Apelo a um mestre da política

Roberto Requião - CRÉDITO: EDUARDO MATYSIAK/DIVULGAÇÃO


Roberto Requião destaca-se como um ou o mais completo homem público do Brasil. Três vezes governador e três vezes senador pelo Paraná, além de ex-prefeito de Curitiba, é um exemplo de integridade moral num cenário nacional caracterizado pela corrupção e degradação generalizadas das instituições públicas e privadas. Candidato a deputado federal, por falta de recursos para enfrentar concorrentes financeiros mais poderosos que dificultariam seu acesso a uma quarta vaga no Senado, manteve-se na disputa pela Câmara principalmente para ajudar seu filho, Maurício, na disputa pelo governo do Estado, mantendo uma tradição familiar sem máculas.

Tenho tentado insistentemente fazer uma entrevista com Requião nos últimos dias, mas suas tarefas de campanha não nos permitiram uma conversa mais longa. Por isso, decidi reunir partes fragmentadas de rápidos diálogos telefônicos para tentar reconstituir o que ele, a meu ver, está pensando sobre os rumos da política atual e as perspectivas do País. Em primeiro lugar, o ex-governador e senador não esconde suas avaliações. Por exemplo, não obstante a bem definida opção pela candidatura Lula, ele tem objeções claras à política de privatizações dele. Acha que, em vez de privatizar, o Presidente deveria estar reestatizando empresas, sobretudo as de serviços públicos.

O caso da Eletrobras é típico. A privatização da Eletrobras foi um desastre para o Brasil, cujo fornecimento de energia residencial e para a indústria tornou-se um dos mais elevados do mundo, tornando-se um peso para os consumidores e um fator de redução de competitividade para a indústria. O pior é o que se planeja para o futuro. O plano de expansão da indústria elétrica, não obstante o País desfrutar de todas as fontes energéticas limpas, prevê a construção de várias termelétricas a gás em lugares remotos do território nacional, onde não há gás – o que significa a indispensável construção de gasodutos caríssimos no futuro.

Requião ficou contra a privatização para multinacionais estrangeiras gigantes, como a Cargill, do porto de Paranaguá, que dificulta o acesso ao comércio marítimo dos pequenos e médios produtores paranaenses. Ele critica também a privatização de rodovias, que aumenta o custo de circulação da riqueza, assim como das pessoas. A seu ver, o Governo brasileiro deveria estar fazendo o que fazem alguns países europeus, inclusive as capitais Berlim e Paris, que estão reestatizando serviços públicos básicos em razão da ineficiência ou do alto custo dos serviços privados.

Tenho um tema que tenho discutido com o ex-governador no qual divergimos na margem – divergência que se deve exclusivamente ao fato de que não conversamos o suficiente a respeito dele. Quando governador, Requião fez uma revolução agrícola no Paraná a partir de um forte apoio a pequenos e médios produtores. Graças a ele, o Estado se tornou um campeão no desenvolvimento de cooperativas. Entretanto, para seu desgosto, algumas dessas cooperativas se tornaram empreendimentos gigantes que acabaram apropriados por oportunistas que tomavam seu controle, descartando os pequenos e médios produtores.

Diante disso, ele não está convencido de que procede minha tese a favor dos Arranjos Produtivos Locais e Territoriais, muito semelhantes a cooperativas. Enquanto penso que este deve ser o principal instrumento que o Brasil precisa mobilizar contra a explosão do desemprego que está associado ao avanço acelerado da tecnologia (automação, robotização, inteligência artificial, etc.), Requião teme que os Arranjos tenham o mesmo destino das cooperativas que ajudou a fundar, transformando-se em empreendimentos associativos, porém com donos.

Meu contra-argumento é que há um eficaz antídoto para isso: na organização do Arranjo Produtivo como Sociedade Anônima, deve ser destacada uma ação de prata para seu controle, prevista nos estatutos, com a aprovação da Assembleia Geral. Esta ação de prata não poderia ser negociada pelos participantes do empreendimento. Com isso, a característica principal do Arranjo, o trabalho sem dono, seria preservada em qualquer circunstância contra eventuais predadores que resistissem à mudança da era capitalista para o social-trabalhismo, como defendo. Esta é a sociedade que vislumbro na medida do estreitamento do mercado de trabalho por força da aceleração do progresso tecnológico, e da expansão da nova forma de trabalhar em termos cooperativos, ocupando um espaço cada vez maior no País.

Espero que Requião incorpore a defesa dos Arranjos em sua campanha. Na verdade, não vejo outra forma de proteger trabalhadores expulsos das empresas onde trabalhavam nos tempos da velha tecnologia senão juntando-se uns aos outros de forma cooperativa. A terminologia, em si, sequer importa muito: tanto pode ser Arranjo Produtivo quanto cooperativa. Prefiro Sociedade Anônima porque dá mais flexibilidade institucional ao empreendimento. O importante, porém, é que, juntando o idealismo socialista com o trabalho concreto num Arranjo ou numa cooperativa, vejamos o alvorecer de uma nova sociedade que chamo de Social-Trabalhista.

"A leitura ilumina o espírito".

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