
O parlamentar irlandês Richard Boyd Barrett. (Ilustração: Pensando a Palestina)
No Segundo Congresso Judaico Antissionista, Richard Boyd Barrett argumentou que a Palestina se tornou a luta global definidora contra o militarismo, o colonialismo e o autoritarismo.
Para o parlamentar irlandês Richard Boyd Barrett, a Palestina deixou de ser simplesmente uma questão de política externa ou uma crise humanitária que se desenrola a milhares de quilômetros de distância.
Tornou-se a luta política e moral definidora do nosso tempo — uma luta cujo resultado moldará não apenas o futuro do povo palestino, mas também o futuro da democracia, do direito internacional e da justiça social em todo o mundo.
Em seu discurso no Segundo Congresso Judaico Antissionista em Dublin, Boyd Barrett argumentou que a guerra genocida de Israel contra Gaza expôs a disposição dos governos ocidentais em normalizar o genocídio, ao mesmo tempo que expandem o militarismo, silenciam a dissidência e protegem as estruturas políticas que tornaram tais crimes possíveis.
"Se eles saírem impunes do genocídio contra o povo palestino", alertou ele, "eles virão atrás de nós em seguida. Essa é a mais pura verdade."
Desafiando a narrativa dominante
Boyd Barrett começou por homenagear os organizadores do congresso e o ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, Josh Paul, cuja renúncia em protesto contra o apoio militar americano a Israel tornou-se um dos primeiros atos públicos de dissidência após a guerra genocida de Israel contra Gaza.
Segundo ele, ambos ajudaram a expor um dos principais mitos que sustentam o apoio ocidental a Israel: a alegação de que a oposição ao sionismo é sinônimo de antissemitismo.
Essa narrativa, disse ele, continua a impedir que os governos tomem medidas significativas, apesar da devastação em Gaza.
“Isso ainda está sendo usado como desculpa para não tomar medidas em relação ao genocídio”, disse Boyd Barrett.
O próprio congresso ofereceu uma poderosa refutação. Ali estavam estudiosos, ativistas e organizadores judeus de todo o mundo, rejeitando abertamente o sionismo e se posicionando ao lado da luta palestina.
No entanto, ele observou que suas vozes praticamente não receberam atenção da grande imprensa.
“Quando judeus de verdade vêm de todas as partes do mundo e dizem que o Estado de Israel não fala em nosso nome”, observou ele, “a cobertura da mídia não chega nem perto”.
Para Boyd Barrett, o silêncio foi revelador. O problema, sugeriu ele, não é a falta de vozes judaicas que desafiam o sionismo, mas a relutância das instituições políticas e midiáticas em amplificá-las.
A contradição da Irlanda
Boyd Barrett também questionou a imagem internacional da Irlanda como um dos maiores defensores dos direitos palestinos na Europa.
Embora os sucessivos governos irlandeses tenham adotado uma retórica cada vez mais crítica em relação às políticas israelenses, ele argumentou que essas palavras raramente se traduziram em ações econômicas ou políticas significativas.
Ele apontou para os debates parlamentares sobre a legislação de sanções que, em sua opinião, foram diluídos a ponto de se tornarem em grande parte simbólicos, enquanto propostas mais amplas destinadas a impor sanções abrangentes a Israel foram rejeitadas.
Mais impressionante, disse ele, foi a justificativa repetidamente apresentada contra medidas mais rigorosas.
Segundo Boyd Barrett, os ministros argumentaram que impor sanções a Israel seria de alguma forma "injusto para o povo judeu".
“É uma mentira terrível, terrível”, disse ele. “Mas ainda assim está sendo usada para justificar a completa inação.”
Para Boyd Barrett, isso demonstrou precisamente por que a organização judaica antissionista se tornou tão politicamente significativa.
Isso mina as tentativas de equiparar a crítica ao sionismo à hostilidade contra o povo judeu e priva os governos daquilo que ele considera uma das suas últimas desculpas para a inação.
Colonialismo, não religião
Ao longo de seu discurso, Boyd Barrett insistiu que a Palestina deve ser compreendida sob a ótica do colonialismo, e não do conflito religioso.
Ele argumentou que os governos ocidentais continuam a retratar a questão como uma antiga disputa étnica ou religiosa porque reconhecer seu caráter colonial exigiria confrontar sua própria responsabilidade histórica e contínua.
“Se eles não conseguirem caracterizar isso como ódio irracional contra o povo judeu”, disse ele, “então terão que admitir o que realmente é”.
Para Boyd Barrett, o que está acontecendo na Palestina não é um conflito inevitável entre dois povos.
“Trata-se do Ocidente patrocinando um movimento racista extremista”, argumentou ele, “para dominar e controlar todo o Oriente Médio”.
Essa análise, sugeriu ele, explica a notável consistência do apoio ocidental a Israel, apesar da vasta documentação de mortes de civis e destruição em Gaza.
Além de Netanyahu
Boyd Barrett alertou contra a interpretação da crise atual como produto de um punhado de políticos israelenses extremistas. Ele argumentou que muitos governos ocidentais já estão preparando uma estratégia familiar: isolar alguns indivíduos, preservar o sistema que os produziu e, eventualmente, restaurar a legitimidade internacional de Israel.
“Eles vão tentar deixar alguns dos criminosos no topo disso impunes”, disse ele, referindo-se ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e a membros importantes de seu governo.
Para Boyd Barrett, no entanto, remover líderes individuais deixaria o projeto político subjacente intacto.
“Netanyahu, Smotrich e Ben-Gvir não são um pequeno grupo de extremistas”, disse ele. “Eles são a expressão lógica do sionismo.”
Essa distinção, argumentou ele, é crucial. Sem confrontar o sionismo em si, e não apenas sua liderança atual, qualquer futuro acordo político corre o risco de reproduzir as mesmas estruturas que definiram a desapropriação palestina por gerações.
Palestina e o futuro da Europa
Talvez a parte mais abrangente do discurso de Boyd Barrett tenha sido sua insistência em que a Palestina não deveria ser tratada como uma questão humanitária separada, competindo com as preocupações internas.
Em vez disso, argumentou ele, a luta pela Palestina é inseparável da direção política mais ampla da própria Europa. Ele apontou para o rápido aumento dos orçamentos militares, a redução do investimento em serviços públicos e a crescente influência da indústria armamentista na política europeia.
“O dinheiro que agora está sendo gasto em armas e armamentos”, alertou ele, “será dinheiro que não será investido em habitação, saúde e educação”.
Segundo ele, os mesmos governos que defendem as ações de Israel estão, simultaneamente, promovendo a militarização interna e pedindo às pessoas comuns que aceitem a deterioração dos serviços públicos e o aumento da desigualdade econômica.
Para Boyd Barrett, esses desenvolvimentos estão interligados, e não são mera coincidência. A luta contra o colonialismo no exterior e a luta por justiça social no país fazem cada vez mais parte do mesmo conflito político.
Uma luta pela humanidade
Boyd Barrett concluiu instando os ativistas a resistirem à tentação de encarar a Palestina como uma campanha de questão única. Sua importância, argumentou ele, vai muito além das fronteiras da Palestina histórica.
“Quando dizemos que a Palestina é a linha de frente na batalha da humanidade contra a barbárie”, disse ele, “isso não é retórica. É de fato uma luta contra a barbárie e por um mundo melhor.”
Para Boyd Barrett, o genocídio de Israel em Gaza tornou-se um teste decisivo para o próprio sistema internacional. Se os governos conseguirem normalizar o genocídio, suprimir a dissidência e proteger os responsáveis da responsabilização, as consequências não ficarão confinadas à Palestina.
Os precedentes estabelecidos hoje, alertou ele, moldarão o futuro político em todo o mundo.
Por isso, em sua visão, a solidariedade com a Palestina não é mais simplesmente um ato de solidariedade internacional. Ela faz parte de uma luta mais ampla sobre se o mundo caminha rumo a um maior militarismo, dominação colonial e autoritarismo — ou rumo a um futuro fundamentado na igualdade, na justiça e na dignidade humana universal.
Comentários
Postar um comentário
12