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A sociedade encara os conhecimentos de humanas e os próprios profissionais como descartáveis, tendo em vista a realidade atual dos professores
1.
Recentemente, em meus estudos de pré-vestibular, deparei-me com diversos comentários de estudantes que defendiam a ideia de que seria plausível, e até mesmo melhor, negligenciar a matéria de linguagens e humanas para que se possa focar totalmente nas ciências naturais e na matemática. Retirando a relação de proficiência estudantil e a questão do peso em notas, nota-se uma visão que, de certa forma, busca o isolamento das ciências humanas e linguísticas e que despreza o uso das mesmas.
Sob essa perspectiva, qual seria o motivo do desprezo por essas áreas específicas? Seria um caso de grande entendimento da matéria e, sendo assim, seria melhor focar nas fragilidades do estudante? Seria uma visão que discorda da importância dessas ciências para a humanidade? Seria uma combinação de ambos os fatores?
Certamente, não deixei de considerar a possibilidade de haver interferência do pensamento conservador nesse cenário. Há quem veja nas humanidades uma ameaça à ordem estabelecida, associando o pensamento crítico à doutrinação ideológica. Esse receio, ainda que velado, alimenta a desconfiança em relação ao conhecimento produzido por essas áreas. Comentarei, nesse texto, a relação de desprezo com as ciências humanas especificamente, porém, não desconsidero a tese de que as linguagens também são vítimas do mesmo processo.
Ademais, poucos se sentiriam autorizados a discordar de um engenheiro sobre a resistência de uma ponte ou de um médico sobre o diagnóstico de uma doença. No entanto, quando o tema é história, sociologia ou filosofia, a mesma deferência raramente é concedida. Ao contrário, o especialista nessas áreas vê sua autoridade questionada cotidianamente por vozes que se julgam igualmente competentes, como se a experiência de viver em sociedade bastasse para substituir anos de pesquisa metódica. Essa assimetria revela não uma suposta fragilidade das ciências humanas, mas uma profunda distorção epistemológica.
Outrossim, as pessoas confundem familiaridade com expertise. Todos vivem em sociedade, todos votam, todos falam uma língua, todos possuem experiências históricas. Essa proximidade produz a ilusão de que compreender cientificamente esses fenômenos é simples. No entanto, assim como possuir um corpo não torna alguém médico, viver em sociedade não transforma ninguém em sociólogo.
Logo, as ciências humanas sofrem uma desvalorização epistemológica: ao contrário de outras áreas do conhecimento, seus métodos e sua expertise frequentemente não são reconhecidos como científicos. Isso faz com que pessoas sem formação se sintam autorizadas a emitir opiniões categóricas sobre história, sociologia, filosofia ou direito, muitas vezes apresentando senso comum ou pseudociência como se fossem conhecimento especializado. Não se trata de um problema com interdisciplinaridade, mas da desconsideração dos métodos próprios dessas disciplinas e da autoridade construída por meio da pesquisa. Além disso, o caso é agravado pela forma com que a sociedade, equivocadamente, mistura opinião com saber e intuição com ciência.
2.
A pesquisa realizada em 2025 pela More In Common, em parceria com a Quaest, demonstra as percepções conservadoras arraigadas na sociedade brasileira. Isso porque 54% dos brasileiros creem que as universidades públicas possuem mais viés ideológico do que, verdadeiramente, ensino de qualidade. Decerto, os resultados da pesquisa apontam uma crise de legitimidade das universidades públicas, crise essa que é amplamente abordada no artigo “A desqualificação das universidades públicas”, de Roberto Leher – postado no site A Terra é Redonda.
Todavia, o que é de extremo interesse para o caso do desprezo às ciências humanas é, na verdade, o fato de boa parte da premissa de desqualificação das humanidades está baseada na crença de viés ideológico. Por conseguinte, a pesquisa demonstra, com nitidez, a existência de uma forte presença da percepção conservadora em relação às universidades públicas brasileiras.
Outrossim, pode-se dizer que a polarização política contribui diretamente para o cenário comentado. Pois, uma vez que a população age com desconfiança perante a universidade pública e, obviamente, às humanidades, por conta de fatores ideológicos, é notório que o combate ao suposto viés político será consequência de tal desconfiança. Assim, surge a proliferação de discursos pseudo-científicos ou reducionistas que irão contrapor a imaginária doutrinação política.
Contudo, tal fenômeno não explicaria a disseminação de conteúdo anticientífico, pois, não faria sentido para um indivíduo cético em relação às ciências humanas, utilizar ela para contrapor problemas ideológicos. Sendo assim, seria lógico concluir que a desconfiança não é com as ciências sociais em si, mas, de fato, com a suposta posição política da ciência. Como uma pesquisa australiana revelou que, embora 80% da população demonstre interesse por história, mais de 75% acreditam que ela é suscetível a ser manipulada por políticos e pela mídia.
No Brasil, poderia ser observado um cenário similar, uma vez que a população também demonstra interesse em ciências humanas, porém, a rejeita por conta de uma crença já estabelecida que relaciona humanidades com doutrinação ideológica.
Com a polarização política interferindo, evidentemente, na posição ideológica do congresso, faz-se explícito que parlamentares – principalmente de direita – irão se alinhar com a visão conservadora comentada. Com base nisso, a lógica de austeridade, que continua assombrando a nação, irá ser utilizada como ferramenta para atacar as universidades e projetar uma economia desfavorável aos projetos das ciências sociais. Temos como prova disso o corte de orçamento de 69 universidades federais, em 2026, em meio à ampliação de gastos com emendas parlamentares.
3.
Com efeito, emerge outro desafio aos profissionais de humanas: a lógica capitalista. Isto é, a lógica que compreende aqueles que não esbanjam recursos materiais como uma casta inferior na sociedade. Nesse sentido, conforme a sociedade se fecha para as ciências sociais, a economia molda um cenário extremamente competitivo e injusto para o exercício da profissão da área de humanas.
Dessa maneira, vítimas do baixo salário e da falta de perspectiva, a sociedade encara os conhecimentos dos profissionais de humanas como descartáveis, não só isso, mas encara, simultaneamente, os próprios profissionais como descartáveis, tendo em vista a realidade atual dos professores.
Entretanto, é de extrema ingenuidade tratar as humanidades como inúteis baseando-se, apenas, em questões financeiras. Da mesma forma, seria ingenuidade tratar a engenharia como fútil, desconsiderando todas as maravilhas provenientes da engenharia, por conta da falta de sucesso de seus profissionais. Na realidade, já é observável uma crise na engenharia e em outras áreas das ciências naturais, vítimas, também, da política de austeridade neoliberal.
Dentre outros aspectos, faz-se imprescindível compreender a repentina expansão de falsificadores da ciência e suas respectivas problemáticas. Pois, é inacreditável que existam influenciadores, com milhares de seguidores, que se trajem de “defensores da parcialidade” e “divulgadores da ciência”, porém, tudo que fazem é propagar a desinformação e lucrar em cima das falsificações.
Lamentavelmente, esses personagens influenciam diariamente centenas de milhares de indivíduos. Contaminando o planeta de seres vítimas do Efeito Dunning-Kruger. Além disso, criam-se semi-seitas que buscam defender o influenciador – que sequer possui graduação ou pesquisa científica na área – e disseminar sua fama.
Vale ressaltar que não busco fortalecer o discurso elitista que defende a tese de que apenas acadêmicos da área devem compô-la. Sobretudo, a existência de indivíduos de outras áreas do conhecimento é essencial para o avanço da ciência, afinal, é o que significa interdisciplinaridade. Todavia, o que critico, nesse texto, é a confiança total que dão para indivíduos que não afirmam serem meros divulgadores – que possuem conhecimento superficial de determinado assunto.
Na verdade, passam a atuar e a ser vistos como verdadeiros profissionais da área, quando não são. Tal comportamento não só fortalece a pseudociência, a desinformação e a parcialidade científica, mas também alimenta a desconfiança em relação às ciências humanas e, por conseguinte, às teses dos verdadeiros profissionais da área.
4.
Com efeito, o que surge com esse comportamento é o apagamento de pesquisas, artigos e até mesmo influenciadores que contribuem com a luta contra a desvalorização das ciências humanas. Uma vez que, diferentemente do que é propagado, as ciências humanas são, de fato, uma ciência e, por isso, necessitam de método científico. Nesse sentido, o trabalho com rigor científico é longo, cansativo e demanda esforço.
Logo, na sociedade que é marcada pelo conteúdo rápido, o trabalho que demora a ser publicado – graças ao tratamento correto com o método científico – é repentinamente ofuscado pela rapidez dos conteúdos propagados pelos influenciadores falsificadores da ciência – que não demandam elevado rigor técnico.
Nesse sentido, faz-se correto afirmar que até a estrutura do algoritmo favorece a desvalorização das ciências, em geral. Com isso, por conta da necessidade de fazer sucesso, financeiramente e popularmente, cria-se um cenário de desprezo ao método científico. Tal cenário se define pela mercantilização do conhecimento. Isto é, o processo de transformação do saber em mercadoria, priorizando sua aparência e forma de venda em detrimento do progresso técnico.
Conectando-se ao ponto de formação estudantil, dos 10 cursos mais concorridos do SISU, apenas três são das ciências sociais: direito, psicologia e arquitetura e urbanismo. O que conecta todos os três cursos é o fato de todos serem conhecidos como “financeiramente rentáveis”. Desconsiderando se a afirmação é verdadeira ou não, é evidente que a opinião pública presume os três cursos como interessantes monetariamente.
Portanto, fortalece-se a tese de que é de maior importância para um indivíduo a recompensa financeira do que o avanço acadêmico da área. Contudo, mesmo assim, a sociedade brasileira demonstra interesse pela área de humanas, porém, não é o bastante para fazer dela uma área de grande concorrência.
À guisa de conclusão, é explícito que todos os fatores comentados – a visão conservadora; o ataque neoliberal; a lógica econômica; o avanço da pseudociência; os falsificadores do conhecimento; e a desvalorização estudantil – contribuem para o desprezo às humanidades. Formando-se um cenário estrutural complexo de se desfazer, uma vez que cada fator se entrelaça um ao outro e o fortalece. Sobretudo, o desprezo caracteriza-se por uma desvalorização epistemológica. Pois, a sociedade se interessa pela área de humanas, entretanto, não busca o verdadeiro saber que a determinada área provém.
5.
Assim, a sociedade se deixa levar pela grande massa de conhecimento infundado que existe nas redes sociais. Esse conhecimento, propagado por falsificadores da ciência, é dominado por ideologias hostis às ciências sociais. Por conseguinte, esse conhecimento se enraiza no pensamento do indivíduo que o consome e, posteriormente, forma um indivíduo ideologicamente cooptado.
Tal indivíduo irá, de forma estrutural, consumir o conteúdo pseudocientífico e impulsionar, mais ainda, a propagação dos falsificadores da ciência devido à lógica que compõe o algoritmo das redes sociais. Desse modo, o conhecimento alcançará mais seres e, assim, irá fortalecer o ciclo da ignorância.
Não é de se esperar uma mudança repentina no cenário. Pois, assim como Carl Sagan afirma em O mundo assombrado por demônios, a pseudociência apela fortemente para necessidades emocionais. Dessa forma, é mais comum enxergar um fortalecimento do saber pseudocientífico. Todavia, é de extrema importância e, por essência, o dever dos cientistas e acadêmicos combater a falsificação que aterroriza a sociedade contemporânea. É necessário crer na superioridade da ciência para desmascarar os propagadores da falsa ciência.
Nesse viés, quando cito a palavra “ciências” não pretendo dizer apenas as ciências sociais, mas sim, pretendo dizer todas as ciências do homem. Paralelamente, junto ao combate da pseudociência, o desprezo às ciências humanas deve ser enfrentado. Pois, em uma sociedade orientada pelo conhecimento científico, o exercício das humanidades será de maior importância e, consequentemente, maior facilidade. Diferentemente, a sociedade atual, vítima e, simultaneamente, cometedora de ataques às universidades, demonstra ser hostil à prática do saber.
O que está em jogo, portanto, não é apenas o orçamento de universidades ou a distribuição de bolsas de pesquisa. É a própria concepção de conhecimento que uma sociedade elege como legítima. Quando as ciências humanas são sistematicamente desfinanciadas e seus métodos são desconsiderados sob a acusação vaga de “doutrinação ideológica”, não se está apenas cortando gastos, está-se cerceando a capacidade de uma nação de compreender a si mesma.
A história, a sociologia, a filosofia e o direito não são ornamentos culturais dispensáveis, são ferramentas essenciais para que uma civilização não se dissolva em achismos e paixões. Desprezar o rigor dessas disciplinas é, no fundo, desprezar a própria possibilidade de um debate público informado e de uma cidadania consciente. Se a ciência natural nos ensina a construir pontes, as ciências humanas nos ensinam para onde elas devem nos levar. E sem esse norte, de nada adiantam as ciências naturais. Uma sociedade necessita de ambas.
*Artur Sabino de Carvalho é estudante do terceiro ano do ensino médio em Campina Grande e ativista político.
"A leitura ilumina o espírito".
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