Os nomes das guerras



Nonato Menezes

Tudo que fazemos, tudo que nos cerca, precisa ter um nome. Nomear os seres vivos, as coisas e os processos é uma necessidade humana atemporal. É a semântica que nos confere o entendimento e a compreensão das pessoas, dos elementos e dos fatos.

No caso das Guerras, esses eventos produzidos pela inteligência humana, a identidade segue um padrão. Há Guerras que foram batizadas com o tempo que duraram; Cem Anos, por exemplo. Outras seguem os números ordinais; Segunda Guerra Mundial, um exemplo. Há outras que, circunscritas a uma região ou país, levam nomes de Guerras Civis, ainda que seja, a maioria, provocada, alimentada e vencida ou perdida por militares. Mas há outras Guerras, aquelas que levam nomes de países. No geral, países que foram agredidos, violentados, destruídos. Talvez, um motivo para essa opção seja menos poder para impor.

Por que o nome Guerra do Vietnam? O Vietnam não provocou a Guerra. Venceu, é verdade. Perdeu milhões de pessoas, teve suas terras contaminadas e contraiu problemas que até hoje a sociedade convive com eles. Mas a Guerra levou seu nome: Guerra do Vietnam.

Guerra da Coreia, semelhante à do Vietnam em alguns aspectos, não foi batizada com o nome de um de seus agressores como a França e ou dos EUA, por exemplo. Ficou mesmo, Guerra da Coreia.

Guerra do Ópio é um registo histórico que foge do padrão, não pelos danos produzidos aos chineses, mas, talvez, para esconder as responsabilidades e os lucros exorbitantes obtidos pelos ingleses como resultado daquela infame trapaça.

A lista é enorme e nela podemos acrescentar: Guerra do Afeganistão, Guerra do Iraque, Guerra da Líbia e a atual Guerra do Irã, entre outras.

O conflito que envolve o Líbano e a Palestina, ainda não foi nomeado, mas é de se prever, caso o batismo seja feito, jamais levará o nome do agressor. Israel, pelo jeito, nunca terá seu nome cunhado em uma das guerras por ele provocada. Pode provocar, destruir, invadir, matar dez ou centenas de milhares de pessoas, nunca teremos um desses conflitos com nome Israel ou Guerra de Israel. O mesmo padrão serve para o Império. Com tantos conflitos provocados por ele, mundo afora, não temos sequer um que tenha sido nominado Guerra dos Estados Unidos do América. Não importa se ganharam ou perderam uma das Guerras. O nome Guerra dos Estados Unidos da América não consta e jamais constará nos livros de História.

É um padrão estranho e só pode ser entendido na perspectiva das relações de poder. Afinal, a formatação da narrativa costuma delinear o Fato Histórico. E se um dos princípios da História é sua localização, nomear guerras com nomes de países agredidos e destruídos segue a lógica da dominação, do poder bruto que usa tudo que for possível para se sobressair como vencedor, como dominante, como mais capaz. Inclusive, com o uso da linguagem como método para desviar as atenções e julgamentos sobre responsabilidades e benefícios.

No final das contas, nem sempre quem ganha nos campos de batalha se beneficia dos despojos da guerra. O que, também, não confere a quem tem menos poder nomear o conflito.

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários

  1. Uma verdadeira aula didaticamente explicativa . Quem dera se os professores de História falasse com essa simplicidade e clareza, assim as aulas não seriam tão monótonas .

    ResponderExcluir

Postar um comentário

12