A esquerda não pode vencer sem uma perspectiva internacionalista.

O objetivo da esquerda não é simplesmente redistribuir a riqueza ou combater a discriminação racial dentro do próprio país, mas abolir todas as formas de opressão e dominação em todos os lugares. Por definição, a emancipação universal deve ser global, ou não o será. (Yuri Cortez / AFP via Getty Images)

TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ

O entusiasmo pela globalização que prevaleceu no início dos anos 2000 deu lugar a uma intensa preocupação com as fronteiras nacionais e a competição entre os Estados. Mas a esquerda não pode se dar ao luxo de abandonar sua própria forma de internacionalismo, baseada na ideia da emancipação universal da humanidade.

Agora que estamos entrando em uma nova era de guerras imperialistas, o internacionalismo volta a ocupar o centro do palco na agenda da esquerda. Mas o que é internacionalismo? E por que ele importa?

A preocupação da esquerda com o "internacionalismo" decorre do fato de que seu projeto político sempre esteve ligado, de uma forma ou de outra, ao que poderia ser chamado de "emancipação universal". Emancipar significa libertar alguém ou algo de uma relação de poder, e emancipação universal designa a libertação de todas as pessoas de todas as formas de dominação.

Em outras palavras, o objetivo da esquerda não é simplesmente redistribuir riqueza, expandir os serviços públicos ou acabar com a discriminação racial dentro de um próprio país, mas abolir todas as formas de opressão e dominação em todos os lugares. Por definição, a emancipação universal deve ser global, ou não existirá.

Um mundo de estados

Mas o mundo não é um espaço único, homogêneo e uniforme. Os povos do planeta não estão sujeitos a uma única autoridade administrativa, um único sistema jurídico ou uma única força policial. Tampouco são governados por uma classe indiferenciada de líderes.

O planeta está dividido em múltiplas unidades políticas distintas, a maioria das quais assume a forma de Estados-nação. São precisamente esses Estados-nação independentes que hoje detêm a principal responsabilidade pela manutenção das relações de dominação. Isso não significa que o Estado seja a única fonte de dominação, mas sim que os Estados constituem o principal instrumento para a preservação dessa ordem desigual.

Seja lutando contra o racismo, o patriarcado ou o capitalismo, mais cedo ou mais tarde será necessário confrontar as leis, a polícia, os tribunais e as prisões do Estado. Como o poder estatal está distribuído entre inúmeros Estados-nação, a luta pela emancipação assume necessariamente a forma de uma multiplicidade de batalhas travadas dentro e contra cada um deles.

Essa é uma das razões pelas quais a esquerda historicamente preferiu falar em "internacionalismo" em vez de, por exemplo, "cosmopolitismo". O termo serve como um lembrete de que a aspiração de transformar o mundo deve começar com uma realidade inescapável: as principais unidades políticas da ordem vigente continuam sendo os Estados-nação. Mesmo no mundo supostamente globalizado de hoje, povoado por ONGs, alianças militares, corporações transnacionais e instituições internacionais, o caminho para uma perspectiva global envolve necessariamente um confronto com o Estado-nação.

O internacionalismo não é um imperativo moral para ajudar os necessitados, nem uma estratégia pré-fabricada para libertar o mundo. Em vez disso, designa o amplo conjunto de problemas políticos que surgem da tensão entre a necessidade de transformar o mundo em escala global e a obrigação estratégica de reconhecer os Estados-nação como as principais arenas dessa luta.

Travessia de fronteira

Nenhum Estado-nação jamais governou uma população homogênea. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que, historicamente, os Estados foram impostos a populações que já eram heterogêneas. Não foram essas pessoas que migraram para os novos Estados-nação; foram as fronteiras recém-traçadas desses Estados que as "cruzaram".

É por isso que os Estados-nação nunca podem ser hermeticamente fechados. Milhões de pessoas cruzam regularmente suas fronteiras, e muitos países acolhem imigrantes de outros Estados. Isso reforça a heterogeneidade inerente a cada Estado-nação. De fato, existem muitos países cuja população é composta em grande parte por pessoas cujos ancestrais nasceram em outras partes do mundo.

Dado que cada Estado abriga uma população diversa, qualquer progresso emancipatório significativo depende de encontrar maneiras de unir em uma luta comum pessoas nascidas em diferentes Estados-nação, que falam línguas diferentes, vivem em lugares diferentes, fazem parte de comunidades diversas e se preocupam com questões diferentes.

Contudo, o bloco governante em cada país procura impedir que essa unidade se forme. A divisão é um dos principais mecanismos pelos quais as classes dominantes preservam o seu poder, e a forma mais eficaz de a criar é mobilizando categorias políticas construídas — como raça, nacionalidade ou, sobretudo, cidadania — para transformar diferenças reais em divisões aparentemente intransponíveis.

Hoje, os blocos governantes tentam neutralizar o descontentamento popular canalizando a raiva política para o nativismo xenófobo. Essa estratégia pode até mesmo colocar imigrantes uns contra os outros, inclusive aqueles do mesmo país. Os Estados Unidos são provavelmente o exemplo mais óbvio, embora não seja o único.

Nesse sentido, pode-se dizer que o internacionalismo começa dentro do próprio Estado-nação. Cada Estado governa uma população heterogênea e codifica legalmente essas diferenças como diferenças de nacionalidade. Uma vez que essas divisões "nacionais" são usadas para colocar pessoas umas contra as outras que vivem juntas em um Estado essencialmente "multinacional", toda prática política efetiva dentro do Estado-nação já possui uma dimensão internacional.

Soluções globais

Além de dificultar a construção da unidade dentro de cada Estado-nação, a divisão do mundo em fronteiras nacionais, identidades nacionais e Estados-nação torna muito mais difícil organizar um movimento unificado além-fronteiras. Embora essas divisões não tornem todos xenófobos, elas tendem a restringir o horizonte político e a incentivar as pessoas a priorizar questões nacionais em detrimento das internacionais.

Isso é especialmente evidente no coração de potências imperialistas relativamente isoladas, como os Estados Unidos, onde o sistema político é projetado para fomentar uma cultura de individualismo extremo. Quando as pessoas nesses países se politizam, geralmente é — embora certamente nem sempre — porque eventos dentro de seu próprio Estado afetaram diretamente suas vidas: o preço da gasolina sobe, os alimentos ficam mais caros, os empregadores monitoram suas redes sociais, enchentes sem precedentes danificam suas casas ou a polícia de imigração realiza batidas em seus bairros.

Todas essas são razões perfeitamente legítimas para abraçar a política de esquerda, e estão profundamente interligadas com os processos globais. No entanto, essa dimensão internacional é frequentemente obscurecida de forma deliberada. O desafio reside em estabelecer essas conexões.

Aqueles que lutam pela emancipação devem demonstrar que os problemas locais têm raízes globais e, portanto, só podem ser resolvidos nessa mesma escala. Devem convencer as pessoas de que o que acontece em outros países também afeta suas vidas e que seu destino está ligado ao de milhões de pessoas que jamais conhecerão.

Rivalidades entre Estados

Embora praticamente todos os blocos dominantes atuais estejam empenhados em impedir um futuro sem dominação, e embora frequentemente coordenem seus esforços para conter os movimentos emancipatórios, isso não significa que mantenham relações harmoniosas entre si. Uma das funções da aliança imperial liderada pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial era justamente disciplinar esses grupos perpetuamente em conflito, para que pudessem conter com mais eficácia a ameaça comum dos movimentos emancipatórios. Hoje, essa aliança está se fragmentando, e as guerras entre blocos dominantes rivais estão se tornando cada vez mais frequentes.

Ao mesmo tempo, existem Estados que, apesar de serem capitalistas, patriarcais, desiguais e, em alguns casos, autoritários, opõem-se aos Estados Unidos e à aliança imperial que lideram. Isso representa um dilema para aqueles que aspiram à emancipação universal. Por um lado, acabar com todas as formas de dominação exige também a derrubada desses Estados desiguais, mesmo que rejeitem a hegemonia imperial estadunidense. Por outro lado, os Estados Unidos continuam sendo a principal ameaça aos movimentos emancipatórios em todo o mundo.

Embora a esquerda esteja atualmente muito fraca para intervir decisivamente nessas rivalidades interestatais, seus compromissos internacionalistas levantam uma série de questões difíceis. Apoiar levantes populares contra Estados em conflito com os Estados Unidos não estaria, inadvertidamente, fornecendo um pretexto para a intervenção de Washington? A necessidade de confrontar o inimigo comum do imperialismo estadunidense não estaria, em última análise, fortalecendo esses regimes profundamente desiguais e antiamericanos? Existe um caminho diferente a seguir?

O problema do internacionalismo

O Estado-nação é incompatível com a emancipação. Sua função primordial é preservar uma ordem social desigual, mantendo o bloco dominante, absorvendo desafios internos, reprimindo lutas de libertação, dividindo a população e fechando espaços para experimentação política. Qualquer pessoa que aspire à emancipação deve, portanto, encontrar uma maneira de transcender o Estado-nação.

O internacionalismo aponta, em última análise, para o problema estratégico fundamental de toda política emancipadora contemporânea. Como resume Richard Seymour, a emancipação universal exige a superação do Estado, mas a divisão do mundo em Estados-nação soberanos nos obriga, de um ponto de vista estratégico, a considerar esses mesmos Estados como o principal campo de batalha.

SALAR MOHANDESI
Professor Associado de História no Bowdoin College.

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários