A sociedade converteu o sofrimento coletivo em falha individual, a competição em religião e o valor humano em produtividade – e a grande tarefa do nosso tempo é recuperar a solidariedade como antídoto
1.
Vivemos em uma época estranha. Nunca houve tantos discursos sobre liberdade e, ao mesmo tempo, tantas formas de aprisionamento. Nunca se falou tanto em autonomia individual, realização pessoal, empreendedorismo e felicidade, enquanto milhões de pessoas carregam silenciosamente um profundo sentimento de insuficiência. Somos constantemente informados de que vivemos em uma sociedade aberta, democrática e cheia de oportunidades.
Dizem-nos que qualquer pessoa pode alcançar seus sonhos se trabalhar o suficiente. Também que o conhecimento liberta, que o mercado recompensa o mérito e que o progresso tecnológico tornará a vida melhor para todos. No entanto, basta olhar ao redor para perceber que existe algo profundamente contraditório nessa narrativa.
Há uma sensação difusa de cansaço que atravessa a sociedade contemporânea. Um esgotamento que não se limita ao corpo, mas alcança a alma. Muitas pessoas despertam todos os dias com a impressão de estar correndo atrás de algo que nunca conseguem alcançar. Trabalham mais, estudam mais, produzem mais, consomem mais e, ainda assim, sentem-se cada vez mais vazias. Como se existisse uma dívida invisível que jamais pode ser quitada. Como se a vida inteira fosse uma corrida sem linha de chegada.
Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja a naturalização desse sofrimento. Aprendemos a enxergá-lo como algo individual. Quando alguém está exausto, acredita-se que lhe falta disciplina. Quando alguém fracassa economicamente, supõe-se que não se esforçou o suficiente. Quando alguém perde a esperança, imagina-se que possui algum problema interno que precisa ser corrigido. Dessa forma, aquilo que muitas vezes é produzido socialmente transforma-se em responsabilidade exclusiva do indivíduo.
A sociedade contemporânea desenvolveu uma extraordinária capacidade de ocultar as origens coletivas do sofrimento. Em vez de perguntar por que tantas pessoas adoecem emocionalmente, pergunta-se por que elas não conseguem se adaptar. Em vez de questionar estruturas de exclusão, questionam-se as fragilidades das vítimas. Em vez de discutir as condições que produzem angústia, discute-se a capacidade individual de suportá-la.
Essa inversão é uma das marcas mais profundas do nosso tempo.
O sofrimento deixa de ser compreendido como resultado de relações sociais e passa a ser interpretado como falha pessoal. O indivíduo é convocado a resolver sozinho problemas que foram produzidos coletivamente. É obrigado a encontrar soluções privadas para contradições públicas. Carrega sobre os ombros pesos que pertencem a toda a sociedade.
2.
Nesse contexto, a busca pela autoestima converte-se em uma luta permanente. A pessoa é incentivada a construir uma imagem de sucesso constante. Precisa parecer feliz, produtiva, otimista e realizada. Não basta viver. É necessário demonstrar publicamente que se vive bem. Não basta trabalhar. É preciso transformar o trabalho em espetáculo. Não basta existir. É necessário provar diariamente o próprio valor.
As redes sociais aprofundaram esse processo de maneira radical. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão isolados. A vida passou a ser medida por indicadores de visibilidade. Curtidas, compartilhamentos, seguidores e comentários tornaram-se formas de reconhecimento social. A lógica do mercado penetrou na subjetividade humana. Cada pessoa transforma-se em uma pequena empresa responsável por administrar a própria imagem.
O problema não está apenas na exposição constante. O problema está na comparação permanente. Milhões de indivíduos observam diariamente versões editadas da vida dos outros. Vêem viagens, conquistas profissionais, corpos idealizados, relacionamentos felizes e sucessos aparentemente contínuos. O sofrimento permanece escondido. As dúvidas desaparecem. Os fracassos tornam-se invisíveis.
A consequência é devastadora. Muitas pessoas passam a acreditar que são inadequadas porque não conseguem corresponder aos padrões de felicidade que observam ao seu redor. Sentem-se fracassadas não porque fracassaram, mas porque foram convencidas de que todos os outros estão vencendo.
Essa lógica produz uma forma silenciosa de violência. Não se trata de uma violência física. Não deixa marcas visíveis. Não aparece nos jornais. Não provoca escândalos imediatos. Mas corrói lentamente a autoestima, a confiança e a esperança. Funciona como um processo de desgaste contínuo. Uma espécie de erosão da dignidade humana.
O racismo constitui uma das expressões mais cruéis dessa dinâmica. Durante muito tempo, acreditou-se que o racismo se manifestava apenas através de atos explícitos de discriminação. Entretanto, suas formas contemporâneas são frequentemente mais sutis e mais profundas. Elas operam através de expectativas desiguais, oportunidades limitadas, suspeitas permanentes e reconhecimentos seletivos.
O racismo não destrói apenas trajetórias econômicas. Ele atinge dimensões fundamentais da existência humana. Afeta a maneira como as pessoas são vistas, escutadas e valorizadas. Impõe obstáculos que permanecem invisíveis para aqueles que nunca precisaram enfrentá-los. Produz uma experiência cotidiana de desgaste que raramente aparece nas estatísticas.
Como um câncer social, infiltra-se em instituições, discursos e práticas aparentemente normais. Seu poder reside justamente em sua capacidade de se apresentar como natural. Quando a exclusão se transforma em rotina, deixa de ser percebida como violência. Quando a desigualdade se repete durante gerações, passa a ser confundida com destino.
3.
O resultado é uma sociedade que distribui sofrimento de maneira desigual enquanto mantém a aparência de neutralidade.
A universidade ocupa um lugar particularmente contraditório nesse cenário. Durante décadas, ela foi apresentada como espaço privilegiado de emancipação. O conhecimento aparecia como instrumento de liberdade. Estudar significava ampliar horizontes, questionar poderes estabelecidos e desenvolver consciência crítica.
Existe verdade nessa promessa. O conhecimento continua sendo uma das experiências mais transformadoras da condição humana. Ler, pesquisar e compreender o mundo ampliam possibilidades de existência. Contudo, seria ingênuo ignorar as tensões que atravessam as instituições acadêmicas contemporâneas.
Cada vez mais, a educação superior é pressionada por lógicas de mercado. Estudantes acumulam certificados, publicações e títulos em uma competição permanente por reconhecimento. A formação intelectual corre o risco de ser reduzida à produção de credenciais. O conhecimento deixa de ser buscado por seu valor intrínseco e passa a ser avaliado por sua utilidade econômica.
Muitos jovens ingressam na universidade acreditando que encontrarão liberdade. Descobrem novos conceitos, aprendem a questionar estruturas de poder e desenvolvem capacidade crítica. Porém, ao final da trajetória, frequentemente se deparam com um mercado que exige adaptação, conformidade e produtividade. A promessa de emancipação convive com mecanismos de subordinação.
A contradição é evidente. A instituição que promete libertar também prepara indivíduos para ocupar posições dentro de uma ordem já existente. O espaço que estimula a crítica muitas vezes é obrigado a responder às exigências da competitividade econômica. O conhecimento continua abrindo horizontes, mas nem sempre consegue transformar as estruturas que produzem desigualdade.
Essa situação revela uma característica central da sociedade contemporânea. Ela possui uma enorme capacidade de absorver críticas sem alterar seus fundamentos. Muitas formas de contestação acabam incorporadas ao próprio sistema que pretendiam questionar. Discursos de resistência transformam-se em mercadorias culturais. Ideias críticas convertem-se em produtos de consumo. A rebeldia torna-se estilo.
4.
Talvez por isso a dominação contemporânea raramente dependa da força direta. Ela opera através do desejo. As pessoas aprendem a desejar aquilo que as submete. Sonham com formas de vida que reproduzem sua própria exploração. Perseguem modelos de sucesso que frequentemente geram sofrimento.
Assim, o mais inquietante é que essa dinâmica não afeta apenas as condições materiais da existência. Ela alcança a própria percepção de valor pessoal. O indivíduo deixa de perguntar quem é para perguntar quanto vale. A identidade transforma-se em desempenho. A dignidade converte-se em produtividade.
Nesse contexto, fracassar economicamente passa a ser interpretado como fracasso moral. A pobreza deixa de ser compreendida como problema social e torna-se sinal de inadequação individual. O desemprego é tratado como insuficiência pessoal. A vulnerabilidade é confundida com incompetência.
Pouco a pouco, instala-se uma cultura da culpa. Uma cultura na qual as pessoas são responsabilizadas por problemas que não criaram. Uma cultura que exige felicidade permanente mesmo em contextos de precariedade. Uma cultura que transforma sofrimento em deficiência individual.
Talvez seja justamente aí que reside uma das maiores violências da vida contemporânea. Não na existência do sofrimento, mas na negação de suas causas sociais. A sociedade moderna tornou-se extremamente eficiente em produzir indivíduos cansados. Pessoas que trabalham muito, mas raramente sentem que fizeram o suficiente. Pessoas que alcançam objetivos importantes e, ainda assim, experimentam a sensação de fracasso. Pessoas que vivem cercadas por tecnologias de comunicação e permanecem profundamente solitárias.
Existe uma solidão característica do nosso tempo. Ela não nasce necessariamente da ausência de contato humano. Surge da dificuldade crescente de construir vínculos significativos. Surge da competição permanente. Surge da transformação de todas as relações em oportunidades de desempenho. Surge quando os indivíduos deixam de ser companheiros e passam a ser concorrentes.
5.
Quando tudo se transforma em competição, a solidariedade enfraquece. Quando tudo possui preço, o valor das coisas se torna difícil de reconhecer. Quando tudo precisa gerar resultados, a própria vida perde parte de seu significado.
Talvez o problema central não seja apenas econômico. Talvez seja civilizatório. Estamos diante de uma forma de organização social que produz riqueza material extraordinária e, simultaneamente, amplia experiências de vazio, ansiedade e desorientação. A abundância convive com a falta de sentido. O progresso tecnológico convive com o empobrecimento das relações humanas.
Isso não significa rejeitar a modernidade ou idealizar o passado. Significa reconhecer que nenhum modelo de desenvolvimento pode ser considerado bem-sucedido se destrói silenciosamente aqueles que deveria beneficiar.
Uma sociedade saudável não pode ser medida apenas por índices de crescimento econômico. Precisa ser avaliada também por sua capacidade de proteger a dignidade humana. Pela forma como trata os mais vulneráveis. Pela qualidade de seus vínculos coletivos. Pela possibilidade de oferecer reconhecimento, pertencimento e esperança.
Talvez a questão fundamental do século XXI não seja quanto produzimos, mas para quem produzimos e em que tipo de mundo desejamos viver.
Se continuarmos organizando a vida exclusivamente em torno da competição, da produtividade e do consumo, dificilmente escaparemos da expansão do sofrimento social. Continuaremos formando indivíduos cada vez mais eficientes e cada vez mais cansados. Cada vez mais conectados e cada vez mais solitários. Cada vez mais produtivos e cada vez mais vazios.
A grande tarefa do nosso tempo talvez consista em recuperar aquilo que foi gradualmente relegado ao segundo plano: a solidariedade, o cuidado, a empatia e o reconhecimento da vulnerabilidade humana.
Nenhuma sociedade pode sobreviver indefinidamente transformando pessoas em instrumentos. Nenhuma democracia pode permanecer saudável quando milhões de indivíduos sentem que seu valor depende exclusivamente de seu desempenho econômico. Nenhum projeto coletivo possui futuro quando a dignidade humana é subordinada à lógica da utilidade.
Por trás das promessas de sucesso, crescimento e progresso, existe uma pergunta que continua exigindo resposta: que tipo de vida estamos construindo?
A resposta a essa pergunta determinará não apenas o futuro das instituições, dos mercados ou das economias. Determinará, sobretudo, a capacidade de preservarmos aquilo que existe de mais importante em qualquer sociedade: a humanidade de seus próprios membros.
*Hilder Alberca Velasco é mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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