Fidel Castro, o homem, o estrategista, o revolucionário

Fontes: Rebelião.

Prefácio do livro Fidel Castro: Além do Mito, de Katrien Demuynck e Marc Vandepitte


Traduzido do francês por Beatriz Morales Bastos

Hoje se comemora o centenário do nascimento de Fidel Castro.

A primeira coisa que me impressionou em Fidel Castro não foi seu uniforme, sua altura, nem mesmo sua eloquência; foi sua curiosidade. Depois de muitas horas de entrevistas para o nosso livro, Fidel Castro: Uma Biografia em Duas Vozes (Destino, 2007), quando estávamos todos exaustos, o Comandante ainda fazia perguntas, buscava esclarecimentos, retornava a algum detalhe histórico ou científico com toda a sua energia. Muitas vezes pensei que esse era o segredo de sua longevidade política: mais do que um homem com poder, Fidel era um intelectual inquieto, um gênio visionário, um sábio.

Ao longo da minha carreira como jornalista, tive a oportunidade de conhecer muitos chefes de Estado, líderes políticos, intelectuais, artistas e outras figuras influentes que moldaram as suas épocas. No entanto, poucos me impressionaram tanto quanto Fidel Castro.

Não me refiro aqui ao mito, generosamente alimentado tanto por seus admiradores quanto por seus adversários. Refiro-me ao homem com quem tive o privilégio de conviver por muitos anos, de entrevistá-lo por incontáveis ​​horas, de vê-lo raciocinar em voz alta para reconstruir, até o menor detalhe, um episódio histórico específico, relacionando fatos aparentemente insignificantes a uma vasta perspectiva política.

Ele possuía uma memória prodigiosa. Ainda mais extraordinária era sua curiosidade intelectual, que permaneceu inabalável até o fim de sua vida. Nada relacionado aos seres humanos e ao mundo lhe era estranho.

Essas conversas me ensinaram uma lição fundamental: para entender Fidel Castro, é preciso sempre ir além da persona. Sua existência está intrinsecamente ligada à história de Cuba por mais de meio século, mas também às grandes transformações do século XX: a descolonização, a Guerra Fria, os movimentos de libertação nacional, a globalização neoliberal e a consequente emergência de um mundo mais diversificado, no qual as antigas potências ocidentais já não detêm o monopólio das decisões.

Precisamente porque Fidel Castro ocupa um lugar tão singular na história contemporânea, qualquer nova biografia pode parecer supérflua à primeira vista: o que mais se poderia dizer sobre um homem a quem tantos livros já foram dedicados?

A resposta é simples: cada época levanta novas questões sobre o passado. E cada geração interpreta grandes figuras históricas à luz de suas próprias perguntas.

Este livro de Katrien Demuynck e Marc Vandepitte responde a essas demandas.

Conheço Marc e Katrien há muito tempo. Aprecio o rigor do trabalho deles, o profundo conhecimento que possuem da América Latina e o compromisso inabalável em contextualizar os acontecimentos. Katrien Demuynck e Marc Vandepitte escolheram uma abordagem mais desafiadora em um cenário editorial onde Fidel Castro é frequentemente reduzido a um ícone ou uma caricatura: resgatar a complexidade de um destino excepcional sem ceder à hagiografia ou a vieses ideológicos.

Esse método é indispensável.

A figura de Fidel Castro está há décadas envolvida em uma batalha de narrativas. Para alguns, ele permanece o símbolo da resistência ao imperialismo; para outros, personifica todos os males do socialismo de Estado. Frequentemente, essas representações opostas, por vezes legítimas em sua inspiração, acabam obscurecendo a realidade histórica, que possui inúmeras nuances. Contudo, a missão do historiador não é alimentar paixões, mas, sobretudo, esclarecer os fatos.

Um dos principais méritos deste livro é justamente lembrar que Cuba não pode ser compreendida independentemente da relação singular que mantém há mais de dois séculos com seu poderoso vizinho, os Estados Unidos. A Revolução de 1959 jamais se desenrolou em um ambiente normal. Desde o início, enfrentou tentativas de desestabilização, uma invasão armada, um embargo econômico que duraria décadas e também um constante confronto político. Nenhuma avaliação séria das decisões do governo cubano pode ignorar essa realidade.

Isso não significa que tudo possa ser explicado, muito menos justificado, por pressões externas. O próprio Fidel Castro sabia que toda revolução gera suas contradições, seus erros, suas rigidezes. Ele às vezes falava disso com uma franqueza que surpreendia muitos de seus detratores e admiradores. Ele não aspirava a construir uma sociedade perfeita (sabia que ela não existia), mas sim a preservar a independência nacional, que considerava a condição primordial de qualquer política social. Ele não queria deixar a marca mais profunda que desejava deixar na Terra com balas, mas com palavras, livros e todo tipo de atos de solidariedade.

Sua capacidade visionária também era impressionante, a extraordinária amplitude de seus horizontes. Seu olhar se estendia muito além das fronteiras de Cuba. A África ocupava um lugar especial em seu pensamento. A América Latina era seu domínio natural. A Ásia o interessava cada vez mais à medida que o centro de gravidade mundial se deslocava para o Leste Asiático. Fidel Castro previu o surgimento de um Sul Global e de uma ordem mundial multipolar muito antes de esses termos se tornarem amplamente utilizados.

Essas percepções, com a vantagem da retrospectiva, são particularmente esclarecedoras hoje. O mundo que se desenha diante de nossos olhos não é mais o mesmo que surgiu em 1991, após o colapso da União Soviética. Novas potências consolidam suas posições, países do Sul Global exigem maior autonomia, os BRICS fazem ouvir suas vozes e há uma significativa reestruturação das relações de poder internacionais. Reler Fidel Castro nesse novo contexto não é um ato de nostalgia, mas uma forma de compreender melhor certas ideias fundamentais do presente. É por isso que esta biografia chega em um momento tão crucial.

Katrien Demuynck e Marc Vandepitte não tentam convencer os leitores a admirar Fidel Castro, mas sim oferecem algo mais valioso: compreendê-lo. Compreender como um jovem advogado de Santiago de Cuba se tornou um dos maiores estrategistas revolucionários e uma das figuras geopolíticas mais influentes da segunda metade do século passado; compreender por que uma pequena ilha caribenha pôde exercer uma influência diplomática e moral sem precedentes, dado o seu tamanho; compreender, finalmente, por que dez anos após a sua morte, Fidel Castro continua a ocupar um lugar tão singular no imaginário político mundial.

As grandes figuras históricas nunca são verdadeiramente reinterpretadas. As paixões se acalmam, os arquivos são abertos e as perspectivas mudam. A história gradualmente substitui a controvérsia. Essa é uma mudança necessária. Ela nos permite chegar mais perto da verdade, sem jamais pretender possuí-la por completo.

Gostaria que os leitores abordassem este excelente livro com a mente aberta. Nele, descobrirão uma obra sólida e bem documentada, atenta tanto aos fatos quanto aos contextos. Acima de tudo, encontrarão um Fidel Castro profundamente humano: um estrategista, um visionário, por vezes obstinado, frequentemente audacioso, sempre convicto de que as pessoas podem escrever a sua própria história, o seu próprio destino.

Essa convicção, mais do que qualquer outra, explica sem dúvida por que o nome do Comandante Cubano permanece, ainda hoje, indissociável dos grandes debates sobre soberania, justiça social, direito internacional e independência das nações. Quem lê este livro não apenas mergulha na vida de um homem e de um país, mas também adentra uma era cujos ecos formidáveis ​​continuam a moldar o nosso mundo contemporâneo.

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Fidel Castro. Além do mito
Katrien Demuynck e Marc Vandepitte
Prólogo: Ignacio Ramonet
Ediciones Dyskolo. Coleção Albatana (AB)
: Crônicas
1ª edição agosto de 2026
Formato: 14×20 cm. 296 pág.
ISBN: 9791399100587


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