Colômbia e Israel: a diplomacia cínica do desastre

O presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, discursa no Batalhão Pichincha após sua cerimônia de posse em Cali, Colômbia, em 7 de agosto de 2026. (Jaime Saldarriaga / AFP via Getty Images)

TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA

Sob o pretexto de responder ao terremoto, o presidente colombiano Abelardo de la Espriella reverteu drasticamente a posição da Colômbia em relação a Israel, reconhecendo as controversas reivindicações israelenses sobre as Colinas de Golã ocupadas.

Na manhã de 10 de agosto, um poderoso terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, deixando quase 300 mortos, 4.000 feridos e, segundo as últimas estimativas, potencialmente milhares de desaparecidos. A crise representou um teste inicial para o novo presidente de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, que havia assumido o cargo poucos dias antes. Poucas horas após o terremoto, enquanto colombianos ainda jaziam sob os escombros de prédios destruídos, o governo emitiu uma longa declaração reconhecendo a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, território sírio ocupado ilegalmente por Israel desde 1967. A declaração, que desencadeou uma crise diplomática com os países árabes, colocou a Colômbia ao lado dos Estados Unidos como o único outro país do mundo a reconhecer a reivindicação de Israel sobre o território.

Embora o governo colombiano tenha sido justamente criticado, tanto nacional quanto internacionalmente, pelo momento escolhido para o anúncio, isso não foi por acaso. Apesar de o desejo de De la Espriella de estreitar laços com Israel ser anterior ao terremoto, as ações do novo governo desde o desastre demonstram que ele pretende usar a crise para justificar relações mais próximas com o país do Oriente Médio. Essa dinâmica já se manifestou na Venezuela, onde o envio de ajuda humanitária por Israel após os terremotos devastadores abriu caminho para a restauração das relações consulares entre os antigos inimigos.

A reaproximação entre a Colômbia e Israel é particularmente difícil de aceitar, dado o papel recente da Colômbia como líder do movimento global de solidariedade com a Palestina sob a presidência de Gustavo Petro, antecessor de de la Espriella. No entanto, faz parte de uma tendência regional mais ampla em que governos de extrema-direita demonstram sua lealdade a Israel ou fazem gestos imediatos aos seus líderes assim que assumem o poder.

Diplomacia em desastres

O terremoto de 10 de agosto causou extensos danos nos departamentos de Chocó (epicentro), Valle del Cauca, Risaralda, Quindío e Caldas. Houve cortes de energia, desabamentos de prédios e o número de mortos continua a subir. Lutando para lidar com o caos, o governo mobilizou recursos estaduais e contou com as comunidades locais para grande parte do socorro imediato. As primeiras 72 horas são consideradas críticas em uma resposta a terremotos para preservar a vida de sobreviventes presos nos escombros, mas o governo levou três dias inteiros para aceitar formalmente as equipes internacionais de resgate e, quando finalmente o fez, colaborou apenas com aliados de direita: Estados Unidos, Equador, El Salvador e Israel.

Embora este último caso possa ser uma surpresa, trata-se de um papel já conhecido dos israelenses na região. Há décadas, o país fornece ajuda humanitária e equipes de resgate após desastres naturais. Nos últimos anos, as Forças de Defesa de Israel (IDF) e o Fórum Israelense para Ajuda Internacional (IsraAID) foram mobilizados para o Peru, México e Haiti após terremotos, bem como para o Brasil após o rompimento de uma barragem em 2019.

Essa ajuda funciona como uma forma de diplomacia de desastres, buscando melhorar a imagem de Israel no cenário internacional, mesmo enquanto utiliza a ajuda humanitária em Gaza como arma de guerra contra os palestinos. Por meio desses mecanismos, o Estado israelense busca melhorar as relações diplomáticas com países cujos governos podem ter sido, em algum momento, mais críticos.

Na vizinha Venezuela, o envio de ajuda israelense após os devastadores terremotos gêmeos lançou as bases para o restabelecimento das relações consulares. Como Simón Rodríguez relatou recentemente na NACLA, a missão de resgate de Israel foi explicitamente apresentada por ambos os lados como uma forma de reiniciar as relações diplomáticas que haviam sido rompidas sob o governo do ex-líder venezuelano Hugo Chávez. Desde o início, a presidente interina Delcy Rodríguez expressou sua esperança de que a ajuda “abrisse novos caminhos e portas” com “países com os quais não temos relações diplomáticas”; o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, por sua vez, agradeceu à equipe de resgate israelense por “reconstruir ruínas e relações”.

Na Venezuela, os mesmos atores humanitários que participaram da missão desempenharam um papel ativo na justificativa e perpetuação do genocídio israelense em curso em Gaza. Como Rodríguez destaca, a ZAKA, uma ONG fundada na década de 1990 por um ex-membro de uma organização terrorista ultraortodoxa, estava presente no local logo após os terremotos. A organização, especializada em resposta a emergências e operações de resgate em Israel e no exterior, foi uma das principais fontes de muitos dos mitos que a mídia americana usou para justificar o genocídio em resposta aos ataques de 7 de outubro, incluindo a história dos bebês decapitados. Yosef Garmon, seu diretor para a América Latina, chegou a postar um vídeo falando em espanhol das ruínas de Gaza, apelando ao apoio de sionistas cristãos; em Caracas, ele se encontrou com estudantes universitários, que foram filmados cantando, de forma desajeitada, o cântico “Am Yisrael Chai” (“O povo de Israel vive”).

ZAKA elogiou o anúncio de que Israel e Venezuela estavam restabelecendo formalmente as relações consulares. Ele também se atribuiu o mérito de sua participação, destacando que sua missão foi um elemento essencial no processo.

O manual venezuelano na Colômbia

De volta ao país, tendo chegado a Bogotá horas antes, Garmon concedeu entrevistas à televisão israelense da Colômbia logo após o terremoto que atingiu a região na manhã de segunda-feira. Dias antes, ele estivera na cidade de Cali, onde já havia atuado como rabino, para a posse presidencial de Abelardo de la Espriella.

De la Espriella definiu o estreitamento dos laços com Israel como uma prioridade. Antes de assumir o cargo, ele havia anunciado sua intenção de transferir a embaixada da Colômbia para Jerusalém e adiar a inauguração da embaixada em Ramallah, além de se reunir com o ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa'ar. Ele também anunciou a criação de uma comissão econômica bilateral e uma visita formal de uma delegação colombiana ao país em outubro.

Sob o pretexto de responder ao terremoto, a Colômbia elevou seu apoio a Israel a novos patamares, incluindo uma declaração reconhecendo a soberania israelense sobre as Colinas de Golã. De forma mais substancial, o governo aproveitou o desastre natural para revogar dois decretos que proibiam a exportação de carvão colombiano para Israel. O prazo obrigatório de cinco dias para comentários sobre a legislação proposta começou no dia seguinte ao terremoto, quando a atenção estava voltada para outros assuntos.

Essas ações foram recebidas com entusiasmo pelo governo israelense. Na terça-feira, um dia após o terremoto, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu divulgou um vídeo agradecendo à Colômbia pelo reconhecimento da reivindicação de Israel sobre as Colinas de Golã, afirmando que, assim como o "povo apoia as Colinas de Golã", hoje o "povo apoia a Colômbia". No dia seguinte, após um pedido de de la Espriella, Netanyahu ordenou o envio de uma missão humanitária formal.

Israel foi um dos poucos países autorizados a enviar uma equipe de resgate, juntamente com os Estados Unidos, Equador e El Salvador. Embora o governo tenha negado qualquer motivação ideológica — alegando, em vez disso, que essas missões eram as únicas que “cumpriam os protocolos internacionais” —, fica claro que só estavam dispostos a aceitar a ajuda desesperadamente necessária de seus aliados de direita. A rejeição, por parte do governo, de uma equipe de elite de busca e resgate do México — cuja entrada no país, como revelou a presidente Claudia Sheinbaum na manhã de ontem, foi negada — deixou evidente a politização da ajuda.

A missão formal de ajuda de Israel complementará o trabalho da ZAKA, que já atua em cidades afetadas como Cali e Pereira. Assim como fizeram na Venezuela, os israelenses já estão compartilhando com a imprensa relatos sobre a recepção positiva que têm recebido dos cidadãos colombianos. Um empresário israelense que também compareceu à posse de de la Espriella contou como colombianos o abordaram para pedir sua bênção após os terremotos. Foi "o oposto do ódio", disse ele. Políticos colombianos de direita também estão elogiando publicamente organizações israelenses como a ZAKA, destacando sua capacidade tecnológica e a contribuição essencial que darão aos esforços de recuperação.

A ajuda israelense pode ser um componente essencial para salvar vidas em uma situação que permanece perigosa; pessoas ainda estão presas sob prédios e a janela de oportunidade para encontrar sobreviventes nos escombros praticamente se fechou. Da mesma forma, para muitos colombianos, a crença na capacidade tecnológica de Israel provavelmente é apolítica, uma resposta a uma situação cada vez mais desesperadora. No entanto, a rejeição, por parte do governo, de missões de resgate estrangeiras como a da brigada mexicana — uma força com muito mais experiência em operações pós-terremoto — sem dúvida levará a mortes desnecessárias.

O foco do governo colombiano em questões israelenses contrastou fortemente com a coordenação de seus próprios esforços de resgate.

Uma tendência regional

Sob a liderança de Gustavo Petro, a Colômbia foi um líder global na luta para responsabilizar Israel por seus crimes genocidas. Petro rompeu relações diplomáticas e proibiu as exportações de carvão para Israel. Seu apoio declarado à causa palestina também o colocou na mira do governo Trump, que em determinado momento revogou seu visto americano devido às suas críticas.

Embora tenha ido mais longe do que qualquer outro líder da região, Petro não estava sozinho em suas críticas ao genocídio israelense. Na época, os líderes da Bolívia, do Chile e de Honduras faziam o mesmo, muitas vezes unindo forças em organizações como o Grupo de Haia, dedicado a encontrar maneiras de responsabilizar Israel. A América Latina estava na vanguarda do movimento de solidariedade com a Palestina: além de seus líderes influentes, estudantes lideraram acampamentos de solidariedade, sindicatos lançaram campanhas inovadoras para boicotar produtos israelenses e grupos indígenas viram suas próprias lutas refletidas na situação dos palestinos.

No entanto, no último ano, uma série de vitórias eleitorais da direita mudou drasticamente o cenário, já que esses novos líderes reverteram rapidamente quaisquer políticas pró-Palestina. No último ano, presidentes recém-eleitos como Rodrigo Paz na Bolívia, o de extrema-direita José Antonio Kast no Chile e Nasry Asfura em Honduras (que, aliás, é de ascendência palestina) reabriram ou fortaleceram ativamente seus laços com Israel desde que assumiram o cargo.

Um ano antes, com o governo israelense cada vez mais isolado no cenário global, voltou sua atenção para a América Latina, e seus esforços parecem estar dando frutos. No final do ano passado, o Ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa'ar, declarou que 2026 seria o "Ano da América Latina" para Israel. Desde então, ele tem trabalhado para tornar esse sonho realidade, reunindo-se com ministros de relações exteriores de países aliados e visitando a região pessoalmente.

Nos casos da Venezuela e da Colômbia, o auxílio humanitário proporcionou ao Estado israelense um meio de se conectar diretamente com as populações locais. Também permitiu que esses governos legitimassem sua aproximação com um Estado amplamente condenado pela maioria de sua população.

As missões de ajuda externa são há muito entendidas como uma extensão da diplomacia. No entanto, a ajuda motivada principalmente por objetivos políticos em vez de humanitários — exemplificada pela rejeição, por parte do governo colombiano, de missões de resgate de países não alinhados e pela forma como Israel enquadra a ajuda humanitária como um veículo para alcançar objetivos geopolíticos e garantir o acesso a recursos — reflete apenas a aversão dos líderes de direita à cooperação diplomática em favor do transacionalismo.

GABE LEVINE-DRIZIN
Gabe Levine-Drizin é editor web da NACLA e doutorando em história na Universidade de Nova York.


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