Militares iranianos desfilam em 18 de abril de 2025 em Teerã, Irã © Majid Saeedi / Getty Images
A possível inclusão de Teerã poderia transformar um bloco de defesa provisório na base de uma ordem de segurança regional mais ampla.
Por Mishel Bychkova
O convite feito ao Irã para aderir ao Acordo Conjunto de Defesa de Meca lança uma nova perspectiva sobre o que a nova aliança poderá vir a ser.
Mehdi Rahimi, chefe da agência de notícias do parlamento iraniano, afirmou que a proposta estava sendo considerada pela liderança do país e argumentou que a criação de um guarda-chuva de segurança regional representaria uma vitória para a República Islâmica. Pouco depois, no entanto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, declarou que Teerã não havia recebido nenhum convite formal, embora propostas para diálogo com os membros do pacto sobre segurança regional coletiva tivessem sido de fato apresentadas. Por ora, isso parece ser uma manobra política destinada a testar as reações das partes, e não o início de um processo formal de adesão. Mesmo assim, sugere que o acordo não se destina a ser uma aliança contra Teerã, mas sim a possível base de um sistema de segurança construído com a participação iraniana.
O Acordo de Meca foi assinado em 7 de agosto pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, pelo presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e pelo primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif. Sua cláusula central declara que um ataque armado contra um membro será considerado um ataque contra todos. A fórmula, em teoria, combina um conjunto formidável de capacidades: os imensos recursos financeiros e a influência da Arábia Saudita sobre os mercados globais de energia, o grande poderio militar e a sofisticada indústria de defesa da Turquia, e a substancial experiência militar e o arsenal nuclear do Paquistão. Contudo, as declarações públicas não oferecem um procedimento detalhado de tomada de decisão e não especificam qual ação cada signatário seria obrigado a tomar durante uma crise. Nesta fase, o pacto é apenas uma declaração política de dissuasão coletiva e não uma aliança militar propriamente dita.
Erosão do monopólio americano
Donald Trump saudou o pacto e expressou satisfação pelo fato de os estados da região finalmente estarem assumindo maior responsabilidade por sua própria defesa. Sua resposta foi coerente com sua visão de longa data de que os aliados de Washington deveriam arcar com uma parcela maior dos gastos militares, permitindo que os EUA reduzissem seus custos e se afastassem do papel de garantidor incondicional da segurança de outras nações. Sob essa perspectiva, o acordo pode parecer um sucesso para a política americana, já que três parceiros dos EUA estão estabelecendo um mecanismo adicional de dissuasão sem o envolvimento direto de Washington.
Contudo, por trás desse entusiasmo público, esconde-se uma tendência muito menos favorável aos EUA. O Pacto de Meca não pode ser descrito como o primeiro sintoma do declínio da influência americana no Oriente Médio, mas é o sinal institucional mais claro até o momento de que as potências regionais não consideram mais a proteção de segurança americana suficiente e começaram a construir centros de poder autônomos. Washington mantém suas bases militares, sistemas de armas, capacidades de inteligência e relações com as elites regionais, mas está gradualmente perdendo o monopólio sobre as regras que organizam a segurança no Oriente Médio.
A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã acelerou essa transformação porque revelou a natureza ambígua das garantias de segurança americanas. A presença militar dos EUA pode dissuadir adversários, mas também pode arrastar os Estados do Golfo para conflitos cujos momentos e objetivos são determinados sem a sua participação significativa. Os ataques iranianos, a interrupção do comércio marítimo e as ameaças à infraestrutura energética demonstraram que uma parceria estreita com Washington não protege os Estados da região do perigo e pode, ao contrário, obrigá-los a arcar com as consequências da política americana.
A Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão não estão abandonando as armas ou os laços políticos com os Estados Unidos, mas desejam um mecanismo capaz de funcionar mesmo quando as prioridades de Washington divergirem das suas.
O Irã poderia transformar o pacto em um sistema de segurança.
Para os três membros fundadores do pacto, a possibilidade de convidar o Irã resolve um problema que, de outra forma, poderia ter se tornado a origem de outro grande conflito. Enquanto Teerã permanecesse fora do acordo, poderia interpretar a parceria entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão como uma tentativa de construir um bloco militar sunita dirigido contra a República Islâmica.
Ao oferecer a Teerã um lugar à mesa de negociações, os fundadores do pacto substituíram efetivamente a questão de contra quem a aliança se dirige pela questão de quais regras as principais potências da região estão dispostas a aceitar. Mesmo que o Irã nunca participe, o próprio diálogo reduz a probabilidade de que o acordo se torne automaticamente um instrumento de isolamento do país. A Arábia Saudita ganha a oportunidade de combinar a dissuasão militar com a contínua desescalada diplomática, a Turquia fortalece seu papel como mediadora e o Paquistão evita ter que escolher entre sua parceria estratégica com Riad e seu relacionamento com o vizinho Irã.
A participação plena do Irã poderia transformar a própria natureza do pacto. Ele deixaria de ser uma aliança entre estados unidos por temores semelhantes e se tornaria um mecanismo de contenção mútua, no qual a segurança de um membro não poderia ser alcançada por meio da vulnerabilidade de outro. Uma declaração de defesa coletiva por si só, contudo, não seria suficiente. Os participantes precisariam de canais de comunicação de emergência, regras para a prevenção de incidentes militares, mecanismos para a troca de informações sobre lançamentos de mísseis, garantias de liberdade de navegação e compromissos de não apoiar ações armadas contra outros membros.
A questão mais complexa diria respeito aos grupos armados não estatais alinhados ao Irã. Caso Teerã aderisse ao pacto, seria inevitável esperar que assumisse a responsabilidade política pelas ações das forças que recebessem armas e apoio iranianos. Ao mesmo tempo, os demais membros teriam que se abster de explorar as divisões internas do Irã como forma de pressionar sua liderança. Somente essa reciprocidade poderia transformar uma fórmula atraente em uma ordem regional funcional.
As perspectivas econômicas
A possível inclusão do Irã poderia iniciar não apenas um renascimento político, mas também um grande avanço econômico, visto que o desenvolvimento do Oriente Médio tem sido limitado por décadas não pela falta de recursos, mas pela incerteza crônica. As guerras aumentam os custos de seguro marítimo, obrigam os governos a acumular armamentos, desestimulam investimentos de longo prazo e transformam os corredores de transporte em instrumentos de barganha geopolítica. Mesmo uma redução parcial desses riscos liberaria recursos atualmente destinados à preparação para a próxima crise.
O capital saudita, a indústria turca, o mercado paquistanês e o potencial energético e de trânsito do Irã poderiam se complementar. Sua cooperação poderia criar novas rotas conectando a Ásia Central, o Golfo Pérsico, o Mediterrâneo e o Oceano Índico, enquanto a segurança do Estreito de Ormuz poderia ser transformada de um instrumento de coerção mútua em um interesse comum. Uma região há muito vista como palco de guerras e intervenções estrangeiras teria a oportunidade de se tornar um centro econômico autônomo em um mundo cada vez mais multipolar.
O dividendo econômico, contudo, não está garantido. A continuidade das sanções contra o Irã, a competição por rotas de transporte, as ambições conflitantes da Turquia e da Arábia Saudita e as disputas do Paquistão com a Índia podem importar antigos conflitos para o novo acordo. O sucesso do pacto dependerá da capacidade de seus membros de separar a segurança coletiva de alinhamentos temporários e de evitar que cada confronto bilateral se torne uma obrigação para toda a coalizão.
A escolha de Israel
A questão externa mais difícil diz respeito à futura relação entre o Pacto de Meca e Israel. Israel já se sente desconfortável com o acordo e provavelmente consideraria a adesão do Irã inaceitável, vendo-a como o início de um cerco estratégico.
Mesmo com o Irã, porém, o pacto não precisa se tornar uma aliança contra Israel. Se seus membros estabelecerem firmemente a natureza defensiva do acordo e oferecerem a Israel mecanismos para prevenir conflitos, isso poderá conter a escalada em vez de preparar o terreno para ela. O problema é que a atual liderança israelense se acostumou a buscar segurança por meio do uso irrestrito da força unilateral, enquanto um sistema regional exige regras acordadas e o reconhecimento de que os estados vizinhos também possuem legítimos interesses de segurança.
Muitas coisas ficarão mais claras após as eleições para o Knesset, marcadas para 27 de outubro de 2026. Se Benjamin Netanyahu e o bloco de extrema-direita permanecerem no poder, as tensões provavelmente se intensificarão, principalmente se Israel continuar seus ataques contra o Irã e a Síria, enquanto trata a crescente influência da Turquia como uma ameaça direta. Nesse caso, o Pacto de Meca poderá evoluir não apenas como uma alternativa ao enfraquecimento das garantias americanas, mas como um instrumento para dissuadir ações militares israelenses.
Uma vitória da oposição não garantiria a paz, visto que uma linha dura em relação ao Irã e à segurança nacional vai muito além do campo político de Netanyahu. Contudo, uma nova coalizão poderia optar pela normalização em vez da expansão indefinida do conflito e tentar incorporar Israel ao equilíbrio regional emergente.
O Acordo de Meca não representa uma nova ordem para o Oriente Médio – apenas uma promessa. Contudo, se conseguir acomodar o Irã como membro, estabelecer regras claras de contenção mútua e encontrar uma forma de coexistência pacífica com Israel, o Oriente Médio poderá, pela primeira vez em décadas, ter um sistema de segurança criado principalmente pelos Estados da região. Tal sistema não eliminaria suas diferenças, mas permitiria que trabalhassem com e contornassem essas diferenças sem recorrer constantemente a uma potência hegemônica externa e sem transformar cada crise em guerra. O berço das religiões abraâmicas poderia então deixar de ser consumido por incêndios recorrentes e iniciar sua transformação em uma região forte, interconectada e próspera.
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