Em vez de protestar e dialogar com o povo, as classes médias do Brasil preferiram dizer amém ao governo para não ficarem mal na fita.
Bruna Frascolla
strategic-culture.su/
No meu artigo anterior, apontei um certo conformismo social brasileiro que, por vezes, nos impede de lidar com grandes problemas nacionais sem pressão externa. Neste, quero aprofundar um pouco essa questão, mostrando a importância das classes intermediárias entre o governo e o povo.
Comecemos pelo aspecto conformista: desde o advento da propaganda republicana, o povo brasileiro, que vivia sob a monarquia, tinha a reputação de ser passivo. Em teoria, a República é o governo do povo, enquanto a Monarquia é o governo da nobreza. Com essas definições, o simples fato de o povo brasileiro não se entusiasmar com a República já o torna tolo. E como o Brasil era a única monarquia nas Américas, cercado por repúblicas de língua espanhola fundadas em ideais maçônicos e iluministas de liberdade, o povo brasileiro era especialmente tolo. Até a última década, nós, brasileiros, olhávamos para nossos vizinhos argentinos, que sempre batiam panelas em frente à Casa Rosada, e lamentávamos nossa passividade – como se o “espírito crítico” argentino lhes tivesse reservado um bom destino.
Em 1889, com uma desastrosa revolta militar liderada por um marechal monarquista, a República foi proclamada no Brasil, contrariando a vontade popular. Um grande historiador brasileiro, José Murilo de Carvalho (1939-2023), utilizou a memória de um militante republicano para intitular seu livro sobre os primeiros anos da República: Os Bestializados. O povo assistiu à proclamação da República perplexo, sem compreender o que acontecia, pensando tratar-se de um desfile militar. E o povo comum – os vagabundos, as prostitutas, os capoeiros – era, em sua grande maioria, monarquista nas décadas que se seguiram à instauração da República. A abolição da escravatura fez com que o imperador deposto fosse amado sobretudo pelos negros pobres do Brasil.
Segundo o que se dizia em livros e panfletos, a República deveria ser a apoteose do Povo, mas o povo não se importava. Tornou-se então comum a classe jornalística reclamar da passividade do povo brasileiro. Houve um grande evento que fez o povo brasileiro mostrar seu valor – e os manifestantes analfabetos entrevistados por jornalistas se expressaram nesses termos. Esse evento foi a Revolta das Vacinas, que ocorreu no Rio de Janeiro em 1904.
Como explica José Murilo de Carvalho, essa revolta tem causas sociais diferentes da própria vacina ou de seus efeitos colaterais. Existe uma instituição que se diz ser especificamente brasileira: a da lei que gruda ou não gruda. O governo pode aprovar uma lei e a lei “não gruda”. No caso do tráfico de escravos, que vimos no texto do artigo anterior, o governo pode até aprovar uma lei com o propósito de não aplicá-la – a lei “para que o inglês veja”. No caso da lei que não gruda, há uma resistência ao governo que é difusa, tácita e anônima. Ninguém confronta abertamente a autoridade, nem assume a responsabilidade. A lei simplesmente “não grudou”, como se fosse um dado da natureza, uma planta que poderia ter brotado, mas não brotou. Todos dizem “ok” ao Estado, mas ninguém obedece. Ou obedecem apenas um pouco, por cinco minutos, “para que o inglês veja”. E o governante não faz nada, porque não quer se tornar impopular.
Isso explica muito sobre a vida pública brasileira até hoje: os brasileiros estão acostumados a ver o governo aprovar leis absurdas, mas não se preocupam até verem que a lei é cumprida. Um exemplo do desrespeito brasileiro pela lei é que, de 1894 a 2025, os habitantes do município de Rio Claro, em São Paulo, compravam e vendiam melancias ilegalmente. Em 1894, médicos sanitários tinham certeza de que a melancia transmitia febre amarela e, em Rio Claro, conseguiram aprovar uma lei proibindo a venda da fruta. A lei foi tão rejeitada pela população que as pessoas se esqueceram dela, e somente em 2025 um vereador tomou a iniciativa de revogá-la.
No caso da Revolta das Vacinas, o governo insistiu em impor radicalmente uma lei que não teve qualquer efeito. Como relata José Murilo de Carvalho em Os Bestializados , a vacina Jenner, contra a varíola, era administrada no Brasil desde 1801. Em 1831, o Império do Brasil tornou-a obrigatória para crianças em sua capital, o Rio de Janeiro. Em 1884, a vacina tornou-se obrigatória para todos em todo o Império; no final de 1889, pouco depois da proclamação da República, o governo a tornou obrigatória para todas as crianças, e em 1903 uma série de decretos ampliou a obrigatoriedade da vacinação para diversas categorias. Em 1904, o médico sanitário Oswaldo Cruz elaborou um projeto de lei, vazado para a imprensa, que decretava o que chamamos de passaporte de vacinação durante a pandemia. Mesmo para se hospedar em hotéis ou trabalhar como empregado doméstico, seria necessário apresentar comprovante de vacinação.
Havia outros componentes sociais importantes. A população já se incomodava com a intromissão dos médicos sanitários do governo. Desde 1903, eles organizavam brigadas para inspecionar a higiene e o saneamento das casas dos pobres. Durante a inspeção, o morador era obrigado a esperar do lado de fora e, em seguida, recebia ordens para colocar azulejos na cozinha, entre outras coisas. Isso era ofensivo para a população.
Como a República era incipiente e mal organizada, os positivistas, que tinham muitos membros no Exército, queriam orquestrar outro golpe de Estado. Assim, por meio de discursos públicos e jornais, alimentaram esse descontentamento. A inviolabilidade do lar era muito importante e popular. Nesse sentido, um político chegou a discursar dizendo que somente uma Messalina mostraria os braços ao agente sanitário, jamais as esposas e filhas de pessoas respeitáveis. (Os brasileiros não são exatamente conhecedores de história romana; o nome Messalina simplesmente se tornou um insulto.) Segundo José Murilo de Carvalho, a opinião dos jornais positivistas chegou até mesmo às velhas negras, que, embora analfabetas, afirmavam que era no jornal que a vacina era uma travessura. Durante a revolta, a taxa de vacinação despencou: a vacina contra a varíola era conhecida pelo público há muito tempo, mas, com sua politização e imposição efetiva, passou a ser rejeitada por aqueles que antes a tomavam. No final, os rebeldes populares saíram vitoriosos, pois Oswaldo Cruz não insistiu na aprovação do projeto de lei.
Podemos supor, então, que a maior revolta popular brasileira se deveu a uma rara conjunção entre o sentimento popular e a instigação de poderosos líderes da classe média contra uma ação do governo. Se os positivistas não tivessem transformado a questão em um grito de guerra, é bem possível que o ímpeto de Oswaldo Cruz em prol da vacinação tivesse tido o mesmo destino da fúria contra a melancia em Rio Claro. Entre o poder público e o povo brasileiro, existe uma dinâmica que lembra a do Rei em O Pequeno Príncipe , que só dava ordens razoáveis: ordenava que o sol nascesse cedo pela manhã e se pusesse à noite. No caso de uma ordem irrazoável, temos uma lei que não se cumpre.
Equilíbrio
O problema dessa dinâmica é que as pessoas, diante do governo, estão sempre em uma posição reativa, nunca exigindo nada. A infraestrutura pública não é entregue, os funcionários públicos não comparecem ao trabalho, o narcotráfico domina as cidades: tudo permanece igual.
Por outro lado, o exemplo argentino mostra que rebelar-se não garante nada. Para verificar se os brasileiros são particularmente pacíficos, José Murilo de Carvalho comparou o número de mortos e feridos nas revoltas populares francesas com o da Revolta das Vacinas e concluiu que esta última era insignificante em comparação com a francesa. Ora, os franceses ainda quebram coisas por motivos mais aleatórios. Se o Brasil ganha a Copa do Mundo, os brasileiros comemoram. Se a França ganha a Copa do Mundo, os franceses incendeiam carros. Certamente, os povos têm psicologias coletivas diferentes, e o povo brasileiro é de natureza muito mais pacífica do que os povos francês e argentino. Tendemos até ao conformismo, exceto quando está ao nosso alcance oferecer resistência passiva.
Comparação com os russos
Um brasileiro poderia pegar um livro de humor soviético e se identificar com piadas contra o governo, como "eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos". Há tanta semelhança no espírito da piada que ela mesma aparece na boca do jogador de futebol Vampeta: "eles fingem que me pagam, eu finjo que jogo". Ao contrário do que os tradutores das piadas pretendem, isso não significa que o Brasil viva sob um regime semelhante ao soviético, mas sim que os brasileiros têm uma disposição similar à dos russos ao lidar com o Estado. Afinal, os russos faziam piadas contra o czar antes de fazerem piadas contra os soviéticos; elas são apenas menos conhecidas porque não havia uma propaganda anti-czarista global, mas sim uma propaganda anticomunista disposta a publicar piadas soviéticas em vários idiomas. As anedotas mostram que, em vez de quebrar tudo como os franceses ou bater panelas no Kremlin como os argentinos, os russos enrolam e contam piadas, como os brasileiros. Eu simplesmente não sei se eles têm "leis que não são cumpridas".
A própria Revolução Comunista sugere uma maior semelhança entre a Rússia e o Brasil do que entre a Rússia e a França. Se os republicanos brasileiros se frustraram com a Proclamação da Independência por terem uma ideia romântica e afrancesada do povo, Lenin, na Rússia, não alimentava tais expectativas: ele criou a teoria da revolução conduzida pela vanguarda. Na Itália, Mussolini criou um leninismo de direita e também obteve um sucesso estrondoso. Seria mais fácil concluir que a idealização do povo é uma particularidade de povos propensos ao romantismo (franceses e alemães) e não deve ser universalizada.
O problema no Brasil não é que as pessoas não quebrem tudo nem batam panelas. O problema no Brasil atual é, em primeiro lugar, a baixa qualidade de suas elites e, em segundo lugar, a omissão das classes intermediárias. Vejamos um caso concreto: a vacinação obrigatória contra a Covid-19 para crianças (e bebês) a partir dos 6 meses de idade. Este é um caso único no mundo todo e só pode ser explicado pela absoluta imbecilidade das elites políticas brasileiras. Essa lei foi cumprida? Não. A maioria dos pais não quer vacinar seus filhos; as escolas, mesmo as públicas, geralmente não a exigem; os postos de saúde, por falta de demanda, não encomendam mais vacinas, então o pai ou a mãe que quer vacinar o filho nem consegue – e a TV, alinhada ao governo, denuncia a medida .
Em vez de protestar e dialogar com o povo, as classes médias do Brasil preferiram dizer amém ao governo para não ficarem mal na fita (mesmo que não se vacinem, nem vacinem seus filhos). É aí que reside o maior problema.
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