A última volta dos velhinhos do PT

Patrus Ananias

“O baixo índice de renovação no partido empurra militantes históricos para disputas heroicas”, escreve Moisés Mendes

Moisés Mendes

Algumas das escolhas de Lula e do PT para a disputa de governos estaduais e até para o Senado são apresentadas como sacrifícios. São eleições majoritárias complicadas, em redutos há um bom tempo sob controle da direita, com exceções cada vez mais pontuais.

O exemplo recente é o de Patrus Ananias, que deve disputar o governo de Minas em atendimento a um apelo de Lula. O ex-prefeito e ex-ministro abandonará uma caminhada quase tranquila pela reeleição à Câmara para que se resolva o impasse mineiro.

Não precisamos citar outros nomes de sacrificados, mas essas podem ser, nas maratonas eleitorais que o PT disputa há 44 anos, as últimas voltas de muita gente que vem lá do começo. Patrus Ananias tem 74 anos.

O PT e as esquerdas em geral enfrentam a mesma síndrome da Seleção que foi à Copa: baixo índice de renovação e déficit de nomes de jovens ou não veteranos com capacidade de chegar à boca do palco.

Não é um problema banal, nem discriminação, nem etarismo. A maior parte das esquerdas não se renova nem pela idade dos que conquistam mandatos, nem pelo surgimento de nomes, mesmo que maduros, que possam representar caras e conversas novas.

A renovação geral dos partidos da Câmara em 2022 foi de 44%, um pouco abaixo dos números dos últimos anos. E só não foi menor porque a direita antiga e a nova extrema direita renovaram suas bancadas bem acima dessa média.

A renovação total do PT na Câmara foi de 35% na última eleição. O mais baixo índice por estado, considerando-se todos os partidos, foi o do Rio Grande do Sul, com 26%.

Qualquer filiado chegado ontem ao PT sabe que, nas duas últimas eleições, a prioridade foi apostar em mandatos consagrados, porque esses teriam mais facilidade, ou menos dificuldades, arrancando com bases consolidadas.

Foi a tática da urgência de 2018, na falta de uma estratégia de médio prazo, com Lula encarcerado, e de 2022, com Lula em liberdade. Os parlamentares com mandatos, na Câmara e nas assembleias, tiveram esse empurrão com verbas do fundo eleitoral que calouros nunca terão.

O PT vive de urgências desde muito antes do golpe de 2016 contra Dilma, mesmo que pareça razoável que candidatos com cavalo encilhado recebam tratamento diferenciado. Mas qual é o nível dessa diferenciação?

Como calibrar essas prioridades para que não impeçam inclusão e renovação? Não é uma equação fácil, mas as esquerdas nunca tiveram facilidades, nem as verbas que têm agora em abundância.

As esquerdas pós-ditadura, sem dinheiro, que formaram suas estruturas a partir da criação do PT em 1980, estão endinheiradas com verbas públicas, como todos os partidos, mas presas à armadilha eleitoral em que tudo passou a ser emergencial.

Leiam o que Lula já disse a respeito desse impasse: “Mesmo o Partido dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que contribuiu muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de uma profunda renovação. É preciso recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens de forma paternalista”.

O trecho acima não é de agora, é de artigo escrito para o The New York Times. Foi publicado em 2013. Desde que assumiu seu terceiro mandato, Lula já falou várias vezes em renovação e na necessidade de melhorar a partilha das verbas de campanha.

Mas a pauta continua sendo tabu, porque a maioria acha que esse não é um assunto para a véspera da eleição. E nem para depois. O PT não sabe lidar com renovação, nem com pautas complexas sobre seus destinos.

E assim a média de idade dos deputados do PT vai crescendo e chegando hoje ao redor de 60 anos. PT, PCdoB e PDT têm a maior proporção de velhinhos da Câmara. Na esquerda, a exceção é o PSOL, com idade média de 54 anos.

Os seis parlamentares da primeira bancada eleita do PT em 1982 tinham idade média de 40 anos. Eduardo Suplicy tinha 41. José Genoino tinha 36 anos. O mais velho, um suplente que assumiu no meio do mandato, era Plínio de Arruda Sampaio, com 52 anos.

Olívio Dutra concorreu a governador do Rio Grande do Sul, pela primeira vez, em 1982, também com 41 anos. A mesma idade de Lula quando se elegeu deputado federal quatro anos depois.

Patrus Ananias, que vai à luta nas Minas Gerais tomadas pela extrema direita, está nessa estrada desde os 36 anos, quando se elegeu vereador por Belo Horizonte. A candidatura ao governo do estado o engrandece.

Mas a ideia de que só os velhinhos resolvem urgências está esgotada como tática permanente e protelatória. A urgência que o PT não pode escamotear é a renovação de nomes e de condutas.


"A leitura ilumina o espírito".

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