Para onde vai o BRICS

Logomarca da Cúpula do BRICS de 2026. A Índia assume a presidência do BRICS em um momento de expansão e reconfiguração do grupo (Foto: Reprodução)


O BRICS, como se sabe, não é um grupo homogêneo politicamente, que responda de forma monolítica às questões da geopolítica global

Por Luiz Augusto Erthal 

A guerra lançada por Israel e Estados Unidos contra o Irã revelou a primeira fratura exposta do BRICS desde a sua criação, há exatos 20 anos. Pela primeira vez, países membros efetivos do bloco se viram em lados opostos da trincheira de uma guerra real e tiveram que sentar à mesma mesa nos dias 14 e 15 de maio, em Nova Délhi, na reunião de ministros de relações exteriores preparatória para a cúpula de setembro deste ano, na Índia.

O BRICS, como se sabe, não é um grupo homogêneo politicamente, que responda de forma monolítica às questões da geopolítica global. O que dá liga à organização é a busca de novos caminhos nas relações internacionais, desimpedidos e capazes de estabelecer as sinapses de uma rede neural livre de tutelas e hierarquias - o chamado mundo multipolar.

Mas esta é a primeira vez que dois ou mais membros plenos se enfrentam em um campo de batalha e que os interesses nacionais ameaçam as convicções libertárias do bloco, basicamente pela contradição de dois deles - Arábia Saudita e Emirados Árabes -, cujas posições aderentes à hegemonia imperialista ocidental se contrapõem à essência básica do BRICS.

Ambos os países cederam seus territórios e espaços aéreos em apoio logístico para os ataques norte-americanos e israelenses ao Irã. Essa, na verdade, não é uma aliança recente. Vigora desde 1973 o império do petrodólar, um acordo tácito entre as petromonarquias árabes e os norte-americanos, que consolidou o dólar como o Mamom da economia global, um ídolo que os BRICS desejam derrubar. Há tempos, também, os Estados Unidos mantêm, tanto na Arábia Saudita quanto nos Emirados Árabes, bases militares, as quais foram bombardeadas, agora, em retaliação, e podem ser exibidas pelos iranianos como verdadeiros troféus de uma guerra virtualmente vencida por eles, para humilhação suprema de Donald Trump e do MEGA.

Além disso, ainda paira no ar o mal estar causado pela visita amistosa de Narendra Modi, primeiro ministro da Índia - país que recebeu do Brasil a presidência rotativa do BRICS no início do ano -, ao primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, às vésperas do ataque traiçoeiro lançado por ele e por Donald Trump no dia 28 de fevereiro, matando logo no primeiro dia da guerra o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e mais de 170 crianças em uma escola para meninas em Minab - um dos mais covardes e brutais atos de guerra de que se tem notícia.

Mas, ao contrário do que se poderia supor, a fratura do BRICS no Oeste da Ásia não foi capaz de paralisar o bloco em sua marcha anti-hegemônica. Houve, inclusive, avanços significativos nas posições relativas ao direito do povo palestino à sua auto-determinação e também a uma inédita defesa do continente latino-americano como zona de paz: recados diretos emitidos pelo BRICS para Israel e Estados Unidos.

Evidentemente alguns pontos mais sensíveis, como a guerra envolvendo Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes, tiveram que ser contornados e ficaram sem um enfrentamento direto. Esse fato foi explorado pela imprensa oligárquica brasileira, vassala do imperialismo norte-americano, que em sua cobertura rasa da reunião em Nova Délhi bradou em coro que os chanceleres do BRICS não conseguiram emitir uma declaração conjunta em razão das divergências internas.

Isso se deu também na reunião preparatória para a Cúpula do Rio de Janeiro, no ano passado, no histórico Palácio do Itamaraty, no Centro da capital fluminense, que eu tive a oportunidade de cobrir pessoalmente. Assim como fez o Brasil naquela ocasião, no entanto, a Índia emitiu uma “Declaração da Presidência e Documento Final da Reunião de Ministros das Relações Exteriores”. É desse documento, omitido pela imprensa brasileira, que se pode extrair os passos mais importantes dados nessa reunião.

Os chanceleres do BRICS trataram de questões pertinentes ao tema "Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, como a reforma das Nações Unidas, com o apoio explícito às pretensões de Brasil e Índia a se tornarem membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU; o fortalecimento da segurança alimentar, destacando a necessidade de se avançar na criação da Bolsa de Grãos do BRICS; a preservação da biodiversidade do planeta, combatendo a desertificação e a degradação dos solos; a cooperação na área de saúde, incluindo a saúde digital e a medicina nuclear; e o emprego da inteligência artificial para o desenvolvimento sustentável.

Mas é na questão palestina que a reunião de chanceleres estabeleceu uma mudança de paradigma do BRICS em relação ao direito internacional. A retórica do bloco sobre a Palestina evoluiu — afastando-se da “solução negociada” e da “solução de dois Estados” em direção ao “direito à autodeterminação”, ao “direito a um Estado independente” e à definição da integridade territorial.

O ponto 25 da declaração enfatiza que “os Ministros reiteraram sua profunda preocupação com a situação no Território Palestino Ocupado, com a retomada dos contínuos ataques israelenses contra Gaza e a obstrução da entrada de ajuda humanitária no território. Apelaram ao respeito ao direito internacional, em particular ao direito internacional humanitário e ao direito internacional dos direitos humanos, e condenaram todas as violações do DIH, incluindo o uso da fome como método de guerra.” E termina apoiando “as medidas provisórias do Tribunal Internacional de Justiça no processo judicial instaurado pela África do Sul contra Israel”.

Também em relação ao Sul do Líbano, os chanceleres do BRICS “condenaram as contínuas violações do cessar-fogo e da soberania e integridade territorial do Líbano. Apelaram a Israel para que respeite os termos acordados com o governo libanês e retire as suas forças de ocupação de todo o território libanês, incluindo os cinco locais no sul do Líbano onde se encontram.”

A defesa do povo cubano contra as ameaças e o boicote norte-americano e da América Latina como um território de paz foi outra posição inédita assumida no documento: “Sublinhando o caráter da América Latina e do Caribe como uma zona de paz, construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica de controvérsias e a não intervenção, os Ministros expressaram preocupação com a evolução da situação relativa a Cuba. A este respeito, reiteraram a necessidade de pôr fim às medidas econômicas, comerciais e financeiras contra Cuba, em conformidade com a Resolução A/79/80 da Assembleia Geral da ONU”.

Mas a espinha dorsal de uma arquitetura geopolítica com o DNA BRICS não foi tratada pelos chanceleres. Longe dali, um movimento triangular entre Moscou, Teerã e Pequim vem acontecendo nas últimas semanas.

Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, esteve na Rússia e na China em um espaço de pouco mais de uma semana. Entre o final de abril e o início de maio, foi recebido pessoalmente pelo presidente Vladimir Putin em São Petersburgo - algo raro na diplomacia de alto nível - e pelo seu homólogo chinês, Wang Yi, em Pequim.

O resultado dessa triangulação viria na visita de Putin à China, no início desta semana, quando ele e Xi Jinping emitiram um documento conjunto, condenando veementemente as operações e ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, classificando-os como violações graves ao direito internacional. Este foi o parágrafo oculto na manifestação dos chanceleres em Nova Délhi; a tácita declaração conjunta do BRICS, chancelada pelos dois maiores líderes do bloco. O BRICS diz, afinal, para onde vai.

*Luiz Augusto Erthal é jornalista, editor executivo do jornal Toda Palavra. Organizou em julho de 2025, à margem da Cúpula do Rio de Janeiro, o BRICS Press Meeting, reunindo mais de cem jornalistas de vários países do Sul Global.

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