
Enquanto a República Turca celebra seu centenário, vale lembrar que ela foi construída sobre as ruínas do Império Otomano, não como um espaço para acomodar sua diversidade étnica herdada, mas por meio da assimilação forçada e da absorção coercitiva de grupos não turcos. O Genocídio Armênio e a troca forçada de populações com a Grécia em 1923 foram as condições violentas que tornaram essa homogeneização possível. Duas minorias sobreviveram a esse projeto: os árabes, em pequeno número e, aos olhos do Estado, não considerados uma ameaça; e os curdos, numerosos, territorialmente concentrados e, portanto, percebidos como um perigo. Este ensaio combina a teoria dos sistemas mundiais (Wallerstein) com a análise de classe para argumentar que a questão curda na Turquia não pode ser entendida como uma simples crise de identidade ou um problema de segurança. Isso reflete a posição semiperiférica da Turquia dentro do sistema capitalista global e o desenvolvimento desigual que dividiu o leste do oeste do país — uma fratura que, por meio de uma cadeia causal específica, traça o caminho do capitalismo semiperiférico à securitização das regiões de maioria curda. Perguntar se Erdoğan pode superar o legado centenário de Atatürk é, portanto, uma pergunta falha: reduz à vontade política de um único líder algo que deveria ser compreendido dentro da estrutura da lógica estrutural que levou tanto Atatürk quanto Erdoğan, apesar de suas evidentes diferenças ideológicas, a reproduzir a mesma fratura.
Construção do Estado por meio da homogeneização: o legado fundador da república
Contrariando a narrativa oficial de modernização secular, a república turca foi construída desde o início sobre a supressão sistemática da pluralidade étnica, embora não apenas por meio da eliminação física. Integração forçada, turquificação cultural, deslocamento populacional e repressão policial operaram em conjunto. O genocídio armênio nos últimos anos do império e a troca forçada de populações com a Grécia em 1923 foram as pré-condições demográficas para o novo Estado-nação. O que Mustafa Kemal Atatürk chamou de "turquidade" era uma identidade imposta e homogeneizadora que dissolvia o "outro" em si mesma ou o apagava por completo. Os curdos, devido ao tamanho de sua população e à contiguidade territorial no sudeste da Anatólia, ocupavam um lugar distinto nesse projeto: não podiam ser expulsos ou ignorados, então tiveram que se tornar turcos. Por quase oitenta anos, o Estado turco negou a identidade curda por meio das escolas, da mídia e das forças armadas. A língua curda foi proibida, e até mesmo a palavra "curdo" foi substituída no discurso oficial pelo termo pejorativo "turco da montanha". Isso não foi uma exceção à lógica fundadora do Estado-nação: foi essa mesma lógica.
Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Sèvres de 1920 previa um Estado curdo independente, possibilidade abandonada com o Tratado de Lausanne de 1923 e a consolidação das fronteiras da nova república. Essa mudança não deve ser atribuída a uma intenção ocidental unificada e premeditada; a realidade era mais complexa. Sèvres refletia o equilíbrio de poder no período imediatamente posterior à guerra, mas a vitória militar do movimento nacionalista turco sobre as forças de ocupação gregas e os Aliados alterou completamente esse equilíbrio. Diante de um governo central que já possuía poder militar real, a Grã-Bretanha e a França abandonaram seu apoio declarado à autonomia curda e consideraram mais conveniente negociar com uma Ancara vitoriosa. Não se tratava de uma conspiração premeditada, mas sim de um recálculo pragmático diante de um cenário militar e político em transformação, embora esse episódio ilustre claramente até que ponto o compromisso declarado do Ocidente com a "autodeterminação nacional" no Oriente Médio historicamente cedeu lugar à conveniência geopolítica do momento.
Da negação à luta armada: a formação do PKK
Longe de resolver a questão curda, essa negação de identidade gerou uma profunda fratura social entre a população curda e o Estado central. As repetidas tentativas da sociedade civil em meados do século XX de obter o reconhecimento dos direitos culturais curdos foram, em grande parte, recebidas com repressão. Foi nesse contexto que o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado em 1978, apresentando-se inicialmente não apenas como representante curdo, mas também como um projeto de justiça de classe e étnica para todos os setores oprimidos da Turquia. A proibição da atividade civil e política curda abriu caminho para a radicalização do movimento; a partir de 1984, o PKK travou uma luta armada contra o governo central, um conflito que durou décadas e que, segundo diversas estimativas, custou dezenas de milhares de vidas, principalmente civis e combatentes curdos, além de um número menor de soldados do Estado.
O que importa aqui é a dialética entre repressão e pretexto: cada operação armada do PKK oferecia ao Estado uma nova justificativa para intensificar a repressão cultural e política contra toda a comunidade curda, incluindo seus setores civis e desarmados. Esse padrão prendeu a Turquia em um ciclo no qual a securitização da questão curda adiava indefinidamente qualquer solução política duradoura.
Turquia semiperiférica: do desenvolvimento desigual à securitização
Para entender por que a divisão curdo-turca não é meramente “cultural”, é necessário situá-la no contexto da economia política da Turquia dentro do sistema capitalista global e, sobretudo, rastrear explicitamente os elos intermediários que conectam essa posição à repressão curda. A adesão da Turquia à OTAN desde 1952 e sua gradual integração aos mercados de capitais ocidentais fizeram dela um caso exemplar de potência semiperiférica no sentido de Wallerstein: um Estado que não ocupa nem o centro do sistema mundial nem sua periferia, mas sim uma posição mediadora, explorada pelo centro e, simultaneamente, explorando a periferia.
A cadeia causal pode ser claramente formulada. A integração desigual da Turquia no capitalismo global impôs um padrão de desenvolvimento desigual, no qual o investimento industrial e infraestrutural se concentrou no oeste: Istambul, Esmirna, Ancara e o corredor industrial centro-oeste da Anatólia. Essa concentração de capital, por sua vez, produziu uma correspondente concentração de poder político e militar no Estado central, uma vez que sustentar e expandir esse padrão de acumulação exigia um Estado unificado e livre de desafios internos. O leste, lar da maioria curda e cuja contiguidade territorial com o Iraque, o Irã e a Síria o tornava estrategicamente sensível, não era apenas uma periferia econômica para o Estado central, mas também uma área de potencial disputa territorial e de recursos. Essa combinação de marginalidade econômica e centralidade geopolítica e de segurança impulsionou o Estado turco em direção à securitização sistemática das regiões de maioria curda: a militarização, a restrição de investimentos e o controle demográfico funcionaram como instrumentos de contenção para uma região mantida em subdesenvolvimento econômico e considerada, da perspectiva da segurança, "problemática".
Com base nisso, ser curdo tem sido estatisticamente e estruturalmente correlacionado com uma maior probabilidade de viver em uma região menos desenvolvida e com menos oportunidades econômicas, não porque todos os curdos sejam pobres, nem porque a etnia por si só explique a pobreza do leste da Turquia, mas porque as divisões étnicas e regionais de classe têm se sobreposto sistematicamente. Essa sobreposição confere à questão curda uma dimensão que transcende o reconhecimento cultural ou linguístico: a questão é simultaneamente uma questão de redistribuição real de capital e de reconhecimento político.
Erdoğan: ruptura ideológica, continuidade estrutural
A ascensão do AKP ao poder em 2002 alimentou esperanças de uma ruptura com o legado kemalista, e essas esperanças não eram infundadas. Erdoğan não é um kemalista: ele e seu partido vêm de uma tradição islâmica conservadora que também havia sido alvo da repressão do Estado kemalista. Em sua primeira década no poder, ele liderou o que ficou conhecido como a "abertura curda" ou processo de paz (2009-2015), que incluiu negociações diretas com o líder preso do PKK, Abdullah Öcalan, e reformas culturais — entre elas a permissão de transmissões em língua curda e o relaxamento de algumas restrições linguísticas — que nenhum governo kemalista anterior havia se disposto a empreender. Nesse sentido, seria impreciso afirmar simplesmente que "Erdoğan está apenas reproduzindo Atatürk".
Contudo, o processo entrou em colapso em 2015, coincidindo com uma mudança nos cálculos eleitorais de Erdoğan: depois que o Partido Democrático dos Povos (HDP), pró-curdo, ultrapassou a cláusula de barreira parlamentar pela primeira vez nas eleições de junho de 2015 e ameaçou a maioria do AKP, o governo rapidamente se voltou para a securitização e uma aliança com o partido nacionalista de direita MHP. O ponto central é este: a ruptura ideológica de Erdoğan com o kemalismo não dissolveu a continuidade estrutural do Estado centralizado e do nacionalismo territorial. Ele conseguiu se distanciar discursivamente — e até mesmo em algumas políticas culturais — do legado kemalista, mas quando sua sobrevivência política esteve em jogo, por meio de uma aliança com a direita nacionalista, ou quando o projeto econômico de seu partido — a exportação de capital produtivo turco por meio de empresas de construção e defesa para um Oriente Médio mais periférico — foi ameaçado, ele recorreu aos mesmos instrumentos de Estado centralizado e controle territorial.
A intervenção militar da Turquia no norte da Síria, justificada pela "ameaça à segurança" representada pelas Unidades de Proteção Popular Curdas (YPG) sírias, ilustra claramente essa continuidade: a expansão da esfera de influência econômica e militar da Turquia na Síria foi acompanhada pela repressão da autonomia curda do outro lado da fronteira, precisamente porque qualquer legitimação dessa autonomia impacta imediatamente as demandas curdas dentro da Turquia. A tese do artigo, portanto, não é que "Erdoğan seja simplesmente Atatürk", mas sim que a ruptura ideológica com o kemalismo não eliminou os imperativos estruturais de um Estado semiperiférico: a necessidade de legitimidade nacionalista interna e controle territorial para sustentar as exportações de capital.
Um contra-argumento: Será que desta vez é realmente diferente?
Aqueles que defendem o processo atual — incluindo figuras próximas ao Partido da Igualdade dos Povos e da Democracia (DEM), que participaram de recentes negociações com o governo — argumentam que diversos fatores distinguem este momento de tentativas anteriores: a geopolítica regional em transformação, a situação em evolução na Síria e a necessidade de Erdoğan de estabilizar a fronteira sul para avançar com seus projetos de reconstrução econômica. Segundo essa interpretação, o desarmamento do PKK poderia abrir uma oportunidade genuína para a transição do conflito armado para a negociação política, e a sociedade civil curda deveria aproveitar essa oportunidade em vez de descartá-la completamente.
Este argumento merece consideração séria e não deve ser descartado como ingênuo. Mas enfrenta duas limitações importantes. Primeiro, mesmo que o cessar-fogo se mantenha, não há indícios claros de que o Estado turco esteja disposto a abordar a disparidade econômica estrutural entre o leste e o oeste por meio de uma redistribuição genuína de capital; sem isso, a reconciliação política por si só deixa intacta a desigualdade material que continua a alimentar a desconfiança. Segundo, o processo de paz de 2009-2015 mostrou que tais processos, enquanto permanecerem atrelados aos cálculos eleitorais ou de segurança de Erdoğan, podem ser revertidos tão rapidamente quanto começaram. A abertura atual, portanto, justifica um otimismo cauteloso, não uma confiança plena.
Chegou ao fim o papel da sociedade civil e dos partidos curdos?
A resposta curta é não, embora sua natureza precise ser redefinida. Se o processo de desarmamento e negociação avançar principalmente no nível das elites políticas — entre Erdoğan, Öcalan e a liderança do Movimento Democrático Curdo (DEM) — o risco real é que ele se reduza a um acordo restrito entre o governo central e a liderança curda, sem incorporar as demandas estruturais da sociedade curda: justiça econômica regional, educação na língua materna e a restauração da autonomia local. Nesse cenário, o papel da sociedade civil curda e da esquerda turca não diminui; pelo contrário, torna-se precisamente o de monitorar e exercer pressão de baixo para cima para impedir tal redução.
Ao mesmo tempo, os partidos e movimentos curdos precisam superar o isolamento puramente étnico e reconstruir os laços de classe com os movimentos operários e democráticos do oeste da Turquia, que também sofreram com as políticas neoliberais do AKP: o mesmo projeto que o PKK reivindicou em sua fundação, embora na prática a repressão e a militarização da luta tenham acabado por confiná-la em grande parte a um quadro étnico.
Conclusão
A questão curda na Turquia é produto de três camadas convergentes: o legado fundacional de um Estado-nação homogeneizador; uma cadeia causal específica que liga o desenvolvimento desigual do capitalismo semiperiférico à concentração do poder estatal e, consequentemente, à securitização das regiões periféricas; e os imperativos geopolíticos de um momento em que a Turquia é simultaneamente membro da OTAN, ator regional e aspirante a influência na Síria pós-guerra. Dentro dessa estrutura, perguntar se Erdoğan pode e quer deixar para trás o legado de Atatürk é a pergunta errada: diferentemente de Atatürk, Erdoğan rompeu genuinamente com o kemalismo em um nível ideológico e, por um tempo, colocou seriamente a questão curda na agenda política. A questão mais pertinente é se a estrutura política e econômica da Turquia — sua dependência da reprodução do nacionalismo estatal para a legitimidade interna e da exportação de capital para a região — permite uma ruptura estrutural que vá além de gestos discursivos e episódicos. A experiência histórica sugere que essa dependência estrutural não é facilmente abandonada, nem mesmo sob o pretexto de reforma cultural ou negociações de paz.
O futuro da questão curda na Turquia não deve, portanto, estar atrelado a negociações entre elites ou à declarada boa vontade do Estado. Uma solução duradoura não reside na mudança de regime ou na substituição de uma coligação governante por outra, mas na reconstrução da solidariedade transnacional e de classe entre as forças sociais de base — o movimento operário turco, a sociedade civil curda e as redes internacionais de solidariedade — capazes de exigir tanto a redistribuição econômica quanto o reconhecimento político-cultural, sem se deixarem capturar pelos cálculos geopolíticos de curto prazo de uma potência semiperiférica.
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