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Por FELIPE DE SENA E SILVA
A crítica marxista ao manifesto pela liberdade acadêmica aponta o risco de o discurso liberal ser instrumentalizado pela extrema-direita como pretexto para a privatização do ensino
1.
Acredito que muitos dos embates teóricos travados recentemente no site A Terra é Redonda sejam extremamente relevantes. Tenho minhas convicções ideológicas: sou marxista, acredito na construção da revolução brasileira, entre outras questões. Por isso, chamo atenção para um primeiro perigo: as pautas trazidas no Manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica” podem ser capturadas e instrumentalizadas politicamente pela extrema direita, sendo utilizadas, inclusive, contra nós – defensores/as e construtores/as de uma universidade que atenda aos interesses do povo brasileiro.
No momento político que vivemos, considero que esse manifesto representa um erro tático na luta que já estamos travando em defesa da educação. Nem vou entrar no debate sobre aquilo que não foi dito de maneira expressa na carta, como o problema do financiamento e seus reflexos na produção científica, pois sabemos que, para fazer ciência, são necessários recursos. Mas vamos lá
A questão que vou problematizar é: a quem interessa defender os pilares da liberdade acadêmica, do pluralismo e da neutralidade institucional? Se observarmos o longo e doloroso processo de construção da universidade pública – marcada historicamente por seu elitismo, apartada da construção de um projeto de desenvolvimento nacional, de costas para o problema do subdesenvolvimento do país e para a promoção da igualdade de direitos –, a defesa desses três pilares nada mais é, na minha avaliação, do que a reprodução de um discurso liberal privatista.
E não digo isso para ofender ou atacar a biografia de nenhum intelectual que se posiciona contra a opressão e em defesa do povo brasileiro, mas para realmente questionar: será que esse tipo de defesa é uma defesa que nós devemos fazer? Ela não pode recair sobre nós de forma contrarrevolucionária? Acredito que essa análise não foi feita pelos signatários da carta. Mas, se foi feita, estou aberto ao debate!
Para exemplificar o que quero problematizar: quando a esquerda teve, dentro do ambiente universitário, espaço efetivo para a liberdade acadêmica, o pluralismo e a neutralidade institucional? Quais foram os professores perseguidos pela ditadura? Os marxistas ou os liberais? Acredito que esse exemplo – e eu poderia trazer dezenas de outros casos – consiga ilustrar o quão equivocada foi a publicação deste manifesto.
Lembro-me, no tempo da graduação, da hostilidade que vivíamos quando nos declarávamos de esquerda em sala de aula. Hoje, atuando no ensino superior, vejo o sentimento de constrangimento de estudantes para se posicionarem e apresentarem suas opiniões. E não venham me dizer que foram os professores e professoras de esquerda que interditaram o debate político em sala de aula, pois isso não corresponde à verdade.
Fomos nós, e somos nós, que historicamente lutamos para que o ambiente acadêmico tivesse espaço para nossas ideias. Elas não foram incorporadas pacificamente pelo ethos burguês e liberal, expresso em seus currículos, suas concepções, seus referenciais teóricos, seus modelos e seus padrões.
2.
Ao analisar os textos publicados anteriormente, inquietei-me e fiquei com a impressão de que o clímax da discussão se concentrou nos debates sobre nossas posições teórico-epistemológicas – sabendo que elas também são parte constitutiva de nossas posições políticas e ideológicas – e sobre quais delas estariam mais alinhadas aos desafios históricos da atualidade e da universidade brasileira.
Minha preocupação, porém, é outra: esse manifesto não teria vindo em um momento inapropriado para a luta política? Estamos às vésperas de uma eleição duríssima, decisiva também para a geopolítica internacional, em que precisamos enfrentar a lógica capitalista e a onda conservadora de extrema direita – que ainda persiste dentro da universidade!
Tenho muitas companheiras e muitos companheiros de luta que compartilham comigo a militância cotidiana aqui em Sergipe, nas mobilizações e nas lutas em geral, e que se associam às perspectivas decoloniais, afrodiaspóricas, pós-estruturalistas e pós-coloniais. Em muitas conversas, apresento minhas críticas quanto aos limites da análise estratégica feita por elas e por eles em alguns momentos, principalmente quando tratamos da luta política cotidiana.
Não tergiverso quando afirmo que o capitalismo precisa ser superado, que a luta de classes não acabou e que a construção de uma sociedade comunista é, sim, possível. Já passou da hora de acabarmos com certa verborragia esquerdista que, muitas vezes, acaba reproduzindo discursos e práticas da direita. Atentemos! Não vamos jogar fora o bebê junto com a água do banho, pois quem perde é o povo brasileiro!
Agora, posiciono-me: defendo, como marxista, que os debates levantados pelo Manifesto estão dando margem para que a extrema direita os instrumentalize politicamente e apresente à sociedade, dialogando com o senso comum, a ideia de que a universidade estaria enclausurada no chamado “marxismo cultural” e de que seria preciso libertar-se dele.
E como se daria essa “libertação”? Pela desestruturação, precarização e privatização do ensino superior público – como, aliás, já vem ocorrendo. E sabemos que essa é uma leitura grosseiramente equivocada.
Se analisarmos os currículos – restringindo-me aqui às humanidades –, sabemos que ainda existem confrontos ideológicos dentro dos departamentos e centros acadêmicos para definir quais referências teóricas serão adotadas, quais autores contemporâneos serão incluídos, entre outras disputas próprias do campo universitário. Mas a problematização que trago aqui é a seguinte: não é hora de darmos ao fogo inimigo mais munição do que ele já tem!
Antes mesmo de terminar este texto, chegou-me a notícia de que parlamentares do Centrão, em vez de apoiarem o fim da escala 6×1, criaram mecanismos para ampliar a exploração dos trabalhadores e das trabalhadoras. Terrível, mais é coisa: ou destruímos o capitalismo, ou ele nos destruirá!
*Felipe de Sena e Silva é doutorando em educação na Universidade Federal de Sergipe (UFS).
"A leitura ilumina o espírito".
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