
Flávio Bolsonaro (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)
Quando a falsificação dos fatos na política vira estratégia de poder, a verdade torna-se vítima e uma ameaça contínua para quem depende da sua ausência: o povo
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A mentira, além de ser um sério desvio ético, transformou-se em método, estratégia de comunicação e instrumento de desgaste coletivo. Seu objetivo já não é convencer, mas exaurir. Não pretende conquistar a inteligência do interlocutor, e sim fatigá-lo até que perca a disposição de reagir. O subproduto malicioso dessa asfixia planejada é a generalização de uma desesperança quase crônica. Ao anestesiar a capacidade de indignação, o sistema empurra uma parcela significativa da população para o ceticismo, consolidando a crença de que a representação política está tão apodrecida que essa degeneração não se desfará.
A mentira jamais foi um acidente de percurso na história do poder. Desde a Antiguidade, a manipulação dos fatos, a dissimulação e o ardil para obtenção de vantagens atravessaram impérios, alimentaram guerras e derrubaram governos. O que distingue nosso tempo não é apenas a existência da fraude política, mas a sua prática contumaz. Um expoente dessa prática é Donald Trump, que transformou o ato de mentir em uma rotina diária de governo e de campanha. Ao despejar uma enxurrada ininterrupta de mentiras, posteriormente desmentidas por fontes fidedignas, Trump é um super adepto da pós-verdade" como política de Estado, demonstrando que essa atitude repetida à exaustão pode criar realidades paralelas para o consumo de parcelas expressivas do movimento MAGA “Make America Great Again” e até fora dele. Daí ter sido eleito em 2024.
No Brasil, um exemplo eloquente dessa prática foi a ficção jurídica das chamadas pedaladas fiscais, convertida em pretexto para remover uma presidente sem crime de responsabilidade comprovado. Tanto Dilma, quanto os milhões de brasileiros que a elegeram foram atingidos por um processo conduzido pelo então vice-presidente golpista Michel Temer com o apoio decisivo de Eduardo Cunha que mais tarde foi cassado por quebra de decoro parlamentar após mentir à CPI da Petrobras ao negar ser titular de contas bancárias secretas no exterior. Sua queda nos lembra o velho ditado de que a mentira tem perna curta. Ao tentar blindar seu patrimônio, o ardiloso parlamentar viu o feitiço virar contra o feiticeiro. O mesmo arranjo mentiroso que ele liderou para destituir um governo eleito acabou por triturá-lo.
Essa pedagogia da mentira encontrou sua expressão mais grotesca quando Roberto Alvim, então secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, reproduziu trechos de um discurso do nazista Joseph Goebbels em rede nacional, ao som de Richard Wagner. A cena foi grotesca. Não se tratava apenas de uma infeliz coincidência estética. Foi a demonstração de como parcelas da extrema direita que ascenderam ao poder, após o impeachment da ex-presidente Dilma, já se sentiam suficientemente confortáveis para flertar abertamente com referências que, em qualquer sociedade minimamente consciente de sua história, seriam motivo de vergonha alheia e de absoluto vexame. Na mesma direção, o governo extremista de direita de Trump, superando até mesmo o nazista Adolf Hitler, que na Copa de 1936 pelo menos se submeteu às regras olímpicas, Trump faz da Copa do Mundo de 2026, símbolo de exclusão política e segregação racial ao impedir a entrada de juízes, de dirigentes e ao humilhar jogadores de seleções que ele despreza.
Mas o traço mais persistente dessas correntes políticas não está apenas em suas demonstrações de autoritarismo. Assistimos diariamente a parlamentares inundarem seus discursos com elogios às próprias reputações obscuramente ilibadas, apresentando-se quase como figuras santificadas da vida pública. Entre eles, destacam-se nomes como Ciro Nogueira (PP-PI), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Sergio Moro (PL-PR), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Júlia Zanatta (PL-SC) coincidentemente da extrema direita ou da direita oportunista, sempre pródigos em pregações moralistas quando o assunto é a conduta alheia. Ciro Nogueira chegou a prometer que abandonaria a vida parlamentar caso alguma acusação de desvio ético contra ele fosse comprovada. O desfecho, porém, foi bem diferente de sua promessa. Após as revelações do Caso Master, não apenas permaneceu no exercício do mandato, como ainda foi agraciado pelo presidente do Senado com a missão de representar o senado no Fórum Político de Alto Nível das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em Nova York. No Brasil, ao que parece, certas promessas têm prazo de validade menor que um discurso de campanha, e determinadas controvérsias funcionam menos como obstáculo e mais como credencial para novas honrarias.
Nesse ambiente de narrativas movediças, o pré-candidato Flávio Bolsonaro protagonizou recentemente um exemplo didático da mentira como método. Negou reiteradamente qualquer vínculo relevante com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Tratou as acusações como invenções de adversários e motivo de deboche. Poucas horas depois do surgimento de mensagens e áudios comprometedores do Intercept, porém, admitiu negociações milionárias que antes classificava como fantasiosas. Antes disso, repetia o slogan “o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”, numa tentativa de transferir para o seu adversário um escândalo que se aproximava perigosamente de seu próprio círculo político. O problema é que a realidade costuma ser pouco cooperativa com versões improvisadas.
O mesmo padrão esteve presente durante o governo de seu pai Jair. Mentiras sobre fraude nas urnas eletrônicas numa mesma falácia usada por Trump quando não se reelegeu em 2020, falsas promessas de cura para a Covid-19 e narrativas infundadas sobre vacinas repetidas à exaustão. A estratégia não era provar os fatos, mas desgastar a própria noção de realidade por meio da repetição contínua da desinformação. Sob o desgoverno de Bolsonaro, o país registrou os piores índices de vacinação em mais de duas décadas, um retrocesso que empurrou o Brasil de volta a índices incompatíveis com sua tradição histórica de imunização.
É justamente nessa realidade controversa que ainda existe uma parcela do eleitorado impermeável aos fatos. A repetição contínua enfraquece a capacidade de questionamento do público. No ano passado, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou as redes sociais para disseminar uma narrativa distorcida que associava o governo Lula a uma suposta taxação do Pix, explorando ruídos de comunicação para inflar o pânico econômico na população, a operação cumpriu exatamente seu objetivo, o de produzir desgaste político imediato ao governo, apostando que a velocidade da mentira sufocaria qualquer tentativa posterior de restabelecer a verdade. Entretanto, o mesmo deputado não teve o mesmo entusiasmo para publicizar nas redes sociais todas as viagens cortesia que fez no jatinho do dono do banco Master.
Nesse movimento permanente de sonegação da verdade, esses políticos se servem de tudo e de todos que possam lhes garantir vantagens particulares. Deixam-se comprar por quem lhes oferece benefícios em troca de favores, como ocorreu nas relações de vários políticos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Todavia, os fatos frequentemente revelam uma proximidade desconcertante com práticas que dizem combater. Notícias publicadas na revista Veja (11/06) revelaram uma suposta propina de nada menos que R$ 155 milhões paga por Vorcaro ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, valor que, por si só, dispensa maiores comentários sobre a dimensão do escândalo. O parlamentar negou veementemente ter recebido tal valor.
Nesse horizonte de engodos e chantagens, as pautas eleitoreiras da direita oportunista e da extrema direita se multiplicam na mesma velocidade em que falseiam a realidade. O exemplo mais recente é a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, da PEC que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Vendida como solução para a criminalidade, a proposta ignora o consenso de especialistas e pesquisadores de que encarcerar adolescentes em um sistema penitenciário hiperlotado e falido, que funciona como verdadeira escola do crime, não reduz a violência. Ao contrário, tende a ampliar os índices de reincidência. Trata-se de mais um impropério programado para o consumo eleitoral, escondendo o fracasso das políticas de ressocialização atrás do clamor punitivista e convertendo a barbárie em plataforma de campanha.
Outro mecanismo da fraude política que opera em ritmo de urgência eleitoral foi o lançamento das velhas pautas-bomba cujo o custo será de R$ 2 trilhões em 10 anos, segundo cálculos do Ministério da Fazenda. Desta vez, Davi Alcolumbre superou seu estilo truculento contra o governo. O exemplo mais impactante em custo trata da aprovação do Projeto de Lei (PL 5.122/2023), que cria uma linha especial para renegociação de dívidas de produtores rurais. Ao ampliar os gastos em pleno período eleitoral, a extrema-direita e a direita fisiológica desmascaram a própria farsa, a austeridade tão propalada por eles morre na praia quando o objetivo é fazer média com o agronegócio, entre outros seguimentos em troca de dividendos nas urnas. Ao aprovar medidas sem apontar a fonte de financiamento, o Senado abriu espaço para questionamentos constitucionais. Como ressaltou o ministro do STF, Gilmar Mendes, o Congresso não pode criar despesas sem indicar de onde virão os recursos. O governo, por sua vez, prepara uma reação baseada em vetos, articulação política e eventual acionamento do STF.
Essa mesma lógica de transformar direitos em moeda de barganha orienta os movimentos de Davi Alcolumbre no Senado. Não por acaso, Alcolumbre sentou sobre a pauta do fim da escala 6x1, adiando uma discussão de enorme interesse para milhões de trabalhadores brasileiros. O bloqueio ocorre justamente quando o cerco da Polícia Federal no caso Master se aproxima de figuras relevantes, como aconteceu poucos dias após com a revelação da propina dada por Vorcaro a Alcolumbre, além da intensificação desse parlamentar em disputas de poder com o governo federal.
Para variar, o andar de cima, que jamais perde a oportunidade de sapatear sobre os trabalhadores, tratou de engrossar o coro contra o fim da escala 6x1. Em entrevista à GloboNews, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, declarou, num tom característico de quem jamais precisou bater cartão de ponto, que a extinção imediata da jornada representaria um retrocesso. Criticou a ausência de diálogo com o setor produtivo e atribuiu à proposta forte motivação eleitoral. O argumento, entretanto, é velho conhecido dos trabalhadores brasileiros. Sempre que se propõe ampliar direitos, anuncia-se uma catástrofe econômica iminente. Foi assim com as férias remuneradas, com a licença-maternidade, com o 13º salário e com inúmeras outras conquistas trabalhistas. Nenhuma delas destruiu a economia. Pelo contrário, contribuíram para ampliar o consumo, fortalecer o mercado interno e melhorar as condições de vida da população. O colapso prometido nunca se concretizou.
Contudo, como a dinâmica da história é feita de choques e contradições, na contramão do projeto de poder de Davi Alcolumbre, prejudicial ao país, mais uma pesquisa reforça a tendência observada em levantamentos recentes. A pesquisa da Genial Quaest divulgada em 10/06 aponta avanço nas intenções de voto do presidente Lula em cenários eleitorais frente a Flávio Bolsonaro. Esse movimento reflete o desgaste político do bolsonarismo e a crescente percepção de parte do eleitorado acerca das controvérsias que cercam a trajetória política do senador. Com uma atuação parlamentar frequentemente marcada por controvérsias e escassez de iniciativas de interesse público, Flávio Bolsonaro transformou a atividade política em vetor de negócios privados. O crescimento expressivo do patrimônio familiar, incompatível aos olhos de muitos observadores com os rendimentos da atividade parlamentar, alimenta questionamentos que se somam ao histórico das rachadinhas e das operações imobiliárias suspeitas. Seus vínculos com personagens do submundo financeiro ampliaram ainda mais essas dúvidas, projetando sobre sua trajetória sombras que insistem em acompanhá-lo.
A mudança de humor entre eleitores sem alinhamento ideológico rígido sugere uma avaliação cada vez mais crítica sobre sua figura. Afinal, para muitos brasileiros, pesa mais o legado de uma família que transformou a política em patrimônio privado do que a propaganda cuidadosamente construída em torno dela. Como diz o velho ditado, quem sai aos seus não degenera. Filho de um ex-parlamentar que passou quase três décadas no baixo clero sem produzir realizações relevantes para a maioria da população, Flávio apenas sofisticou o método.
Convém ressaltar ainda, que ao divulgar os resultados da pesquisa Genial Quaest, a mídia corporativa tratou de enquadrar a defesa da soberania nacional pelo governo, como oportunismo eleitoral do PT "e não como a obrigação elementar de qualquer governo comprometido com os interesses do país. Logo surgem insinuações sobre conveniência política. Os comentários veiculados na GloboNews evidenciam essa tendência. Essa mesma mídia raramente destacou com igual ênfase o papel dos governos de esquerda na redução das desigualdades, na ampliação do acesso à educação, no fortalecimento de programas sociais ou na valorização da renda dos trabalhadores. Há quase sempre um "mas" à espera. Se a economia cresce, o mérito é do mercado, se a pobreza diminui, trata-se de populismo, se políticas públicas corrigem distorções sociais, a suspeita recai imediatamente sobre interesses eleitorais. O benefício concreto à população costuma ocupar menos espaço que a desconfiança sobre quem o promove.
A distorção chega a ser ofensiva para quem acompanha minimamente a realidade nacional. Procuram nivelar políticas públicas de interesse coletivo às manobras oportunistas da direita e da extrema direita, como se tudo não passasse de disputa eleitoral. Programas como o Desenrola, que enfrentou o endividamento de milhões de brasileiros, ou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais são frequentemente tratados como pacotes de bondade, quando na verdade respondem a problemas concretos que afetam a vida cotidiana da população. Afinal, qual seria a alternativa desejada por esses comentaristas? Que o governo permanecesse inerte diante dos problemas sociais? Curiosamente, o mesmo rigor raramente foi aplicado aos governos da direita. Já quando pesquisas indicam recuperação da popularidade de Lula, não passa despercebido o desconforto de alguns analistas. Afinal, reconhecer avanços concretos de um governo progressista parece, para alguns setores da imprensa, uma tarefa muito mais difícil do que encontrar razões para relativizá-los.
Por fim, é necessário chamar a atenção de que ao longo dos últimos anos, a mentira tornou-se um método político estruturado. Entre falsas promessas, teorias conspiratórias, chantagens legislativas e pautas bomba para produzir dividendos eleitorais, políticos da extrema direita e a direita oportunista se locupletam ao longo de seus mandatos. Argumentos torpes e falaciosos podem até produzir vitórias escorchantes, como a da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) ao conseguir aprovar no Senado (em votação simbólica) a suspensão de uma norma de 2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente para dificultar o aborto legal em crianças vítimas de estupro, mas cobra um preço elevado por corroer a confiança pública, degradar a vida e transformar a política em um permanente exercício de manipulação e de fins obscuros. Quando a falsificação dos fatos na política vira estratégia de poder, a verdade torna-se vítima e uma ameaça contínua para aqueles que dependem da sua ausência: o povo, aquele que mais depende da sua existência, que paga a conta mais cara e duradoura.
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