Relatório aponta laços da ‘força-tarefa’ com várias instâncias de poder na emissora
CONSÓRCIO AZEITADO
Maior sucesso de público da história do Brasil, a autoapelidada “operação lava-jato” levou os brasileiros a um êxtase comparável à vitória da seleção canarinho em final da Copa do Mundo. Até que se descobrisse que tudo não passou de um esquema. Um grande conto do vigário.
O enredo, de uma grande luta do bem contra o mal, esboroou quando se descobriu que a trama era artificial e que seu combustível eram projetos pessoais. A hipnose coletiva consistia em ilusões de ótica. Tratava-se de uma fábrica de falsos heróis e falsos vilões com o objetivo de explorar a ignorância do país.
Os mecanismos e alarmes existentes, destinados a disparar em caso de arrombamentos do sistema falharam. Antes: em vez de proteger as vítimas, ajudou os criminosos.
Essa é a conclusão de um meticuloso estudo produzido por um doutor em Direito pela Universidade de São Paulo — que não se quis identificar. O objeto do estudo foi o envolvimento da poderosa Rede Globo no esquema de Curitiba.
Colaboração estreita
Com base em reportagens que trataram do elo entre a Globo e a dita “força-tarefa”, em especial as publicadas na série Vaza Jato, o relatório aponta que o consórcio ia muito além do contato rotineiro entre uma emissora e suas fontes.
Por um lado, a parceria incluía vazamentos coordenados de materiais da investigação, que eram liberados com sincronia cirúrgica para serem exibidos nos telejornais.
Conforme aponta o relatório, a “lava jato” chegou a decidir a data de depoimentos com base na utilidade e no impacto que isso teria no Jornal Nacional da semana seguinte.
A Globo, por sua vez, agiu para blindar a imagem do Ministério Público Federal em momentos de crise e abriu suas portas para impulsionar causas do órgão — em especial as chamadas “Dez medidas contra a corrupção”, que propunham desfigurar o Direito Penal.
Cumplicidade em vários níveis
O relatório sustenta que o esquema operava em quatro níveis: operacional, editorial-estratégico, político-institucional e gerencial-corretivo.
Mensagens que integram o arquivo da Vaza Jato apontam que o ex-procurador Deltan Dallagnol, rosto mais conhecido da “força-tarefa”, mantinha tratativas com vários escalões da Globo, que iam desde a cúpula até os repórteres que cobriam a operação.
Nível operacional
O relatório mostra que a “lava jato” dava informações exclusivas à emissora com o objetivo declarado de pautar a opinião pública.
Em um caso de julho de 2015, por exemplo, Dallagnol instruiu colegas a reterem informações sobre executivos da construtora Odebrecht para garantir exclusividade ao Jornal Nacional. O documento só foi anexado no sistema da Justiça Federal 11 minutos antes de o telejornal ir ao ar.
A mesma dinâmica foi observada em outros casos semelhantes. Em setembro de 2016, Dallagnol comemorou que o depoimento de um ex-diretor da Petrobras, que implicaria o presidente Lula, poderia ir para o telejornal na semana seguinte para “ajudar” a investigação.
Nível editorial-estratégico
Profissionais da emissora atuaram como consultores informais e da operação. O principal deles, segundo o relatório, era o repórter Vladimir Netto, que cobria a ‘lava jato’.
Em março de 2016, após a condução coercitiva de Lula determinada pelo então juiz Sergio Moro, Dallagnol e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima redigiram uma nota para defender o magistrado das críticas.
Antes de divulgar o texto, Dallagnol enviou-o a Vladimir Netto pedindo suas impressões. O jornalista sugeriu cortar o início do comunicado e foi prontamente atendido pelos procuradores, que ajustaram o documento oficial com tempo suficiente para que fosse lido no Jornal Nacional.
Nível político-institucional
O relatório aponta que a “lava jato” articulou diretamente com a alta cúpula do grupo Globo para garantir apoio editorial, espaço publicitário gratuito e reportagens favoráveis às chamadas Dez Medidas Contra a Corrupção, um projeto legislativo que os procuradores tentaram emplacar e que acabou enterrado no Congresso.
As conversas mostram que essa aproximação começou após o procurador Daniel Azeredo jantar com José Roberto Marinho, vice-presidente do grupo, ocasião em que debateram a criação de uma série no Jornal Nacional favorável ao projeto.
Posteriormente, o próprio Dallagnol teve um almoço reservado com o presidente dos conselhos editorial e institucional do grupo, João Roberto Marinho, com a intenção expressa de evitar repercussões negativas.
Em decorrência dessa articulação com a diretoria e após conversas com o colunista Merval Pereira, o jornal O Globo publicou textos em defesa da pauta dos procuradores, e o grupo cedeu espaços publicitários de graça em diversos de seus programas televisivos.
Nível gerencial-corretivo
Conforme aponta o relatório, a força-tarefa usava sua influência na emissora para fazer controle de danos em crises de imagem.
No caso mais notório, o procurador Ângelo Goulart Villela foi preso sob a acusação de vender informações a investigados. Para estancar o desgaste da corporação, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, recorreu a Dallagnol para conseguir com urgência o contato de João Roberto Marinho.
Segundo apontam as mensagens da Vaza Jato, Dallagnol repassou o número de Marinho a Janot e sugeriu que o então PGR desse uma entrevista ao canal.
Logo em seguida, o Fantástico levou ao ar uma reportagem circunscrevendo a crise, retratando o procurador como traidor e consertando o dano institucional perante a opinião pública.
O relatório mostra que essa intimidade chegou a gerar ressalvas até nos assessores de imprensa do Ministério Público, que alertaram formalmente os procuradores sobre a “aproximação demais com a Globo”. A despeito dos avisos, a cumplicidade perdurou por todo o período em que a ‘lava jato’ deu as cartas.
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