- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Por JEFFERSON SANTANA*
aterraeredonda.com.br/
A invisibilidade histórica de negros e indígenas na Argentina revela uma violência silenciosa que moldou a identidade nacional como exclusivamente branca, excluindo corpos dissonantes da própria linguagem do pertencimento
1.
Durante muito tempo, a Argentina construiu para si a imagem de uma nação branca e europeia. Não se trata apenas de um imaginário popular ou de um estereótipo internacional; trata-se de um verdadeiro projeto histórico de produção nacional, sustentado por políticas migratórias, discursos intelectuais, instituições estatais e formas específicas de narrar o passado. O problema é que essa imagem nacional nunca correspondeu plenamente à realidade histórica do país.
E talvez seja justamente aí que resida um dos desacordos raciais mais profundos da América Latina. Quando pensamos em racismo, frequentemente imaginamos práticas explícitas de segregação ou violência física. Entretanto, há formas tão brutais e sofisticadas de dominação quanto essas, que operam no nível da linguagem, da memória e das estruturas de reconhecimento social. É precisamente isso que chamaremos de violência gramatical (Santana e Silva, 2025; Praxedes e Silva, 2025): o processo pelo qual determinadas imagens de mundo reorganizam os jogos de linguagem e as certezas fundamentais de uma sociedade, definindo quem pode aparecer como plenamente humano, pertencente, civilizado ou nacional.
A questão argentina talvez seja um dos exemplos mais radicais desse fenômeno no continente. O problema não é “apenas” que pessoas negras e indígenas sofram racismo na Argentina, o que já é algo bastante grave. O problema é que a própria ideia de “argentino” foi historicamente construída de modo a excluir simbolicamente corpos não brancos da identidade nacional. Em outras palavras: a gramática da argentinidade tornou-se semanticamente associada à branquitude europeia.
Nesse sentido, o afro-argentino aparece como uma espécie de sujeito impossível dentro da narrativa nacional dominante. Essa percepção não surgiu espontaneamente. Ela foi produzida historicamente, sobretudo ao longo do século XIX, durante os governos ligados a Domingo Faustino Sarmiento e à chamada “Geração de 80”. Ali consolidou-se um projeto nacional profundamente eurocêntrico, baseado na ideia de que a modernização argentina dependeria do embranquecimento populacional e da aproximação simbólica com a Europa. Não por acaso, Sarmiento opunha “civilização” e “barbárie” como categorias centrais para pensar a nação (Andrews, 1989).
2.
A partir da discussão da dimensão normativa das imagens de mundo modernas, conseguimos mostrar como certas estruturas conceituais deixam de funcionar apenas como descrição da realidade e passam a operar como mecanismos de organização do sensível, definindo previamente aquilo que pode ou não aparecer como racional, legítimo ou pertencente. Na Argentina, a branquitude europeia deixou de ser apenas uma característica populacional desejável e tornou-se um princípio organizador da própria inteligibilidade nacional. O “argentino verdadeiro” passou a ser imaginado como branco, europeu e urbano.
Enquanto isso, negros, indígenas e mestiços foram empurrados para o passado, para o folclore ou simplesmente para a invisibilidade. É nesse ponto que o trabalho clássico de George Reid Andrews, reunido em Los afroargentinos de Buenos Aires (1989), torna-se incontornável. Andrews demonstra que a narrativa segundo a qual “os negros desapareceram da Argentina” não resiste a uma investigação histórica séria.
O autor mostra que houve um sistemático apagamento da presença afro-argentina na história nacional. Segundo George Reid Andrews, as explicações tradicionais para o “desaparecimento” negro (guerras, miscigenação, febre amarela ou baixa natalidade) foram repetidas durante décadas sem verificação rigorosa. Mais importante ainda: ele demonstra que a historiografia argentina frequentemente reduziu os afro-argentinos a uma presença marginal, ignorando intelectuais negros, organizações comunitárias, jornalistas, artistas e formas autônomas de vida social negra em Buenos Aires.
O resultado foi a produção de uma espécie de apagamento gramatical: os afro-argentinos permaneceram existindo materialmente, mas deixaram de existir simbolicamente dentro da memória oficial da nação, mais que isso: não faz sentido ser negro ou indígena e ser argentino. Talvez nenhuma frase sintetize melhor esse processo do que a declaração atribuída ao ex-presidente Carlos Menem, em 1996: “Na Argentina não existem negros, esse é um problema do Brasil”.
A violência dessa frase não está apenas na negação empírica da existência de pessoas negras na Argentina. Sua força reside sobretudo na reafirmação de uma gramática nacional em que a negritude aparece como exterior à própria argentinidade. O negro pode existir no Brasil, em Cuba ou no Haiti, mas não como parte legítima da identidade argentina. Aqui aparece objetivamente o que estamos chamando de violência gramatical: não se trata apenas de excluir sujeitos do espaço político, mas de produzir e estruturar uma gramática de reconhecimento na qual determinados corpos se tornam quase impensáveis enquanto pertencentes à comunidade nacional.
O conflito se torna profundo porque não há desacordo apenas sobre dados históricos, como a existência ou não de afro-argentinos e indígenas no país; o desacordo ocorre sobre os próprios critérios que definem quem pode aparecer como “verdadeiramente argentino”. A persistência histórica da invisibilização racial, mesmo diante de censos, pesquisas históricas e reivindicações políticas contemporâneas, evidencia justamente aquilo que Fogelin (1985) identifica como característica central dos desacordos profundos: eles permanecem mesmo após a apresentação de fatos e argumentos.
3.
Além disso, os desacordos profundos devem ser compreendidos também a partir de uma dimensão socioepistêmica, marcada por relações de poder e injustiças epistêmicas que determinam quais vozes são reconhecidas como legítimas e quais são sistematicamente silenciadas (Xavier, 2026). É exatamente isso que acontece na Argentina: a narrativa oficial da nação branca produz uma estrutura de reconhecimento na qual sujeitos negros e indígenas aparecem como estrangeiros, resíduos do passado ou corpos incompatíveis com a imagem nacional dominante.
Assim, o desacordo racial argentino é profundo porque envolve não apenas divergências políticas ou historiográficas, mas um conflito estrutural entre diferentes imagens de mundo, diferentes gramáticas de pertencimento e diferentes formas de compreender quem pode ser reconhecido como parte legítima da comunidade nacional.
O mais inquietante é que essa gramática continua operando no presente. Segundo o censo argentino de 2022, cerca de 1.306.730 pessoas se autodeclaram indígenas, enquanto 302.936 se autodeclaram afrodescendentes. Ainda assim, persiste no imaginário internacional e interno a ideia de uma Argentina homogênea e branca. Da mesma forma, muitos afro-argentinos continuam sendo percebidos como estrangeiros, mesmo quando suas famílias vivem no país há gerações.
O desacordo profundo aparece exatamente aqui: de um lado, existe a experiência concreta de sujeitos racializados que reivindicam pertencimento nacional; de outro, permanece uma imagem de mundo construída historicamente para associar nacionalidade, modernidade e humanidade à branquitude europeia. Não se trata, portanto, de um simples desacordo factual. O problema não é apenas “existem ou não negros na Argentina?”.
O verdadeiro conflito ocorre num nível mais profundo: quais corpos podem ser reconhecidos como compatíveis com a ideia de nação? É justamente por isso que a questão racial argentina não pode ser reduzida à demografia. O que está em disputa é a própria gramática do pertencimento. E talvez esse seja um dos maiores desafios contemporâneos da América Latina: desmontar imagens nacionais construídas sobre apagamentos coloniais e produzir novas formas de reconhecimento capazes de reintegrar sujeitos historicamente expulsos não apenas do território político, mas também da memória, da linguagem e da própria imaginação coletiva.
4.
Existe algo profundamente perturbador no fato de que uma pessoa negra, nascida em Buenos Aires, falando espanhol rioplatense, pertencente a famílias historicamente argentinas, ainda precise explicar constantemente que é argentina. Essa situação não pode ser compreendida apenas como preconceito individual ou ignorância histórica. Ela revela a persistência de uma gramática nacional construída para tornar a negritude semanticamente incompatível com a própria ideia de argentinidade.
Talvez a questão mais importante seja a seguinte: como resistir a essa gramática do desaparecimento? É aqui que o conceito de aquilombamento gramatical (Silva, 2026) oferece uma alternativa filosófica e política extremamente potente. Nesse sentido, toda gramática social se organiza em torno de certezas fulcrais (ou hinges, em diálogo com Ludwig Wittgenstein) que sustentam nossos jogos de linguagem e nossas formas de vida.
Essas certezas funcionam como dobradiças invisíveis do mundo social (Silva, 2026): organizam quem pode ser reconhecido como racional ou humano. No caso argentino, uma dessas certezas fulcrais poderia ser formulada da seguinte maneira: “argentino é branco”. Essa frase raramente aparece de maneira explícita, mas estrutura silenciosamente a imagem nacional argentina há mais de um século. O problema é que, quando uma certeza fulcral se torna colonial e excludente, ela produz uma violência gramatical: uma reorganização dos jogos de linguagem capaz de excluir determinados sujeitos das condições de reconhecimento social. O afro-argentino não é apenas discriminado, ele é produzido como semanticamente deslocado da nacionalidade.
Nesse contexto, o aquilombamento gramatical aparece como uma forma de resistência normativa e afetiva. Silva (2026) afirma que o quilombo não deve ser entendido apenas como território físico, mas como uma “forma de vida normativa” e uma “gramática alternativa” baseada em memória, autodeterminação, orgulho e resistência coletiva. O aquilombamento gramatical, portanto, consiste na criação de espaços comunitários capazes de produzir novas regras de reconhecimento e pertencimento. Isso é fundamental para pensar o presente racial argentino.
Porque o problema da população afro-argentina não é apenas falta de representação institucional. O problema é que a própria gramática nacional impede que determinados corpos apareçam como naturalmente argentinos. O aquilombamento gramatical propõe justamente deslocar esse fulcro normativo. Ao invés de aceitar a gramática colonial: argentino = branco = europeu; o aquilombamento gramatical produz novas relações inferenciais: negro também é argentino; indígena também é argentino; a Argentina sempre foi racialmente plural.
Esse deslocamento não acontece apenas no plano abstrato da teoria, ele depende da criação de territórios normativos de resistência como coletivos afro-argentinos, movimentos culturais periféricos, escolas populares, rodas de candombe, redes de memória afro-indígena, ocupações urbanas, movimentos feministas decoloniais, práticas comunitárias de cuidado e reconhecimento, etc. Esses espaços funcionam como “quilombos gramaticais”, ambientes nos quais novas regras de uso e legitimidade são coletivamente testadas e estabilizadas (Silva, 2026). Isso é extremamente importante porque a violência gramatical opera também no nível afetivo.
O aquilombamento gramatical busca inverter essa estrutura afetiva e normativa. Esse processo chamaremos de alavancagem gramatical (Silva, 2026): mover o fulcro do sentido por meio da reorganização coletiva dos afetos, dos conceitos e das práticas sociais. Isso significa transformar vergonha em orgulho, invisibilidade em presença, marginalidade em potência política, folclore em memória viva, exclusão em autodeterminação. Talvez o exemplo mais importante disso na Argentina contemporânea seja o crescimento de movimentos afrodescendentes que passaram a reivindicar explicitamente a existência histórica negra no país.
Quando afro-argentinos afirmam publicamente “somos argentinos”, não estão apenas descrevendo um fato jurídico, estão realizando uma disputa gramatical. Estão tentando deslocar uma certeza fulcral historicamente sedimentada. Nesse sentido, o aquilombamento gramatical não é mera inclusão simbólica dentro da velha gramática nacional. Ele implica reconfigurar a própria ideia de Argentina. Porque talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido a ausência de negros na Argentina. O problema foi a existência de uma gramática nacional incapaz de reconhecê-los.
É justamente por isso que a resistência não pode ocorrer apenas no plano institucional ou jurídico. Ela precisa acontecer também na linguagem, na memória, nos afetos e nas formas de vida. Toda gramática opressora parece natural apenas até o momento em que seus fulcros começam a ser movidos (Silva, 2026).
O aquilombamento gramatical talvez seja exatamente isso: a construção coletiva de novos pontos de apoio capazes de tornar novamente pensável aquilo que a colonialidade tentou transformar em impossível, ou seja, a existência plena de sujeitos negros e indígenas dentro da imaginação nacional argentina.
*Jefferson Santana é doutorando em filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Referência
ANDREWS, George. Los Afroargentinos de Buenos Aires. Ediciones de la Flor. Buenos Aires, 1989.
"A leitura ilumina o espírito".
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário
12