
Inflação estável já não encobre a tragédia social. Presidente sequer tem um projeto de médio prazo e já se indispõe com as elites, que almejam um “neoliberalismo estável”. Peronismo vê uma brecha. Conseguirá mobilizar o descontentamento?
Por José Natanson, no Nuso | Tradução: Rôney Rodrigues
Em outubro do ano passado, para surpresa de grande parte do país, os candidatos do partido de Javier Milei venceram as eleições legislativas de meio de mandato. O governo vinha de uma derrota nas eleições locais na crucial província de Buenos Aires, as denúncias de corrupção se intensificavam e o plano econômico sofria os efeitos de mais uma das muitas corridas financeiras, a tal ponto que precisou ser resgatado in extremis pelo Tesouro dos Estados Unidos. Apesar disso, Milei venceu por quase 10 pontos percentuais no total nacional e ainda conseguiu reverter a derrota em Buenos Aires, governada pelo peronismo. Lá, A Liberdade Avança colocou à frente de sua lista legislativa o economista José Luis Espert, que, no meio da campanha eleitoral, foi denunciado por ter recebido financiamento de um empresário acusado nos Estados Unidos de narcotráfico e lavagem de dinheiro. Milei acabou forçando a renúncia de seu candidato, mas já era tarde para imprimir novas cédulas eleitorais e seu nome não pôde ser retirado; mesmo assim, o mileísmo triunfou naquele território difícil.
A principal explicação para essa vitória foi o medo, por parte de um setor da sociedade, de que uma derrota do governo levasse ao precoce colapso do plano econômico, com suas implicações em termos de desvalorização cambial, inflação e perda de poder aquisitivo, tal como ocorreu no fim dos governos de Mauricio Macri (2015-2019) e Alberto Fernández (2019-2023). Ao contrário de outros países latino-americanos que conseguiram consolidar economias estáveis independentemente das mudanças de governo, na Argentina a fragilidade política e o caos econômico andam de mãos dadas, algo que a sociedade levou muito em conta na hora de votar. O “triplo pacto policlassista” de Milei — ativos financeiros valorizados para as classes altas, dólar barato para a classe média, inflação contida para as classes populares — continuou operando.
Após o resultado eleitoral, que desconcertou tanto o peronismo quanto aqueles que buscaram criar uma terceira via, o governo conquistou uma série de vitórias legislativas. O Congresso aprovou a Lei Orçamentária, a Lei de Modernização Trabalhista (uma flexibilização que implica, na prática, um corte nos direitos dos trabalhadores) e a Lei da Inocência Fiscal (uma espécie de amplo perdão fiscal). Com o dólar calmo e a inflação ainda em níveis altos — entre 2% e 3% ao mês — porém controlada, abria-se um panorama claro para um presidente que já falava em reeleição, mas que rapidamente descobriria o perigo de precipitar as coisas.
Seja pelas particularidades desta época, pela aceleração global ou pela dinâmica infernal de um país particularmente hipercinético, no curto espaço de alguns meses a situação voltou a mudar, e o que parecia um caminho sem obstáculos para um segundo mandato em 2027 se transformou em uma via-crúcis que ainda não terminou. As pesquisas coincidem que a imagem do presidente e o apoio à sua gestão despencaram e, em um plano mais qualitativo, apontam que os dois fatores que ajudavam a explicar a adesão ao governo foram se enfraquecendo: as expectativas (cada vez menos pessoas acham que com Milei podem melhorar de vida) e as responsabilidades (cada vez menos pessoas acreditam que a situação atual é consequência da herança dos governos anteriores, sobretudo do peronismo).
O que aconteceu para que, em tão pouco tempo, as coisas mudassem tanto? Ocorrem-me duas respostas complementares, que analiso começando pela mais concreta e terminando pela mais geral.
Emprego, renda, dívidas
Desde dezembro de 2023, quando Milei chegou à Casa Rosada, a economia registrou taxas de crescimento positivas, embora tenha sido um crescimento baixo e, sobretudo, muito heterogêneo, impulsionado basicamente pelo boom dos hidrocarbonetos e, em menor medida, pela mineração. Vale lembrar que Milei se beneficiou da infraestrutura energética construída por governos anteriores, em particular o Gasoduto Néstor Kirchner (hoje Perito Moreno), inaugurado em julho de 2023 para transportar gás da megajazida de Vaca Muerta, cuja entrada em operação contribuiu para reverter a balança energética e permitiu alcançar um superávit histórico no setor.
No entanto, embora dinâmicos e internacionalmente competitivos, os complexos extrativos criam poucos empregos, geram escassas cadeias produtivas e estão situados em áreas de baixa densidade populacional, a Cordilheira e a Patagônia, distantes das grandes periferias urbanas empobrecidas. É verdade que o agronegócio, o único setor com possibilidade de oferecer ao mesmo tempo dólares para a economia nacional e certo bem-estar em áreas do interior do país, terá, com as chuvas, uma grande safra em 2026, mas também não é suficiente.
Se durante meio século o principal desafio da economia argentina foi a restrição externa, ou seja, a escassez de dólares, hoje o problema é outro: os setores que geram divisas não promovem o efeito de transbordamento (trickle-down), e aqueles que fornecem empregos, renda e cadeias produtivas estão em queda. De fato, a maior parte da atividade econômica se concentra em três rubricas — indústria, comércio e construção — que, desde que Milei assumiu o governo, caíram, respectivamente, 9,5%, 4,9% e 14,2%. O crescimento na era Milei é um crescimento limitado, quase de enclave, que aprofunda a tendência à “peruanização” da Argentina. Ou seja, um modelo de estabilidade com alta desigualdade social, um núcleo irredutível de pobreza e muita informalidade.
Em segundo lugar, e como consequência do anterior, a renda da população caiu. Os salários reais diminuíram 8% desde que Milei assumiu a Presidência, e as aposentadorias, 22%, com quedas especialmente notáveis entre os trabalhadores estatais (18,3%) e os docentes universitários (34,5%). A inflação está controlada, mas continua alta: entre 2% e 3,5% ao mês, o que confirma o velho adágio de Juan Domingo Perón — a inflação sobe pelo elevador e os salários pela escada — e obriga a sociedade a uma dinâmica de ajuste permanente de seus gastos. Essa crise de renda se agrava quando se considera que o aumento das tarifas de serviços públicos, fundamental para a redução do déficit fiscal, diminuiu ainda mais a renda disponível das pessoas, ou seja, aquela que resta após descontar os gastos fixos. Considerando essa variável, a queda foi ainda maior.
Se a estabilidade da taxa de câmbio e a queda da inflação (o que na Argentina é mais ou menos a mesma coisa) explicam o apoio inicial obtido por Milei, imagens mais recentes dão conta das privações a que uma grande parte da sociedade vem sendo submetida: açougues que já não vendem por quilo, mas sim em fatias (em um país tradicionalmente carnívoro), uma explosão de pessoas dormindo nas ruas e a cena, entre muitas outras similares, de 3 mil pessoas fazendo fila para se candidatar a 60 vagas de emprego em um frigorífico.
A esse quadro soma-se a deterioração dos serviços públicos, resultado do torniquete orçamentário: o investimento em educação foi reduzido em 40% e em saúde, 34%. O resultado é uma degradação social que não se processa mediante um único evento disruptivo — como a hiperinflação de 1989, a crise de 2001 ou a pandemia —, mas sim de forma mais lenta e silenciosa, por acumulação: uma devastação em parcelas. Além disso, o governo desmantelou, sob a desculpa da luta contra o clientelismo, boa parte das organizações territoriais, cooperativas, restaurantes escolares e comedores comunitários que funcionavam como uma rede de contenção de última instância, que forneciam a refeição quente, a ajuda escolar e até a mediação em conflitos entre vizinhos ou familiares.
Essa desarticulação organizacional transforma a pobreza da era Milei em uma pobreza com estabilidade, porém menos solidária, mais individualizada e dura. E, como assinalaram vários padres que trabalham em zonas populares, o recuo do Estado alimentou o crescimento do narcotráfico, que se torna uma atrativa “saída laboral” para jovens cujo único horizonte são os “bicos” (trabalhos informais mal remunerados).
Durante os primeiros dois anos de governo libertário, a sociedade pôde suportar esse declínio graças a três “amortecedores sociais” que atenuaram os efeitos mais negativos do ajuste. O primeiro foi a decisão do governo de garantir aumentos acima da inflação das duas grandes políticas de transferência de renda: a Asignación Universal por Hijo, que atende 4,1 milhões de crianças e adolescentes, e o Cartão Alimentar, que alcança 4,5 milhões de beneficiários. Embora Milei tenha tomado o cuidado de não divulgar essa medida, ciente de que parte de sua base eleitoral a questionaria como uma decisão assistencialista em favor dos “vagabundos” ou “beneficiários de planos sociais”, o certo é que a renda direta do Estado recebida pelas famílias mais pobres aumentou, em média, 40% e explica a queda nos números da pobreza por renda — muito dependente, no entanto, dos altos e baixos econômicos. Contudo, no último ano, também por decisão oficial, esses aumentos foram interrompidos.
O segundo amortecedor que ajudou a atravessar a primeira etapa do ajuste é a informalidade. Nos últimos dois anos, foram destruídos 320 mil postos de trabalho formais, muitos dos quais migraram para os aplicativos de mobilidade e entregas. As plataformas, assim como o microcomércio eletrônico e a venda informal, operaram, nessa fase inicial, como um seguro-desemprego privado descentralizado, uma rede de contenção na qual o Estado não precisou investir um centavo e que ainda se encaixava bem na narrativa empreendedora de Milei. No entanto, com o passar dos meses, ocorreu um efeito de saturação, o que resultou em rendimentos decrescentes e até na decisão de alguns aplicativos de não aceitar mais “parceiros” (por isso as contas boas, com muito histórico e altas avaliações, hoje são alugadas).
O terceiro fator é o endividamento, que também encontrou um limite. A taxa de inadimplência atingiu níveis assustadores. Segundo cálculos da consultoria 1816, a irregularidade nos empréstimos pessoais dos bancos subiu para 11%, o maior nível desde a crise de 2001, e a situação é ainda mais grave nas carteiras virtuais, às quais recorrem os trabalhadores informais a um custo financeiro total que hoje chega a 200% ao ano e cujos níveis de inadimplência giram em torno de 27%.
O problema se agrava porque o dogmatismo do governo o impede de vê-lo como tal. O ministro da Economia, Luis Caputo, classificou como especuladores aqueles que se endividaram, supostamente pensando que uma reaceleração inflacionária liquidaria as dívidas, como se fossem traders experientes e não famílias desesperadas para pagar a conta de gás (há casos de trabalhadores que vão ao caixa eletrônico na madrugada do dia do depósito do salário para evitar que, pela manhã, o dinheiro seja “sugado” pelos débitos automáticos das dívidas a pagar). Paralisado pelos limites de sua cosmovisão, o governo está muito longe de compreender esse problema — que não se reduz a uma soma de decisões individuais — e tentar um plano de desendividamento nos moldes do lançado por Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.
Expectativas, promessas, tempo
Quando Milei conquistou sua inesperada revalidação eleitoral, escrevi que a oportunidade que a sociedade argentina lhe havia dado, apesar do ajuste, era a última, e que, se não começasse a entregar resultados, ainda que mínimos, em termos de níveis de bem-estar, emprego e melhoria da renda, o clima social mudaria: a estabilidade da taxa de câmbio e a desinflação, o grande sucesso da primeira etapa de sua gestão, já não seriam suficientes.
Na mesma linha, o cientista político Federico Zapata explica que a vitória libertária marcou o início de uma nova etapa. Milei chegou ao governo com o mandato de quebrar algo que há muito tempo deixara de funcionar. Entre 2011 e 2023, uma verdadeira década perdida, a economia argentina praticamente não cresceu, mal criou emprego privado e experimentou, uma após a outra, sucessivas crises de desvalorização cambial, disparadas inflacionárias, “cepos” (controles cambiais) que impediam a compra de dólares e até um minicalote da dívida. Mas, estabilizadas as grandes variáveis, a clivagem, diz Zapata, mudou: passou de outsider-sistema para reforma-antirreforma. Assim, o presidente já não é visto como o líder excêntrico e decisionista que veio fazer o que outros não ousaram fazer — o ajuste estabilizador —, mas como o chefe de um governo que, dotado de apoio social e poder político, deve empreender mudanças profundas e construir uma nova ordem econômica, diferente da do passado, provavelmente mais capitalista e pró-mercado, mas que gere resultados concretos.
É justamente aí que Milei está falhando. Sua gestão é um menu de dois ou três pratos. Na economia, ajuste fiscal e gerenciamento do dia a dia financeiro para manter o dólar e a inflação sob controle (como muitos já apontaram, o ministro Caputo é mais um trader do que um macroeconomista); em matéria de segurança cidadã, mão dura e repressão à protesto social para dar a impressão de ordem; na política internacional, alinhamento absoluto com Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Tudo isso, no quadro da batalha cultural reacionária, que se intensifica ou se reduz conforme o momento e as circunstâncias.
Por sua própria natureza, o governo de Milei dá passos curtos, incapaz de oferecer algo parecido com um plano de médio prazo. O presidente demonstrou ser um líder disposto a correr riscos, até mesmo temerário, e de grande intuição, mas por personalidade e formação não parece apto para enfrentar o desafio de construir algo mais permanente e consistente: uma ordem econômica sustentada em um novo pacto social. A negociação legislativa, os acordos de coalizão, o planejamento e a persuasão — todas ferramentas imprescindíveis para um projeto desse tipo — são-lhe estranhas.
A comparação com Carlos Menem, que liderou nos anos 1990 um bem-sucedido projeto de reforma neoliberal — ao menos em seus próprios termos — ilustra esse ponto. Assim como Milei, Menem concretizou um plano ortodoxo de ajuste fiscal; assim como Milei, contava com o apoio dos Estados Unidos — os ventos da história, digamos, sopravam também a seu favor após a queda do Muro de Berlim —; assim como Milei, Menem era um líder audaz; e assim como Milei, mantinha-se um tanto afastado do dia a dia da gestão (também preferia passar o dia em Olivos, a residência privada do presidente, em vez da Casa Rosada, a sede operacional do governo). A diferença é que Menem apoiava-se em uma equipe de experientes dirigentes e economistas, cuja face mais visível era seu ministro da Economia, Domingo Cavallo, e que o ímpeto reformista de seu governo, não menos ambicioso que o atual, organizou-se em torno do Plano de Convertibilidade, que não foi um simples programa de estabilização macroeconômica, mas sim um verdadeiro pacto social, pelo qual a sociedade entregou ao mercado as decisões sobre emprego e desigualdade, mas recebeu em troca estabilidade e consumo.
Em seus primeiros dois anos de gestão, Milei conseguiu conter o dólar e reduzir a inflação, mas esse alívio foi ficando para trás. A inflação mantém um núcleo até agora irredutível, e as preocupações sociais se deslocaram para a renda, o trabalho e a pobreza. Como costuma acontecer na Argentina, quando a situação econômica aperta, a corrupção começa a se tornar visível ou intolerável, e o governo de Milei vive atualmente perturbado por escândalos, como o do enriquecimento pessoal do chefe de gabinete, Manuel Adorni, um suposto cruzado contra o uso do Estado pelos políticos da casta. Milei acredita que tudo se resume a uma conspiração da mídia e trata os jornalistas, especificamente “95%” deles segundo o cálculo presidencial, de “imundices” e “merdas humanas” (sic). Seu lema é “Não odiamos os jornalistas o suficiente” (sintetizado na sigla “NOLSALP” que ele usa em seus tuítes) e ele se mostra cada vez mais impulsivo nas redes sociais, onde os xingamentos ganham intensidade enquanto os problemas aumentam e se aprofunda a fissura interna entre a ala de sua poderosíssima irmã Karina e aqueles que respondem ao “mago do Kremlin”, seu assessor nas sombras Santiago Caputo. Trata-se de disputas cada vez mais abertas, que se traduzem em lutas pelo controle do Estado (justiça, inteligência e diversas “caixas”, ou seja, órgãos com grandes recursos) e que se expressam no mundo da internet, onde operam “As Forças do Céu”, a guerrilha digital de Caputo.
O peronismo, que continua sendo a principal força opositora, começou a se movimentar; ainda está se desentorpecendo lentamente. Ao mesmo tempo, alguns setores do poder econômico que nunca aceitaram totalmente Milei, a quem viam e continuam vendo como um outsider grotesco e imprevisível, exploram alternativas. Os rompantes do presidente contra Paolo Rocca, um dos empresários mais importantes do país, são significativos dos complexos vínculos entre Milei e a burguesia argentina. O estopim foi uma licitação de tubos para um gasoduto em Vaca Muerta que a Tenaris, empresa de Rocca, perdeu para a indiana Welspun. Milei acusou então o empresário de financiar críticas na mídia contra essa decisão e o apelidou de forma insultuosa de “Dom Sucatinho”.
Hoje, muitos conhecedores do mundo das elites estão constatando que um setor delas aposta em um mileísmo sem Milei, um neoliberalismo “sério”, sem os empresários lumpesinos e oportunistas que rondam o presidente em busca de algum negócio rápido, aproveitando oportunidades fugidias oferecidas pelo governo “libertário”, como foi o caso da fraudulenta criptomoeda Libra, e sem personagens difíceis de escrutinar como Karina Milei, que da noite para o dia passou a controlar grande parte do aparato estatal.
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