O fato de Benjamin ter se tornado marxista e admirador dos surrealistas quase simultaneamente é digno de nota. Trata-se de aspecto bastante revelador do caráter singular de seu marxismo, tanto quanto das críticas e das incompreensões de que seria objeto. Além de libertário e messiânico, seria um marxismo na contramão da confiança no progresso da razão – que lhe é geralmente associada. Para Benjamin, assim como para os surrealistas, a razão e o progresso não somente não levam, de modo inevitável, ao paraíso socialista, como, ao contrário, podem empurrar a humanidade na direção das guerras, violências e catástrofes.
A única maneira de fazer frente a essa situação não é, portanto, o resgate da razão aviltada pela burguesia decadente, como Lukács proporia notadamente a partir dos anos 1930, mas a subversão da racionalidade de um progresso cuja concretização intensifica, em vez de aliviar ou superar, as contradições do capitalismo. No ensaio de 1929 em que qualifica o surrealismo como “o último instantâneo da intelligentsia europeia”, o reparo mais significativo feito por Benjamin, aqui mencionado de passagem, refere-se ao menosprezo do movimento pela “disciplina revolucionária”, necessária para transformar a revolta em revolução, a imaginação em realidade – ou, como ele diria no projeto das Passagens (“Paris, capital do século XIX”), para “despertar” os oprimidos do pesadelo da história. Assim como fizera Naville no ensaio sobre a “revolução e os intelectuais”, Benjamin advoga a necessidade de o pessimismo ser transformado em pessimismo revolucionário, quer dizer, “organizado”.
Para alcançar tal objetivo, “não basta que todo ato revolucionário comporte, como sabemos, uma parte de embriaguez. Esta se confunde com o componente anarquista. Mas insistir nisso de maneira exclusiva seria negligenciar inteiramente a preparação metódica e disciplinar da revolução em benefício de uma prática que oscila entre o exercício e a celebração antecipada. Ao que se soma uma concepção muito estreita, não dialética, da natureza da embriaguez”.1
O interesse de Benjamin no estado de “embriaguez”, assim como sua paixão por Baudelaire e seus Paraísos artificiais, levou-o a fazer experimentos com ópio, mescalina e, sobretudo, haxixe entre 1927 e 1934. Seu objetivo, como chegou a anunciar a Gershom Scholem, era escrever “um livro muito interessante sobre o haxixe”, projeto que, nem é preciso dizer, não foi adiante2. Apenas em 1972 as notas e os textos preparatórios foram publicados em livro na Alemanha3. Em vida, Benjamin publicou somente o fragmento “Haxixe em Marselha”. Algumas das sessões com a substância foram realizadas na companhia de Ernst Bloch e de médicos amigos como Ernest Joel e Fritz Frankel. Em Marselha, Benjamin relata a “felicidade profunda” sentida em suas deambulações pela cidade. A euforia aguçava sua percepção do tempo e do espaço, e era como se com isso alcançasse a “iluminação profana” suscitada pelos surrealistas. Em suas palavras, “as pretensões espaciais e temporais típicas do comedor de haxixe […] são absolutamente próprias de um rei. Para quem comeu haxixe, Versalhes não é suficientemente grande, nem a eternidade suficientemente longa”4.
É compreensível, portanto, a perplexidade que o marxismo de Benjamin causou entre seus contemporâneos, incluindo aí os próprios marxistas. À parte do exagero de quem não se identificava com essa tradição política, Hannah Arendt não deixou de captar uma sensação mais ou menos comum quando afirmou que “Benjamin foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que, sabe Deus, teve seu quinhão completo de excentricidades”. De fato, é difícil encontrar na história dos marxismos, no plural, um autor tão inclassificável, tão ambivalente na sua incorporação da obra de Marx e de outros marxistas, como Benjamin. Marxista e messiânico? Defensor do “machado afiado da razão” à procura do “maravilhoso no cotidiano”? Dialético fascinado pela imagem/imaginação e que se desinteressa da tarefa de buscar a essência por trás da aparência?
Há certo consenso, assim, sobre como a incorporação do marxismo provocou mudanças significativas no pensamento de Benjamin. A controvérsia gira em torno das avaliações distintas sobre os rumos tomados pelo autor após essa inflexão, tanto entre seus contemporâneos quanto na recepção posterior à sua morte. Enquanto alguns, na linha de Scholem, idealizam o jovem Benjamin anarquista/teológico, aquele de antes da deturpação marxista, seus leitores marxistas não raro simplesmente desconsideram essa fase inicial, vendo ali não mais que a confusão de um autor ainda à procura de um norte adequado, o que viria a ocorrer a partir de 1924.
Assim, cada um enxerga seu próprio Benjamin, operação facilitada pelo caráter fragmentado da obra do crítico alemão, como se cada texto ou “imagem de pensamento” pudesse levar a caminhos infinitos – não raro em sentido contrário aos de outros manuscritos do autor. O resultado é que, no fim das contas, observa-se pouca disposição entre seus interlocutores contemporâneos, a despeito das diferenças interpretativas, em buscar os possíveis nexos que entrelaçam os distintos momentos da trajetória e da reflexão intelectual de Benjamin, movimento que – com algumas exceções, como a de Michael Löwy – é reproduzido nas principais vertentes interpretativas que marcaram a recepção de sua obra.
Talvez o mais importante, aqui, seja o dimensionamento das rupturas e das continuidades resultantes da virada marxista de Benjamin. Mais que escolher o “jovem” em detrimento do “velho” Benjamin, ou vice-versa – como amiúde se faz também com Lukács, com a diferença de que o corte estabelecido é entre duas interpretações do marxismo, entre História e consciência de classe e os ensaios redigidos a partir do fim dos anos 1920 –, trata-se de verificar se e em que medida as inspirações teóricas e políticas do Benjamin “pré-marxista”, por assim dizer, continuam presentes no Benjamin “marxista”. E, além disso, se e como elas foram reformuladas após a incorporação do marxismo.
Notas
- Walter Benjamin, “Le Surréalisme: le dernier instantané de l’intelligentsia européenne”, em Œuvres II (trad. Maurice de Gandillac, Rainer Rochlitz e Pierre Rusch, Paris, Gallimard, 2000), p. 130. ↩︎
- Carta de Walter Benjamin a Gershom Scholem, Nice (França), 26 jul. 1932, em Correspondência (trad. Geraldo de Souza, Natan Norbert e Jacó Guinsburg, São Paulo, Perspectiva, 1993), p. 27. ↩︎
- Ver Walter Benjamin, Über Haschisch Novellistisches, Berichte, Materialien (Frankfurt, Suhrkamp Taschenbuch, 1972). ↩︎
- Walter Benjamin, “Haxixe em Marselha”, em Rua de mão única (trad. Rubens Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa, São Paulo, Brasiliense, 2000, série Obras Escolhidas, v. II), p. 249. ↩︎
- Idem, “Infância em Berlim por volta de 1900”, em Rua de mão única, cit., p. 73. ↩︎
- Ibidem, p. 9. ↩︎

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