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A consolidação do Pix como ferramenta pública e gratuita contraria interesses financeiros estadunidenses, transformando a defesa do sistema em um trunfo decisivo para a soberania nacional nas eleições de 2026
1.
Ora, quem diria, o Pix é subversivo. Está prejudicando o sistema financeiro de pagamentos dos EUA. Só falta alguém chamar o Pix de comunista, mas não duvido de que isso venha a ocorrer. Vejamos porque Donald Trump quer acabar com o Pix.
Segundo dados do Banco Central, em 2025 foram movimentados R$ 35,36 trilhões por meio do Pix, distribuídos em aproximadamente 79,8 bilhões de transações. Esse valor é muito maior do que o PIB brasileiro anual, o que mostra a dimensão alcançada pelo sistema de pagamentos instantâneos. O valor movimentado pelo Pix em 2024 foi cerca de R$ 26,2 trilhões, e em 2025 alcançou cerca de 35,4 trilhões.
O crescimento de 2024 para 2025 foi de aproximadamente 34% em valor movimentado. Mais de 170 milhões de brasileiros já utilizaram o Pix que já responde por mais da metade de todas as transações de pagamento realizadas no país. Em termos médios, os R$ 35,36 trilhões por ano correspondem a cerca de R$ 97 bilhões movimentados por dia.
Em relação à perda dos cartões de crédito pelo uso do Pix, que é gratuito, embora não exista um cálculo oficial e consensual, a melhor estimativa disponível sugere que o avanço do Pix retirou do setor de cartões algo entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões por ano em receitas de taxas. Nem por isso tiveram prejuízo.
“O bolo total de cartões no Brasil saltou de 1,75 trilhão de reais em 2019 para 4,27 trilhões em 2025 – um crescimento nominal de 144%. O cartão de crédito sozinho foi de 1,06 trilhão para 3 trilhões de reais. E os cartões pré-pagos das fintechs explodiram de 22,4 bilhões para 319,3 bilhões de reais” (José Roberto de Toledo, UOL, 6/6/2026).
Mas o Pix é público e gratuito, sufoca o potencial de crescimento dos cartões, reduz e no limite elimina a dependência ao mercado privado de cartões, prejudicando os interesses das empresas e do governo dos EUA. Donald Trump defende os interesses das empresas americanas de cartão de crédito, principalmente Visa e Master Card. E o intermediário de Donald Trump no Brasil, o candidato Flávio Bolsonaro, vai certamente obedecer às ordens de seu patrão.
2.
Em 8 de cada 10 mensagens opinativas sobre o assunto trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o senador Flávio Bolsonaro é apontado como culpado por ameaças ao Pix e pelo novo tarifaço anunciado pelos EUA. Ele tentou amenizar dizendo que é contra o novo tarifaço e defende o Pix, mas seu irmão Eduardo, nos EUA, abriu o jogo e propôs abertamente acabar com o Pix e adotar o sistema americano Zelle.
Ocorre que o; Zelle pertence a um consórcio privado Early Warning Services, controlado por grandes bancos, entre os quais Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo. O Pix é público, gratuito e instantâneo. O Zelle é pago e pode demorar horas ou dias para completar uma transação. Além disso, o sistema americano não cobre todo território dos Estados Unidos nem funciona fora do ecossistema bancário aderente, ao contrário do Pix que se espalhou e cobre todo o Brasil.
Até agora, os maiores apoiadores de Lula foram, paradoxalmente, Donald Trump e Flávio Bolsonaro. A defesa da soberania nacional caiu no colo de Lula ao defender o Pix e a economia brasileira contra o tarifaço anunciado por Donald Trump e seu Secretário de Estado Marco Rubio. O candidato Flávio Bolsonaro se enfraquece no empresariado e no grande público pela extorsão de 61 milhões do dinheiro roubado por Daniel Vorcaro, do Banco Master, pela mentira ao alegar que esse dinheiro iria para o filme sobre seu pai, e pelo tarifaço anunciado em seguida à sua visita a Donald Trump e Marco Rubio.
Até agora Flávio Bolsonaro não explicou para onde foi esse dinheiro. Vai ser questionado durante toda a campanha, o que lhe obriga a ficar se defendendo. E, em campanha eleitoral, quem só se defende já perdeu. Ele perdeu o discurso contra a corrupção e a favor da economia. Daniel Vorcaro e Donald Trump cairão como espada de Dâmocles na sua cabeça. Vai ficar restrito praticamente ao discurso sobre segurança, denunciando o aumento real ou imaginário da criminalidade que assusta a população. E vai continuar alimentando o eleitorado de direita com fake news.
A última pesquisa eleitoral, realizada pela Vox Brasil e divulgada em 5 de junho de 2026, mostra Lula no segundo turno com 47,8% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 41,3%. Outros 6,5% votam branco ou nulo e 4,4% não souberam responder. Em outro cenário, Lula teria 46,3% contra 42,5% de Romeu Zema, e 46,5% contra 44,9% de Ronaldo Caiado. Por essa pesquisa, Caiado e Zema teriam mais votos que Flávio no segundo turno.
3.
Ainda é cedo para conclusões, a mídia e o mercado ainda estão apoiando Flávio Bolsonaro, mas tudo indica que ele vai pagar o preço por andar nas más companhias de Daniel Vorcaro e Donald Trump. Se ele tivesse lido Max Weber, estaria mais atento aos resultados não intencionais das ações humanas que frequentemente produzem consequências diferentes daquelas pretendidas pelos indivíduos que as realizam.
Do lado de Lula, duas iniciativas louváveis causaram impacto positivo na opinião pública: o fim da escala 6×1 e o Desenrola, já que o aumento de renda estava sendo engolido pelo endividamento. Mas a repercussão eleitoral ainda não foi muito significativa. Será necessário apresentar propostas para criar esperança para o futuro, esperança de que a vida do eleitor vai melhorar, que o país vai se desenvolver. Ficar ressaltando os dados macroeconômicos positivos do passado não rende votos.
A candidatura de Flávio Bolsonaro pode continuar ou ser substituída por outro candidato de direita, Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. De qualquer maneira, a imprensa e o mercado apoiarão o candidato de direita contra Lula e tentarão ignorar ou amenizar o máximo possível o efeito negativo das más companhias de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, Marco Rubio e Donald Trump.
Muita gente já mostrou a necessidade de apresentar propostas de impacto como, por exemplo, taxar as grandes fortunas, tarifa zero no transporte público, acabar com as emendas parlamentares secretas que sequestram o orçamento, medidas efetivas de segurança contra o crime organizado, defesa da Amazônia, propostas que mobilizem a emoção, e não busquem apenas uma aprovação racional. O importante é a proposta de impacto, o como fazer fica para depois. O eleitorado flutuante, o eleitor indeciso e pendular, decide o voto mais pela emoção do que pela razão.
E, comandando o pelotão dessas utopias possíveis, o General Pix, uma verdadeira unanimidade nacional, pode dar uma contribuição decisiva não somente para a vitória de Lula na eleição de outubro, mas também para eleger mais parlamentares progressistas para o próximo Congresso.
*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]
"A leitura ilumina o espírito".
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