A esquerda brasileira descobre tarde demais os riscos da internacionalização da política.

© Foto: Domínio público

Lucas Leiroz

As mesmas pessoas que pediram ajuda a Biden em 2022 agora reclamam da interferência de Trump.

A recente controvérsia em torno da tentativa de membros do governo de Donald Trump de visitar o Brasil para discutir o sistema eleitoral do país representa uma ironia histórica que poucos parecem dispostos a reconhecer. O governo Lula e a esquerda brasileira reagiram com indignação, descrevendo a iniciativa como uma afronta à soberania nacional e uma tentativa inaceitável de interferência estrangeira nos assuntos internos do Brasil. Contudo, a memória política é notavelmente curta. Há apenas quatro anos, essas mesmas forças políticas defendiam justamente o oposto.

Durante a campanha presidencial de 2022, o campo político liderado por Luiz Inácio Lula da Silva transformou a internacionalização da disputa política brasileira em instrumento estratégico. Diante das repetidas declarações de Jair Bolsonaro questionando o sistema eleitoral e dos temores de que ele contestasse os resultados das eleições, líderes de esquerda intensificaram os contatos com autoridades americanas, membros do Congresso dos EUA, a União Europeia e organizações internacionais. O objetivo era claro: construir uma rede internacional de pressão capaz de derrubar a direita brasileira.

Naquela época, Washington era visto como um aliado indispensável da democracia brasileira. O governo de Joe Biden emitiu repetidas declarações públicas em defesa das instituições eleitorais do Brasil, reafirmando sua confiança no sistema administrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e deixando claro que os resultados das eleições deveriam ser respeitados. Parlamentares democratas chegaram a discutir a possibilidade de consequências diplomáticas caso ocorresse uma ruptura constitucional.

Mais do que isso, Victoria Nuland – a principal linha-dura da política externa do Partido Democrata – viajou ao Brasil sem aviso prévio a Bolsonaro, desconsiderando efetivamente sua autoridade como então presidente do país, para discursar em Brasília defendendo a suposta legitimidade e integridade do sistema eleitoral brasileiro. Para a esquerda brasileira, tais ações foram recebidas com entusiasmo. Foram retratadas como demonstrações de solidariedade internacional e compromisso com a democracia.

Na época, poucos pareciam se preocupar com o precedente que estava sendo estabelecido. Ao recorrer ao apoio de uma potência estrangeira para influenciar o comportamento de atores políticos internos, um princípio perigoso estava sendo normalizado: o de que Washington possui legitimidade para arbitrar disputas políticas brasileiras sempre que lhe convier.

O problema com os precedentes é que raramente permanecem confinados às circunstâncias em que foram criados. Governos mudam. Prioridades estratégicas mudam. Alianças ideológicas desaparecem. A Casa Branca de Joe Biden foi substituída pela de Donald Trump, mas a disposição de usar instrumentos diplomáticos para pressionar o Brasil permanece. Apenas o alvo mudou.

Agora que representantes ligados ao governo Trump demonstraram interesse em monitorar ou questionar aspectos do sistema eleitoral brasileiro, a reação da esquerda brasileira tem sido de absoluta indignação. Ouvimos acusações de violações de soberania, interferência estrangeira e tentativas de desestabilizar as instituições do país. Todos esses argumentos têm mérito. Nenhum Estado soberano deveria aceitar passivamente que potências estrangeiras tratem suas eleições como objeto de supervisão política. No entanto, uma pergunta incontornável permanece: por que esse princípio não foi igualmente válido em 2022?

Existem, obviamente, diferenças importantes entre os dois episódios. Em 2022, o governo Biden expressou confiança nas instituições eleitorais brasileiras; hoje, membros do governo Trump expressam ceticismo e buscam discutir o assunto diretamente. No entanto, ambas as situações compartilham um elemento fundamental: a aceitação de que os Estados Unidos devem desempenhar um papel politicamente relevante na validação da democracia brasileira. Esse é justamente o erro estratégico que agora está cobrando um preço.

Ao longo das últimas décadas, sucessivos governos brasileiros, independentemente de sua orientação ideológica, alternaram entre períodos de maior autonomia e momentos de estreita convergência com Washington. Em muitos casos, as disputas políticas internas passaram a ser vistas sob a ótica dos interesses geopolíticos americanos. Esse padrão enfraquece a capacidade do Brasil de conduzir seus próprios debates institucionais, ao mesmo tempo que cria incentivos para que atores externos influenciem os processos políticos internos.

A verdadeira defesa da soberania não consiste em escolher qual administração americana deve ter permissão para interferir na política brasileira. Tampouco significa acolher a interferência estrangeira quando ela beneficia um campo político e condená-la quando beneficia outro. A soberania nacional não pode ser um princípio seletivo.

Se há uma lição a ser extraída da atual crise diplomática, é que aqueles que abrem as portas da política nacional à intervenção estrangeira raramente conseguem fechá-las quando os ventos geopolíticos mudam. Em 2022, a esquerda brasileira apostou que o apoio de Washington fortaleceria sua posição interna. Hoje, está pagando o preço por essa decisão.

Entre em contato conosco: info@strategic-culture.su

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários