O tempo da crítica

Mário Pedrosa e Lula. Imagem: projeto Mário Pedrosa 120 (Cemap/Cedem-Unesp).

Por Tiago Ferro

Há um ponto em que a gramática habitual da política – convicção, programa, identidade – entra em colapso. Aparentemente não por esgotamento interno, mas porque algo externo a ela passa a disputar o próprio terreno do jogo: forças de caráter fascista se tornam candidatas viáveis e, mais grave, normalizadas nos processos eleitorais. Nesse cenário, o voto deixa de ser apenas expressão e passa a funcionar como contenção. 

A esquerda (aqui pensada em termos amplos, incluindo os chamados progressistas, grupos organizados por identidades e o que restou de movimentos trabalhadores), que historicamente reivindica o voto como gesto de afirmação de valores, de projetos de sociedade e de horizontes emancipatórios, vê a si própria constrangida a operar de forma defensiva. Não se trata mais de escolher “o melhor”, mas de impedir “o pior”. O voto útil, antes um expediente tático ocasional, transforma-se em regra estrutural. E com isso, desloca-se o próprio sentido da participação política: votar já não é dizer o que se quer, mas o que não se deve permitir. 

A mudança interessa. Gera, se não estamos enganados, uma reorganização do tempo da crítica. Antes da eleição, instala-se uma espécie de estado de exceção crítico: qualquer ataque a candidaturas com maior capacidade de derrotar a opção fascista passa a ser visto como irresponsável, ou mesmo, cúmplice. A crítica, nesse momento, é rebaixada a ruído perigoso. Ela não desaparece, mas é moralmente deslegitimada: “não é hora disso”. Depois da eleição, o paradoxo se aprofunda. A lógica de contenção não é desativada com a derrota eleitoral do fascismo, já que sua ameaça se estabelece definitivamente no horizonte. A crítica às gestões eleitas sob o signo do “mal menor” tende a ser novamente inibida, agora sob o argumento de que qualquer desgaste pode pavimentar o retorno das forças autoritárias. A exceção se prolonga no tempo (afinal, quando começa e quando termina o pós e o pré eleições?), e o provisório adquire feição permanente – a política se torna onipresente ao mesmo tempo que impotente. 

É nesse ponto que o problema do “tempo da crítica” deixa de ser apenas conjuntural e revela uma história mais longa, e, no caso brasileiro, um impasse específico. Nos anos 1950 e 1960, figuras como Mário Pedrosa encarnaram uma forma de crítica que não reconhecia fronteiras rígidas entre estética e política; mais do que isso, tiravam a força de suas análises justamente dessa relação. Sua escrita atravessava obras, movimentos artísticos e acontecimentos históricos com a mesma intensidade, revelando a forma artística (no caso de Pedrosa, as artes plásticas) e a forma política como aspectos de um mesmo processo social. A crítica funcionava como intervenção: tentativa de reorganizar o campo de forças que disputavam a sociedade. 

Esse modelo implicava um pressuposto hoje rarefeito: o de que a crítica pode produzir efeitos reais, ou seja, não apenas interpretar ou avaliar, mas deslocar práticas, tensionar instituições e abrir possibilidades – haveria uma longa lista de intelectuais da periferia capitalista, no pós-Segunda Guerra, que encarnou esse ideal. Ao imbricar crítica artística e crítica política, Pedrosa operava num momento em que ainda era possível imaginar uma continuidade entre transformação cultural e transformação social, e o futuro da periferia do sistema ainda não era a decomposição do pouco que havia sido alcançado com o nosso processo civilizatório sempre a reboque. 

O que se perde, então, entre aquele momento e o nosso? Em parte, a própria condição de possibilidade dessa crítica. A expansão e a onipresença do mercado capturam e neutralizam a crítica ao convertê-la em mais um elemento de circulação simbólica (como suporte de mercadorias): opinião e avaliação. O que antes pretendia desestabilizar, passa a ser integrado como valor agregado positivo. Mas há ainda o segundo movimento: a própria esquerda passa a desconfiar desse tipo de crítica, sob a bandeira de que se deve buscar a convergência de opiniões (no fim, sempre desembocando no mercado e sentenciando qualquer plataforma de esquerda a algum tipo de frustração futura). Desconfia-se então não apenas da crítica externa, mas da crítica interna, que passa a ser vista como fator de divisão ou elitismo teórico – tudo isso mais ou menos justificado por conta do risco (real) fascista. 

Se nos anos de Pedrosa a crítica era uma prática que tensionava o mundo em nome de sua transformação, hoje, ela frequentemente aparece como algo a ser contido em nome da sobrevivência. O deslocamento é profundo: da crítica como força produtiva à crítica como risco. E isso ajuda a entender por que, no cenário eleitoral marcado pela opção fascista, ela se torna tão facilmente interditada.  

A evocação de Pedrosa não é tratada aqui como nostalgia, mas como índice de um problema: o desaparecimento de uma figura de crítico capaz de habitar simultaneamente o campo simbólico e o campo político sem ser imediatamente neutralizado por um ou por outro. Hoje, quando a crítica tenta se exercer, ela é rapidamente capturada: pelo mercado, que a transforma em adorno; ou pela urgência política, que a transforma em ameaça. 

Há ainda uma consequência importante e difusa desse esquema de um novo tempo da política: ao deslocar o voto da esfera da convicção para a da contenção, altera-se também o “antes” e o “depois” da eleição no plano subjetivo. O eleitor que vota reiteradamente contra algo, e não por algo, tende a experimentar uma relação mais frágil com o resultado. A identificação com o governo eleito é menor, a expectativa é rebaixada e a disposição para defendê-lo no longo prazo pode se corroer (qualquer semelhança com a mais recente rodada do PT no governo federal não é mera coincidência). Paradoxalmente, a estratégia que impede o avanço autoritário pode, se prolongada sem mediações, produzir um campo democrático desmobilizado e cínico (qualquer semelhança com a mais recente rodada do PT etc. etc.). 

Isso não significa que “rifar” o voto (no sentido de priorizar a derrota do fascismo) seja um erro. Em muitos contextos, pode ser uma necessidade histórica incontornável. Mas reconhecer essa necessidade não deveria implicar naturalizá-la como horizonte permanente, ou, pior, rifar a própria consciência. O desafio está em reabrir o espaço da política como escolha positiva, e não apenas como bloqueio do pior; isso em tempos de descrédito completo do liberalismo (que segue vivo) e do desaparecimento da alternativa socialista (morta até segunda ordem); tempo ainda marcado e condicionado pelos pressupostos da modernidade, mas que exige a reinvenção total da sociedade a partir do funcionamento de suas ruínas.

A crítica, em momentos extremos, pode ser a própria condição para que o campo democrático não se reduza à mera gestão do medo, ou pior, da barbárie. Nesse caso, o que o esquema aqui proposto (conjuntural e histórico) encontra, é menos a falência de uma certa forma de pensar a sociedade, mas o esgotamento de suas condições. A soma dos pleitos em que fomos “obrigados” a referendar o liberalismo como opção única a conter a ameaça fascista parece impor uma questão decisiva: o que é esquerda hoje? Refletida com honestidade, a resposta revela não apenas o que temos evitado a cada nova eleição, mas, principalmente, se o tipo de sociedade que ajudamos a construir não é também a causa da possibilidade do pior.   

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Tiago Ferro é escritor, crítico e editor. Autor dos romances O pai da menina morta (vencedor do Prêmio Jabuti 2019) e O seu terrível abraço (2023). Tem doutorado em história social pela USP, com tese sobre a obra de Roberto Schwarz. Colabora regularmente com textos sobre cultura e sociedade para a Folha de S.Paulo e a revista Piauí. Pala Boitempo, publicou Prisão perpétua: e outros escritos (2025).

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