
Segundo Margaret Thatcher, sua maior conquista foi Tony Blair e o Novo Trabalhismo. Mensagem para a Argentina (The Economist Horsefly)
Margaret Thatcher, em uma de suas confissões mais cínicas e reveladoras, declarou que seu maior triunfo político não havia sido derrotar os sindicatos ou privatizar a indústria britânica. Sua maior conquista, disse ela, foi Tony Blair e o Novo Trabalhismo. A Dama de Ferro compreendeu algo que as elites sul-americanas ainda não entendem: a destruição mais perfeita não é aquela que elimina o adversário, mas aquela que força o sucessor a governar sobre as ruínas com as regras impostas pelo destruidor. Essa é a mensagem que a história envia à Argentina hoje.
A tensão entre Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva levou a relação bilateral ao seu ponto mais delicado em quatro décadas. Mas o verdadeiro terremoto não está nas ofensas diplomáticas ou nas cúpulas do Mercosul, onde um lado ignora o outro. O terremoto reside no que está se desfazendo sob a superfície: as cadeias produtivas, a infraestrutura tecnológica, a confiança institucional e, sobretudo, a própria possibilidade de um projeto de desenvolvimento compartilhado.
E isso, ao contrário dos governos, não pode ser alterado por decreto. O Brasil continua sendo o principal parceiro comercial da Argentina, com um volume de negócios superior a US$ 31 bilhões em 2025. Mas esse número aparentemente sólido mascara uma hemorragia estrutural: Buenos Aires sofre com um déficit comercial crônico, exportando matérias-primas e importando produtos manufaturados, e a diferença aumenta a cada trimestre. A pergunta que ninguém na Casa Rosada quer fazer não é quanto comércio resta, mas quanto restará quando o vidro se estilhaçar completamente.
Comecemos pela conclusão. Se um governo pragmático — de direita, de centro ou aquele híbrido camuflado que os argentinos conhecem tão bem, o "blairismo", que promete reconstruir tudo do zero sem admitir o que ou quem causou a crise — assumir o poder na Argentina em 2027, descobrirá que a integração com o Brasil nunca mais será a mesma. Os danos estruturais são, em grande parte, irreversíveis. As cadeias de valor são como vidro: uma vez quebradas, não podem ser consertadas. Se uma fábrica de automóveis fechar sua unidade em Córdoba e se mudar para o Brasil, México ou Índia, não retornará quando o ciclo político mudar.
A dependência da trajetória — esse conceito que os economistas chamam de dependência da trajetória — terá ditado que o Brasil absorva essa capacidade instalada para sempre. Nenhum decreto, nenhum subsídio, nenhum discurso de posse pode reverter uma decisão corporativa de tal magnitude. E aqui surge o paradoxo thatcherista: a maior “conquista” do governo Milenio não será ter derrotado o kirchnerismo. Será ter transformado o próximo governo, quaisquer que sejam suas inclinações políticas, em um administrador da desindustrialização. Um Blair sobre as ruínas de outro.
A tragédia da atual política externa argentina reside na troca de ativos estratégicos — soberania tecnológica, integração industrial, liderança regional — por promessas ideológicas de Washington que não se traduzem em investimento estrangeiro direto real. Mas seria um erro chamar isso de "erro". Trata-se de uma escolha. A elite econômica argentina não é industrial como a burguesia paulista. Ela é voltada para o setor financeiro, agroexportador e, mais recentemente, para os setores de energia e mineração. Para o capital rentista argentino, a indústria manufatureira é um problema: demanda dólares para importar insumos, requer proteção tarifária, gera pressão sindical e — pior ainda — força a concorrência.
O cerne da acumulação de riqueza não reside mais nas fábricas de Rosário ou Córdoba, mas sim na extração de recursos naturais e na valorização de ativos financeiros offshore . A desindustrialização não é um dano colateral para essa elite. É uma condição necessária para disciplinar o mercado interno e manter a rentabilidade das commodities . Não lhes incomoda que a indústria exporte mão de obra para o Brasil porque, em seus cálculos, essa mão de obra nunca foi lucrativa.
Os números confirmam isso com uma crueldade quase obscena: no primeiro semestre de 2026, o Brasil foi o principal destino dos produtos manufaturados argentinos, com US$ 4,004 bilhões, representando 30% de todas as exportações industriais do país. O setor automotivo é o mais sensível: 53% do que a Argentina exporta para o Brasil são carros e autopeças, enquanto as importações automotivas do Brasil representam 26% do total comprado, cerca de US$ 1,94 bilhão. Em outras palavras, a Argentina ainda exporta mão de obra industrial para o Brasil. Mas cada fábrica que fecha, cada fabricante de autopeças que encerra suas atividades, torna esse número mais fictício, mais emprestado, mais próximo de zero.
Eis aqui um dos maiores silêncios analíticos do continente. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) não está apenas perdendo seu mercado cativo na Argentina devido às políticas de austeridade de Milei. Ela está sendo dizimada pela China. O Brasil vende commodities para Pequim — soja, minério de ferro, petróleo bruto — e compra bens manufaturados de alta tecnologia: veículos elétricos BYD, painéis solares, máquinas pesadas, infraestrutura 5G. O resultado é um superávit macroeconômico na balança comercial que beneficia o agronegócio, mas uma destruição silenciosa do tecido industrial paulista, que a FIESP denuncia sem que ninguém a ouça.
A Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) comemora vendas recordes para Pequim. Enquanto isso, a Federação Brasileira das Indústrias (FIESP) vê seus setores — têxtil, autopeças e eletrodomésticos — serem varridos pela concorrência asiática. E em meio a tudo isso, a Argentina, historicamente o pilar da indústria brasileira, afunda em uma recessão que destrói a demanda. A integração com a Argentina torna-se irrelevante quando a China oferece um mercado de 1,4 bilhão de consumidores. E esse é o cálculo que a elite industrial brasileira já fez discretamente.
Há um ator que não aparece nos discursos de Milei ou Lula, mas que controla o verdadeiro fluxo de riqueza no Cone Sul: o oligopólio do agronegócio. Os terminais portuários de Puerto General San Martín e Timbúes, na Grande Rosário, são controlados pela Cargill, COFCO e Bunge. No Brasil, essas mesmas empresas — juntamente com a suíça Glencore — operam os terminais do Arco Norte, em Barcarena e Santarém, e o porto de Santos.
Essas são as infames corporações ABCD — ADM, Bunge, Cargill, Dreyfus — mais a empresa chinesa COFCO: cinco ou seis mesas de operações em Chicago, Genebra e Pequim que definem preços, logística e destinos para 80% dos grãos exportados da América do Sul. Para essas corporações, a fronteira entre Argentina e Brasil é uma ficção jurídica. Se a Argentina exporta menos, a Bunge ou a COFCO simplesmente redirecionam o comércio brasileiro de soja por Santos ou Itacoatiara. A crise de um país é irrelevante; o fluxo de capital não para. A ABAG brasileira e a Sociedade Rural argentina competem por terras, sim. Mas o verdadeiro poder — o poder de definir preços, decidir rotas logísticas e capturar margens de lucro — reside nas mesmas cinco empresas de sempre. A Hidrovia Paraná-Paraguai, por onde passam 80% das exportações argentinas, não é um projeto binacional. É uma rodovia corporativa que cruza dois países sem pedir permissão.
A Guerra Fria tecnológica chegou ao Cone Sul, e chegou com siglas. Em dezembro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA lançou a Pax Silica, uma rede de "parceiros de confiança" para garantir o fornecimento de minerais críticos, elementos de terras raras, lítio, cobre, semicondutores e centros de dados. Argentina e Chile aderiram em 2026 como os primeiros países sul-americanos, entrando como fornecedores de recursos e território, sem acesso às camadas de projeto de modelos, fabricação de chips ou soberania de dados.
Seis meses depois, em julho de 2026, a China lançou a Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO) em Xangai, assinada por 29 países, incluindo o Brasil. A WAICO é concebida como uma organização intergovernamental aberta, com foco em governança compartilhada, padrões técnicos, redução da lacuna com o Sul Global e sustentabilidade energética. A diferença não é retórica. É estrutural. A Pax Silica posiciona a Argentina como um terreno fértil para o complexo militar-tecnológico dos EUA: exporta átomos, importa regras. A WAICO posiciona o Brasil como o arquiteto de uma governança digital alternativa: exporta padrões, importa soberania.
A disputa se sobrepõe à competição por minerais críticos — a Argentina oferece lítio e cobre; o Brasil, ferro, cobre e capacidade industrial — e determinará quem ditará as regras do século XXI na América do Sul. Se a Argentina mantiver a arquitetura tecnológica exigida por Washington, ficará tecnicamente isolada do Brasil e do continente. O Brasil, como membro fundador da WAICO e parceiro da Huawei, desenvolverá redes 6G, inteligência artificial de código aberto e sistemas de pagamento digital sob padrões chineses. Não haverá roaming tecnológico . Redes inteligentes, os sistemas logísticos da Hidrovia Paraná-Paraguai e as redes financeiras deixarão de ser interoperáveis. A Argentina será uma ilha digital ocidental em um oceano tecnológico de origem asiática.
A Nova Rota da Seda: a China não precisa mais da Argentina industrial. Sua estratégia é consolidar o Corredor Bioceânico Central, conectando o porto de Santos (Brasil) ao Oceano Pacífico através do Paraguai, norte da Argentina e norte do Chile. O objetivo? Extrair lítio dos salares, cobre andino e soja do Mato Grosso/Paraguai diretamente para Xangai, contornando os entraves políticos de Buenos Aires. Nesse cenário, e com o projeto do Corredor Ferroviário Bioceânico buscando ligar a costa atlântica do Brasil ao Megaporto de Chancay, na costa do Pacífico do Peru, o Brasil se torna o centro logístico chinês no Atlântico Sul, e a indústria argentina fica como um vazio geográfico que a China simplesmente "contorna" pelo norte.
Nesse cenário, e caso Lula consolide seu projeto em 2026, o Brasil tratará a Argentina não como um parceiro em pé de igualdade, mas como um fornecedor sazonal de gás barato para seu território meridional. A integração energética, que no passado foi a força motriz da aliança bilateral, se tornará uma transação assimétrica e impessoal, na qual o Brasil ditará os preços, aproveitando-se das práticas de busca de privilégios das elites que controlam Vaca Muerta e da necessidade premente do governo por moeda estrangeira para pagar sua dívida.
O cenário pós-Milei não será uma reinvenção do Mercosul. Será sua mutação em uma simples zona de livre comércio, onde cada país negociará separadamente com terceiros. A política tarifária comum estará extinta. A relação bilateral deixará de ser uma aliança estratégica para se tornar uma mera transação comercial. O Brasil comprará gás de Vaca Muerta e lítio bruto da Argentina para suas próprias fábricas de baterias, mas não haverá transferência de tecnologia nem desenvolvimento conjunto.
A estratégia de Lula para um possível segundo mandato é clara: liderança multipolar, fortalecimento do Mercosul como plataforma para negociação coletiva, aprofundamento das alianças com o Sul Global — BRICS, CELAC —, aceleração de um acordo comercial Mercosul-China e reforma das instituições multilaterais. Sem um Mercosul forte, o Brasil perde seu poder de negociação coletiva. E sem o Brasil liderando o processo, a região fica à mercê de potências externas. Enquanto isso, a Argentina negocia bilateralmente com Washington, minando a tarifa externa comum e enfraquecendo a união aduaneira. É o equivalente geopolítico a queimar a ponte estando em cima dela.
Se Donald Trump perder pelo menos uma das casas do Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026 — o cenário mais provável, segundo todas as pesquisas — sua capacidade de sustentar a arquitetura hemisférica de que Milei precisa se dissipará. Sem acesso facilitado a acordos comerciais, mas com margem de manobra política para a Pax Silica, e talvez sem a margem de manobra política para pressionar o FMI, Washington se voltará para dentro. A combinação de um Trump em fim de mandato, um Brasil consolidado dentro da multipolaridade dos BRICS e da WAICO, e uma Argentina recessiva e desindustrializada compõe o quadro final: os Estados Unidos podem perder sua capacidade de ditar a política externa da América do Sul.
O continente deixou de ser o quintal da elite mundial; tornou-se um tabuleiro de xadrez multipolar onde cada país negocia em bases transacionais. E a Argentina, carente de indústria, de um mercado regional e de um influente patrono no Congresso, será reduzida à irrelevância diplomática. Sua única moeda de troca será a venda de seus recursos naturais por dinheiro vivo ao maior lance, sem a possibilidade de exigir transferência de tecnologia. Isso será para a alegria das elites locais, que embolsarão os dólares.
Margaret Thatcher compreendeu que a vitória final não se trata de destruir o adversário. Trata-se de fazer com que quem vier depois governe segundo as suas regras. Tony Blair não reverteu as privatizações; ele as geriu. Ele não reconstruiu a indústria britânica; ele lidou com a sua ausência com um sorriso e um discurso moderno. Esse é o futuro que está sendo escrito para a Argentina.
O próximo governo — pragmático, moderado, blairista — não reconstruirá a integração com o Brasil. Administrará sua ausência. Não revitalizará a indústria. Administrará as exportações de matérias-primas com retórica progressista. Não desafiará o oligopólio ABCD+C. Negociará margens melhores para as mesmas cinco empresas de sempre. A fratura no Cone Sul não é uma fenda que se fechará. É uma nova geografia. E nessa nova geografia, a Argentina não é mais uma parceira. É um território extrativista com sua própria bandeira.
Thatcher ficaria orgulhosa.
Fonte: https://eltabanoeconomista.wordpress.com/2026/08/19/la-fractura-del-cono-sur/
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