “mercados” maiores serão os Estados. Tais Estados são usados pelas empresas para socializar custos e problemas, mas precisam responder também por seus abusos e eventuais crimes: o grande exemplo histórico desse modelo de capitalismo “com cara humana” é o New Deal, com um Estado forte regulando o capital e os mercados, para salvar o capitalismo dele mesmo.

Old Deal – o império contra-ataca dos grupos monopólicos

Esse modelo do New Deal, identificado com o governo Franklin D. Roosevelt (1933-1945), foi marcado por forte regulação estatal da economia privada, e uma azeitada coordenação Estado e empresas, com contratos governamentais generosos, como o lend-lease no caso do Complexo industrial-militar, estruturas jurídicas engenhosas para colaboração mútua entre capitalistas e Estado, mas que incluíam a agenda trabalhista e sindical por direitos na equação (e ainda a sanitária, e hoje cada vez mais a ecológica deveria entrar).

Pois as agências reguladoras são um eixo central para o funcionamento do New Deal: agências estatais controlam e regulam (e ajudam) os setores econômicos. E aqui se destaca que o New Deal não foi um raio isolado: o governo então catalisou forças acumuladas nos EUA desde o fim do século XIX, quando após a Guerra Civil a economia dos EUA foi dominada por grandes grupos monopolistas que dominavam cada setor estratégico, com a ajuda do Estado nacional, com imensas tarifas protecionistas.

Cada setor produtivo estratégico tinha seu “Barão Ladrão” monopolista (Robber baron): John D. Rockefeller fundou a Standard Oil Company em 1870, construindo um império que controlou cerca de 90% da indústria petrolífera dos Estados Unidos, a Carnegie Steel Company foi fundada por Andrew Carnegie em 1892, monopolizando o setor de aço nos EUA, e assim foi por cada setor estratégico.

Mas as reações antimonopolistas, do lado dos trabalhadores, dos consumidores, e dos pequenos produtores devorados por esse tipo de capitalismo selvagem, geraram uma onda Progressista com leis regulatórias, que são a base da própria ideia de agências reguladoras na virada do séc. XIX para o XX, e do próprio New Deal depois.

Curiosamente, uma dessas agências fundantes desse modelo de regulação foi a Food and Drug Administration (FDA): cuja primeira organização remonta a 1906, sendo depois reestruturada em 1927. A FDA foi criada pelo tio do Roosevelt democrata do New Deal, o presidente republicano Theodore Roosevelt em 1906 com o Pure Food and Drugs Act. E como o próprio nome da lei de sua criação indica, era uma lei para regulamentar a produção de alimentos e remédios, para que estes fossem “puros”. Logo, sem contaminação, envenenamentos, e outros crimes que quando a produção de alimentos não tem como principal fim a própria alimentação, mas o lucro (valor de troca, em vez de valor de uso), e a produção de remédios não tem como principal fim curas, mas sim lucros, problemas ligados à produção em larga escala, e com a obsessão por lucros, não param de surgir.

Nas brigas legislativas que levaram à criação da FDA havia uma lista de casos documentados de carne enlatada com partes de dedos humanos no Menu… Dedos de operários que sofreram acidentes de trabalho, mas as empresas não se furtavam a atender a demanda por carne: the show must go on.

A FDA é assim uma empresa historicamente modelar para se analisar L’affaire Ypê, pois a brasileira Anvisa pode ser vista como uma equivalente brasileira da FDA, assim como o modelo das “agências reguladoras” foi estruturado em sua formatação atual nos anos 1990 com FHC, justamente copiando o modelo dos EUA e escanteando o modelo mais varguista de empresas estatais nos setores estratégicos (Vargas até esperou um Plano Marshall para a América Latina, mas na ausência dele, estruturou o modelo das estatais). E o que se presencia com o “caso Ypê” (aqui chamado de L’affaire Ypê, em referências aos affaires políticos da Belle Époque, da Gilded Age, desse período da virada do séc. XIX para o XX) é que esse modelo de agências reguladoras sem empresas estatais no setor, enfraquece muito a regulação em si, e tem se demonstrado bastante ineficaz: como os recorrentes casos de envenenamento de bebidas e agora produtos de limpeza têm demonstrado.

Como já escrito anteriormente no site A Terra é Redonda,[iii] o presente artigo retorna ao período reconhecido na história dos EUA como Gilded Age, porque aquele foi o momento em que naquele país emergiram as forças populares que resultariam no New Deal rooseveltiano, buscando regulamentar os grandes grupos monopolistas, pelos direitos dos trabalhadores, dos consumidores, e dos outros pequenos produtores independentes, em uma luta antimonopolista que no Brasil, infelizmente, é absolutamente ausente.

Aqui ainda resta algo da luta trabalhista, mas tudo tem se reduzido ao “direito do consumidor”, e nenhuma consciência sobre direitos produtivos, contra a monopolização de tudo. Nada disso: no Brasil há uma total confusão entre capitalismo e mercado, e um debate antimonopolista, para uma verdadeira regulação dos setores monopolistas ou oligopolistas, é algo completamente inexistente. Isso não apenas em nossos legislativos anômalos, ignorantes e corrompidos pelas grandes corporações, mas também na sociedade em geral, incluindo as esquerdas, e mesmo nas universidades, um real debate antimonopolista é quase inexistente, diferentemente do que ocorre nos EUA.[iv]

E cada vez mais, diante do sequestro do espaço público pelas Big Tech monopolistas, com tais empresas sequestrando a própria consciência coletiva, os dados pessoais, as vias de comunicação para trabalho e vida pessoal, familiar, afetiva: as Big Tech privatizam a política, porque as pessoas (incluso as de esquerda) estão tratando as “redes(anti)sociais” como Ágoras públicas, e isso é a última coisa que elas são. A redução do espaço público às redes digitais produz cidadãos embriagados (viciados) de “atividade digital” nas redes, que são cegos para a vital necessidade de regulação dessas redes, inclusive com a absoluta necessidade da criação de empresas públicas de comunicação digital,[v] até para haver uma possibilidade de regulação das Big Tech.

L’affaire Ypê é a demonstração da privatização da política, capitaneada pelos grandes monopólios, com as Big Tech no comando (todos esses grupos combatem qualquer regulação estatal). A Anvisa responder que “aguarda a empresa Ypê dar as orientações sobre o que fazer com os produtos suspeitos de conterem superbactéria” é muito ilustrativo e didático de onde está o Brasil: está sob um capitalismo neoliberal desregulamentado para os monopólios, em que as raposas regulam o galinheiro.

Na página da Anvisa (vista no dia 19/05/2026) há a informação de que graças a um recurso da empresa Ypê: “O recolhimento foi suspenso, mas a referida agência reguladora: (Anvisa) manteve parte da proibição sobre os produtos Ypê. Na prática, significa que a suspensão do comércio, da fabricação, da distribuição e do uso de detergentes lava-louças líquidos, sabões líquidos para roupas e desinfetantes líquidos com lotes de numeração final 1 – elencados na Resolução 1.834/2026 – permanece válida”.[vi]

Assim, por uma judicialização, a empresa conseguiu que “o recolhimento dos produtos fosse suspenso”, mas a Anvisa afirma que a proibição ao uso e comercialização desses produtos segue valendo exatamente como antes da decisão judicial. Logo, segue a dúvida: o que fazer com os produtos interditados?

Na novilíngua orwelliana os produtos estão proibidos, mas acusar a empresa Ypê é crime a ser notificado no ministério da verdade.

Na mesma página da Anvisa é avisado, dia 19 de maio, que não há plano de descarte dos produtos ainda, e que a empresa é que dará, quando lhe aprouver, um plano do que fazer:

O recurso apresentado pela empresa seguirá o trâmite normal na Agência e um plano de gestão para os produtos já distribuídos, incluindo orientações ao consumidor, deve ser apresentado pela fabricante. Até que seja iniciado, a recomendação é que as pessoas não usem os itens suspensos e mantenham esses produtos lacrados ou bem fechados em local seco e ventilado. Outras orientações serão fornecidas pela empresa, que pode ser contatada por meio do seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).

Eis o espetáculo da perfeita “autorregulação dos mercados”. E não há mais cidadãos, há só consumidores… O presente artigo conclui que é óbvio que o modelo de “agências reguladoras” está sob ataque no Brasil, diante da força corruptora dos monopólios e oligopólios, e se não houver uma retomada estatista por parte das forças progressistas governamentais[vii] o sonho rooseveltiano de que falava André Singer[viii] colapsará em um pesadelo do capitalismo desregulamentado dos neoliberais, com um Old DealOld Deal este que recebe louvores de adoração de uma juventude doutrinada para “enriquecer”, sem reconhecer nada de coletivo na construção das riquezas e valores, pois tudo é feito “pelo indivíduo”, sozinho.

E as massas que “se politizam” nas redes das Big Tech não saem do credo neoliberal e da luta “pela liberdade” individual…claro: pois o coletivo não existe. E assim não enxergam que sua realidade é moldada por grupos (coletivos) monopolistas gigantes, muito bem planejados (com capitalizados departamentos de Foresight em todas essas empresas) lhes direcionando onde devem enfiar a sua tal liberdade.

E assim, sem conhecer a história de um país que foi o primeiro laboratório do capitalismo monopolista[ix] no mundo, a juventude brasileira nem sonha em compreender o quanto a luta antimonopolista e regulatória naquele país poderia iluminar e redirecionar para soluções de tantos problemas do capitalismo brasileiro atual. E grande parte dessa juventude segue lutando pela liberdade dos grupos monopólicos em envenenar “livremente” todos no Brasil (talvez quando pedaços de dedos humanos começarem a aparecer nos sucrilhos deles, talvez aí, comecem a achar que algo está estranho neste Brave New World).

A bem da verdade, nem a juventude, nem tampouco as elites no Brasil estão dispostas a encarar o Minotauro do capital monopolista, neste momento de crise sistêmica do capitalismo mundial. A juventude por total cegueira e ignorância, as elites por cegueira voluntária, que é um nome mais elegante para covardia política.


*Cristiano Addario de Abreu é doutor em história econômica pela USP.

Notas


[i] https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/05/13/bacteria-pseudomonas-aeruginosa-anvisa.ghtml

[ii] BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. (Vol. 3, O Tempo do Mundo) São Paulo: Martins Fontes, 1996.

[iii]https://aterraeredonda.com.br/a-ditadura-do-esquecimento-compulsorio/

[iv]https://yalelawjournal.org/pdf/e.710.Khan.805_zuvfyyeh.pdf

[v]https://www.brasil247.com/blog/a-inteligencia-artificial-e-a-estrada-da-servidao-voluntaria

[vi]https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-mantem-proibicao-de-uso-distribuicao-fabricacao-e-comercio-de-lotes-da-ype

[vii]https://www.brasil247.com/blog/o-sonho-de-haddad-ser-o-jk-de-lula-precisa-retomar-um-plano-o-tripe-de-jk

[viii] André Singer, Os Sentidos do Lulismo, Companhia das Letras, 2012

[ix] BARAN, Paul A. SWEEZY, Paul. Monopoly capital. NYU Press, 1966.


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