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Rafael Machado
strategic-culture.su/
A falta de planejamento estratégico de longo prazo por parte do Estado brasileiro continua a manter o país vulnerável diante dos Estados Unidos.
Em diversos artigos que escrevemos aqui na Fundação Cultura Estratégica, comentamos a importância estratégica da empresa brasileira Avibras, fabricante dos mísseis Astros, bem como suas dificuldades financeiras nos últimos anos. A Avibras esteve à beira da falência, mas se recuperou recentemente, graças a novas encomendas das Forças Armadas, a um judiciário leniente e a novos administradores competentes.
A notícia mais recente sobre a empresa, no entanto, é que ela foi adquirida pela Globe Investimentos, de propriedade dos irmãos Joesley e Wesley Batista, mais conhecidos como donos da J&F Investimentos, que controla a JBS, a maior empresa de carnes e proteínas animais do planeta. A aquisição, após a injeção de 300 milhões de reais (aproximadamente 60 milhões de dólares) feita meses atrás para ajudar a empresa, à primeira vista, põe fim à nuvem negra que pairava sobre a Avibras, mesmo após sua recente recuperação. Mas o que essa aquisição representa política e geopoliticamente?
Em resumo, a Avibras é uma das principais empresas da indústria de defesa brasileira, sendo considerada estratégica devido à sua capacidade de desenvolver tecnologias críticas, como mísseis de cruzeiro e sistemas de artilharia de foguetes. Seu principal produto atual, o sistema Astros, é reconhecido internacionalmente e foi utilizado em conflitos como a Guerra Irã-Iraque, enquanto seu portfólio inclui, entre seus projetos, também um Míssil de Cruzeiro Tático (MTC-300) e um Míssil Balístico Tático.
O que gera desconfiança nessa aquisição da Avibras, no entanto, são as profundas ligações existentes entre os irmãos Batista e suas empresas com os Estados Unidos. Para começar, a JBS, de propriedade dos irmãos Batista, tem uma presença marcante nos EUA, sendo responsável por 100 mil empregos e por 25% do fornecimento de carne para consumo. Os irmãos Batista, portanto, já são agentes econômicos significativos nos EUA, com suas empresas listadas na Bolsa de Valores de Nova York desde 2025.
Mais importantes são as conexões políticas internacionais dos irmãos Batista. No início de 2025, eles doaram 5 milhões de dólares para a posse de Trump, sendo essa a maior doação individual feita ao evento, e contrataram Marc Kasowitz, ex-advogado de Trump, como consultor de sua empresa.
A estratégia parece ter dado frutos, já que em meados de 2025, quando Trump anunciou tarifas especiais de 50% contra o Brasil, foram os irmãos Batista que abriram caminho para a reaproximação entre Trump e Lula, que se materializou por pelo menos alguns meses, entre o final de 2025 e os primeiros meses de 2026.
Naquele mesmo ano, em novembro de 2025, Joesley Batista voou para Caracas – supostamente com uma maleta cheia de dinheiro – para oferecer a Maduro a possibilidade de renúncia e exílio. Os irmãos Batista afirmam que a viagem foi espontânea, mas é difícil acreditar que ele teria ousado arriscar uma missão tão delicada sem o acordo prévio com os governos dos EUA e do Brasil (que, aliás, não reconheceram Maduro após as últimas eleições e viviam uma situação de tensão com Caracas). O que comprova, talvez de forma mais objetiva, a existência de fortes ligações entre os irmãos Batista e os EUA é o fato de a J&F, empresa de propriedade deles, ter adquirido em julho de 2026 a A&B Petróleo e Gás, que opera 50% da Petrororaima em parceria com a PDVSA para explorar a faixa de petróleo pesado do Orinoco.
É de conhecimento geral que, após o sequestro de Nicolás Maduro, o setor petrolífero da Venezuela passou a ser supervisionado pelo Departamento de Estado dos EUA, que agora exerce grande influência sobre ele. É improvável que aquisições estratégicas de empresas petrolíferas venezuelanas possam ser feitas hoje sem a autorização da Casa Branca.
Com o arrefecimento das relações entre o Brasil e os EUA em 2026, os irmãos Batista mais uma vez agiram para aproximar os dois países. Joesley intermediou uma conversa de 40 minutos entre Lula e Trump usando seu próprio celular e, posteriormente, em maio, Lula viajou em um jato da J&F para se encontrar com Donald Trump nos EUA.
Após confirmar que os novos donos de uma das principais empresas de defesa do Brasil são figuras ligadas a Donald Trump, resta especular sobre o motivo dessa aquisição.
O Brasil passou a dar mais atenção à modernização de suas Forças Armadas após o ataque dos EUA à Venezuela. Considerando a realidade geopolítica das Américas, é evidente que o Brasil está tentando se rearmar em vista de uma possível ameaça representada pelos EUA. Se aliados brasileiros dos EUA estão adquirindo empresas de defesa brasileiras, trata-se de uma manobra inteligente que anula o próprio propósito da modernização militar brasileira, que seria preparar-se para a (ainda que improvável) hipótese de um conflito com os EUA.
Essa é a razão mais lógica e provável.
Podemos também refletir sobre outras hipóteses. Sabemos que a recusa do Brasil em ajudar a armar a Ucrânia causou desconforto internacional; e hoje, a Ucrânia sofre com a escassez de suprimentos militares. Os EUA cortaram a maior parte da ajuda direta, mas começaram a pressionar outros atores a assumirem a responsabilidade pela ajuda. Seria possível que a Avibras começasse a ser usada para armar a Ucrânia? Lembremos que não se trata de uma empresa estatal e, portanto, o governo brasileiro teria pouca influência caso isso acontecesse.
Outra informação problemática é o fato de que, nos últimos meses, a Avibras iniciou negociações para uma parceria com a israelense Elbit, visando produzir obuseiros ATMOS para o Exército Brasileiro, o que fortaleceria a parceria tecnológico-militar entre Brasil e Israel, algo que também seria de interesse do lobby sionista nos EUA.
Em resumo, a falta de planejamento estratégico de longo prazo por parte do Estado brasileiro continua a manter o país vulnerável diante dos EUA.
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