BRASIL - Os novos riscos da Lei de Livre Comércio para as empresas no Brasil

Em agosto de 2025, policiais atuam no distrito financeiro de São Paulo durante uma investigação de lavagem de dinheiro.Miguel Schincariol/AFP via Getty Images


As empresas enfrentam desafios significativos de conformidade com a designação sem precedentes dos EUA.

Para compreender a importância da designação, pelos Estados Unidos, de duas organizações criminosas brasileiras — o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital — como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs), com vigência a partir de 5 de junho, basta considerar a cidade mais emblemática do Brasil: o Rio de Janeiro.

Diz-se que o Comando Vermelho (CV) controla grande parte da cidade maravilhosa . Como muitas outras organizações criminosas latino-americanas, o CV está fortemente envolvido no tráfico de drogas e usa violência, sequestro e extorsão para manter o poder. Mas em certas partes do Rio e em outros lugares, o CV vai além, exercendo uma função quase governamental.

A organização mantém fortes laços com funcionários do governo e forças de segurança, chegando a operar seus próprios sistemas paralelos de governo. Suas facções monopolizam a internet, a TV a cabo, o transporte público e o mercado imobiliário em algumas partes da cidade. A organização exige preços exorbitantes por serviços, financia projetos de construção e até vende apartamentos. Pode ser difícil viver e trabalhar na cidade sem interagir com a CV de alguma forma.

Isso significa que empresas que atuam na segunda maior cidade do Brasil — incluindo aquelas que entregam mercadorias, operam armazéns ou prestam serviços essenciais, por exemplo — provavelmente realizam transações com o CV de alguma forma. Embora o CV tenha alcance nacional, o Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma organização criminosa ainda maior. Em São Paulo, a maior cidade do hemisfério, sua infiltração na economia legal é tão ampla quanto a do CV no Rio.

Nessas cidades, mas também em todo o país, atividades comerciais aparentemente normais agora podem constituir infrações civis e criminais sob a lei dos EUA, por serem consideradas interações com organizações terroristas. Alguns podem ver essas designações como mera demonstração de força do governo Trump ou como medidas temporárias que poderiam ser rapidamente revertidas. Mas as tendências são inegáveis; é improvável que essas medidas sejam apenas um soluço passageiro e criam novos riscos significativos para as empresas.

Considere as consequências da primeira onda de designações de Organizações Trabalhistas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) implementada no ano passado, visando outras partes da América Latina. Dezenas de pessoas foram presas, condenadas, declararam-se culpadas e estão sujeitas a confisco civil com base no apoio material a FTOs. Centenas foram acusadas de atividades relacionadas a cartéis. Dez funcionários atuais e antigos do cartel de Sinaloa, no México, foram recentemente indiciados por crimes relacionados ao narcotráfico. O Departamento do Tesouro adicionou centenas de novas entidades e indivíduos ligados a cartéis à lista de Nacionais Especialmente Designados do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC ).

A tendência para uma fiscalização mais rigorosa é clara, assim como os desafios que as empresas brasileiras enfrentarão daqui para frente.

Como as empresas podem se proteger?

Na sequência da Operação Lava Jato, que combateu a corrupção, mais empresas no Brasil estão adotando medidas internas de proteção à conformidade. Treinamentos, políticas e due diligence em relação a contrapartes são práticas comuns. A Pesquisa sobre Corrupção na América Latina de 2024 mostra que uma alta porcentagem das empresas brasileiras entrevistadas afirma implementar essas medidas, especialmente em comparação com outros países da região.

Mas os riscos relacionados a operações de livre comércio são, em muitos aspectos, distintos, novos e estão em constante evolução. Portanto, as empresas que operam no Brasil precisarão aprimorar os mecanismos de conformidade que já desenvolveram. A dimensão desse trabalho ficará mais evidente à medida que a fiscalização direcionada prosseguir e as autoridades americanas divulgarem suas expectativas. Provavelmente, as empresas precisarão avaliar um leque mais amplo de entidades, visto que as operações de livre comércio frequentemente contaminam cadeias de suprimentos, parceiros comerciais e até mesmo clientes. Também precisarão aprofundar suas estratégias de due diligence de contrapartes, já que os protocolos usuais de verificação de partes proibidas e revisão de registros públicos e da mídia podem não ser suficientes.

As empresas também precisarão investigar novas vulnerabilidades em potencial. Elas podem ter que apurar se algum funcionário ligado a organizações criminosas estrangeiras se infiltrou em suas empresas; se o roubo de ativos da empresa está ligado a operações de cartel; ou se as autoridades locais com quem estão lidando têm ligações com organizações criminosas estrangeiras, por exemplo.

Outras boas práticas emergentes para a conformidade com as leis contra organizações terroristas estrangeiras incluem a realização de avaliações de risco formais para mapear a exposição específica de uma empresa e a elaboração de protocolos de resposta a crises para gerenciar não apenas a contaminação da cadeia de suprimentos, mas também tentativas de extorsão e outros perigos físicos. Isso é especialmente importante: o gerenciamento dos riscos de organizações terroristas estrangeiras inevitavelmente exige considerações de segurança. Se uma denúncia anônima sugerir que uma empresa está fornecendo apoio a uma organização terrorista estrangeira, o acompanhamento pode exigir o questionamento de pessoas cujas afiliações são desconhecidas. E se uma empresa identificar um relacionamento problemático, desfazer esse relacionamento pode colocar os tomadores de decisão em perigo.

Felizmente, o governo dos EUA espera que as empresas elaborem suas medidas de conformidade considerando os riscos relevantes no terreno; reconhece-se que as empresas não dispõem de recursos ilimitados para se dedicarem à conformidade com as leis de livre comércio. (Isso é semelhante às normas de aplicação da FCPA.) No entanto, uma estratégia significativa baseada em riscos exige a compreensão dos setores, regiões geográficas e linhas de negócios mais afetados pelas leis de livre comércio, que variam muito em toda a região. As empresas que operam no Brasil precisarão compreender seus contextos locais com maior profundidade.

Uma estratégia mais ampla dos EUA

As designações conferem ao governo dos EUA ferramentas poderosas para processar entidades e indivíduos acusados ​​de fornecer "apoio material" a organizações terroristas estrangeiras. É importante ressaltar que a conduta em questão não precisa ter uma ligação jurisdicional significativa com os Estados Unidos. Empresas sediadas em qualquer lugar do mundo podem sofrer consequências se violarem as leis antiterrorismo americanas. Na medida em que empresas não americanas sejam consideradas como apoiadoras de organizações terroristas estrangeiras de uma forma que ameace diretamente os interesses de segurança nacional, é de se esperar que elas se tornem uma prioridade de fiscalização para o governo Trump. Diversas leis americanas estão em jogo, incluindo a Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA), a Lei Antiterrorismo, leis de sanções econômicas e leis de combate à lavagem de dinheiro.

No Brasil, as designações parecem ser, pelo menos em parte, políticas. Com a aproximação das eleições presidenciais de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem ganhando terreno nas pesquisas em relação ao seu oponente, Flávio Bolsonaro. Bolsonaro, segundo relatos, tem pressionado o governo Trump por ajuda e se atribuiu o mérito pelas designações de Organizações Terroristas Estrangeiras (OTE). As designações podem impactar as eleições, destacando os problemas do país com o crime organizado e prejudicando a atividade econômica. Lula respondeu à medida dizendo: "Não aceitaremos ser tratados como crianças".

Mas os novos riscos para os empresários não podem ser ignorados. As designações CV e PCC fazem parte da política mais ampla do governo Trump de “Eliminação Total de Cartéis e Organizações Criminosas Transnacionais”, articulada pela primeira vez em um memorando publicado pela então Procuradora-Geral Pam Bondi em 5 de fevereiro de 2025.

Algumas empresas podem pensar que a agenda de “eliminação total dos cartéis” desaparecerá após a saída do governo Trump do poder. Mas elas precisam perceber que é muito mais difícil remover a designação de Organização Terrorista Estrangeira (FTO) do que adicioná-la. Que futuro presidente dos EUA gostaria de ser rotulado como leniente com o crime organizado?

A opinião pública brasileira também parece apoiar medidas enérgicas, incluindo a designação de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês), para combater o crime organizado. Um estudo realizado em abril pela Ipsos Global Advisor apontou “crime e violência” como a principal preocupação dos brasileiros. Se a designação de FTO for percebida como um enfraquecimento do CV (Centro de Controle de Crimes) ou do PCC (Comando de Prevenção e Combate ao Crime Organizado), é provável que os brasileiros a apoiem.

As tendências são claras: as empresas que operam no Brasil terão que se adaptar aos novos riscos de conformidade.


SOBRE O AUTOR



Matteson Ellis

Ellis é o responsável pela área da América Latina no escritório Miller & Chevalier.
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