
O Tribunal Federal nº 8 ordenou uma medida cautelar para congelar contas de criptomoedas na Binance, Bybit e outras plataformas, a fim de reconstruir o fluxo de fundos no caso $Libra, que investiga o esquema envolvendo o token promovido pelo presidente Javier Milei, que, após atingir um preço recorde, sofreu um colapso que prejudicou mais de 40.000 compradores em um montante estimado em 100 milhões de dólares.
O juiz Marcelo Martínez de Giorgi, a pedido do procurador Eduardo Taiano, ordenou o congelamento de 25 contas de criptomoedas ligadas à suposta fraude e está trabalhando para identificar seus proprietários, após a divulgação de um relatório do Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal. As contas pertencem às plataformas Binance, Bybit, OKX, Coinex, Fixedfloat e Bitfinex, todas relacionadas ao esquema de fraude com criptomoedas investigado. Esta é uma das primeiras ações significativas tomadas desde o arquivamento dos processos.
A medida foi solicitada há alguns dias pelo procurador Eduardo Taiano para identificar os titulares das contas e "impedir a movimentação, transferência ou alienação de ativos que possam constituir proventos ou lucros do crime sob investigação, assegurar a eventual recuperação dos ativos e prevenir novos crimes". A resolução foi adotada após um relatório técnico elaborado pelo Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal Argentina (PFA), que reconstruiu o fluxo de fundos por meio de uma análise de rastreabilidade das transações realizadas na blockchain.
Da mesma forma, o juiz Martínez de Giorgi rejeitou nesta sexta-feira as acusações contra os autores do caso $LIBRA, uma decisão com repercussões significativas que beneficia diretamente o presidente Javier Milei, sua irmã Karina (secretária-geral da Presidência) e os demais indivíduos investigados no caso de fraude com criptomoedas. O juiz, cuja esposa, Ana Juan, foi recentemente indicada para o cargo pelo chefe de Estado, acatou uma moção apresentada pelo trader Mauricio Novelli. Com essa medida, apenas o promotor Eduardo Taiano permanece como acusador, um promotor que vem dificultando o andamento do caso desde o seu início.
Martínez de Giorgi atendeu ao pedido de Novelli, argumentando que "mesmo que certos investidores possam ter sofrido perdas econômicas com a compra de '$LIBRA', isso não nos permite, por si só, concluir que elas constituem o dano direto exigido pelo direito processual para reconhecer o status de parte lesada privada, nem que isso esteja especificamente ligado às ações daqueles que estão sob investigação".
É evidente uma visão bastante tendenciosa em relação ao papel da vítima. É claro que uma fraude está sendo investigada e há evidências no processo que incriminam os réus. Portanto, aqueles prejudicados pelo esquema da LIBRA devem ser considerados demandantes. Nada no caso mudou que justifique a alteração dos critérios estabelecidos.
O percurso dos fundos de Libra
Segundo o processo, os investigadores utilizaram uma metodologia conhecida como "rastreamento reverso", que consiste em reconstruir os movimentos subsequentes dos ativos para identificar padrões de dispersão e possíveis ligações entre diferentes carteiras digitais.
A análise da PFA detectou uma série de endereços de criptomoedas chamados "Team Libra Wallets", que, de acordo com o relatório incorporado ao processo, teriam funcionado como pontos de partida dentro de uma estrutura de movimentação financeira investigada.
De acordo com a acusação, essas carteiras realizaram transferências para diversos serviços de câmbio e plataformas digitais, incluindo FixedFloat, deBridge Finance, Binance, Bybit, OKX e CoinEx. Os investigadores observaram que as transações permitiram rastrear os fundos desde as carteiras iniciais associadas ao ecossistema Libra até contas hospedadas em corretoras centralizadas.
O relatório técnico indicou que uma das carteiras identificadas como “Team Libra Wallet 1” mantinha conexões transacionais com outros endereços digitais ligados ao caso. A partir daí, os ativos teriam sido enviados para carteiras intermediárias e, posteriormente, redistribuídos para diferentes plataformas. O empresário americano Hayden Davis, promotor da criptomoeda Libra, juntamente com o presidente Javier Milei
A investigação também se concentrou no uso de protocolos de interoperabilidade de blockchain, como o Bridge Finance, que permitem a transferência de ativos digitais entre diferentes redes. De acordo com a análise da PFA, alguns fundos podem ter passado da rede Solana para outras redes, como Tron e Ethereum, antes de chegarem a novos endereços.
Os pesquisadores explicaram que esse tipo de operação pode dificultar o rastreamento tradicional de dinheiro, pois não envolve necessariamente uma bolsa centralizada, mas sim sistemas automatizados que permitem a movimentação de ativos entre diferentes blockchains.
Além de congelar as contas, o juiz ordenou que as plataformas envolvidas entregassem informações sobre os proprietários das carteiras sob investigação.
O pedido inclui registros de abertura de conta, documentação de identificação do cliente (KYC), conexões IP, transações realizadas, operações de compra e venda de criptomoedas, contas bancárias associadas e todas as transações vinculadas aos endereços indicados no arquivo.
A medida afeta contas hospedadas na Binance, Bybit, OKX, CoinEx, FixedFloat e Bitfinex, que devem fornecer as informações solicitadas por meio do Departamento Técnico de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal Argentina.
Na decisão, o magistrado considerou que as condições eram adequadas para prosseguir com a medida cautelar devido ao risco de os fundos continuarem a ser transferidos e dificultarem a sua eventual recuperação.
A investigação sobre o lançamento da Libra
O caso investiga o lançamento do token $Libra, promovido por Javier Milei em 14 de fevereiro de 2025 por meio de uma publicação em sua conta oficial no Google, onde apresentou o projeto como uma iniciativa destinada a financiar empreendimentos argentinos.
Após essa mensagem, o valor do ativo digital disparou, chegando a quase US$ 5. No entanto, apenas algumas horas depois, despencou após alguns dos principais detentores do token o venderem, de acordo com a hipótese em investigação.
Segundo as denúncias incluídas no processo, essa manobra teria causado prejuízos a mais de 40 mil pessoas que compraram a criptomoeda após o anúncio presidencial. Os tribunais buscam determinar se houve coordenação prévia entre os diversos atores envolvidos no lançamento do ativo e reconstruir o fluxo de fundos para apurar quem participou das transações e qual foi o destino final dos criptoativos.
Claudio Della Croce. Economista e professor argentino, pesquisador associado do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE, www.estrategia.la )
Fonte: https://estrategia.la/2026/07/14/la-criptoestafa-libra-de-javier-milei/
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