
A separação entre experiência vivida e elaboração política é mediada por instituições e profissionais que concentram a palavra autorizada
1.
A comunicação pertence ao processo geral de reprodução da vida social e, por essa razão, acompanha as relações pelas quais os homens produzem sua existência, estabelecem vínculos, produzem suas instituições, distribuem funções e organizam o poder. Cada sociedade produz também seus mecanismos de elaboração, registro e transmissão da experiência acumulada, definindo quem dispõe das condições necessárias para falar publicamente, quais conhecimentos recebem legitimidade, quais acontecimentos merecem registro e quais interpretações entram no patrimônio comum de uma determinada época.
Sob o capitalismo, essas capacidades estão submetidas à divisão social do trabalho e à propriedade privada, reproduzindo no campo comunicacional as desigualdades existentes na produção material. A separação entre trabalhadores e meios de produção encontra correspondência na separação entre aqueles que vivem determinados conflitos e aqueles que dispõem dos instrumentos necessários para interpretá-los publicamente. A produção material e a produção social da interpretação estão, portanto, ligadas por relações de poder que atribuem a grupos distintos capacidades desiguais de interferência sobre aquilo que uma sociedade conhece de si mesma.
Essa divisão tem consequências políticas. O trabalhador produz riqueza, participa das relações econômicas que sustentam a sociedade, conhece concretamente a exploração, as pressões do trabalho, o custo da moradia, as dificuldades de transporte, o endividamento, o desemprego, a violência policial, a deterioração dos serviços públicos e as inúmeras estratégias necessárias à sobrevivência cotidiana, mas essa experiência não chega a encontrar meios próprios e permanentes de elaboração coletiva.
O conhecimento produzido no curso da existência está fragmentado, localizado, disperso entre milhões de indivíduos que enfrentam problemas semelhantes sem necessariamente reconhecê-los como componentes de uma mesma estrutura social. Entre a experiência vivida e sua elaboração política instala-se então uma extensa cadeia de mediações composta por jornalistas, pesquisadores, partidos, parlamentares, organizações, comentaristas, produtores culturais e, mais recentemente, influenciadores digitais, cada qual submetido a circuitos específicos de financiamento, prestígio, carreira e autoridade.
2.
A divisão capitalista do trabalho favorece esse processo. Jornadas extensas, deslocamentos cotidianos, insegurança profissional, precarização, desemprego intermitente e endividamento reduzem drasticamente o tempo disponível para estudo, reunião, pesquisa, produção cultural e atividade política. Ao mesmo tempo, determinados segmentos sociais concentram tempo, escolarização, recursos técnicos, acesso institucional, contatos e domínio dos códigos necessários à intervenção pública.
Essa desigualdade produz uma divisão intelectual que não decorre de qualquer incapacidade intrínseca dos trabalhadores, mas de condições materiais desiguais de participação na produção do conhecimento. A especialização comunicacional nasce dentro dessa divisão e rapidamente pode cristalizar posições de autoridade. O jornalista conhece os códigos da imprensa; o acadêmico domina uma linguagem legitimada pelas instituições científicas; o dirigente partidário dispõe dos contatos e estruturas de sua organização; o parlamentar tem acesso privilegiado aos meios; o influenciador controla uma audiência acumulada. Aos demais cabe frequentemente fornecer experiência, testemunho, voto, atenção e engajamento.
A transformação dessa diferença funcional em hierarquia política é um dos problemas fundamentais da comunicação contemporânea. O domínio técnico necessário à produção audiovisual, ao jornalismo, à pesquisa ou à administração de plataformas pode ser conhecimento socialmente útil, desde que esteja submetido ao controle coletivo e circule entre aqueles que participam do processo. Sob relações hierárquicas, porém, a especialização tende a se autonomizar e criar uma camada que administra a palavra pública.
A divisão entre concepção e execução, tão característica da produção capitalista, reaparece no interior da comunicação: alguns pensam, selecionam, editam, interpretam e decidem; outros fornecem matéria social para essa elaboração e recebem posteriormente o resultado acabado. A autonomia dos produtores depende também do controle dos meios, das decisões e da circulação daquilo que produzem; caso contrário, a independência continua restrita ao plano aparente.
Essa separação nos ajuda a compreender por que sociedades desiguais conseguem preservar por longos períodos determinadas interpretações do mundo mesmo diante de crises recorrentes. A dominação burguesa não depende de uma unanimidade ideológica absoluta. A própria burguesia tem suas frações determinadas pela concorrência entre capitais, disputas econômicas, interesses regionais, conflitos entre setores produtivos e financeiros e antagonismos no interior do bloco dominante.
Essa fragmentação, contudo, ocorre entre agentes que compartilham uma relação fundamental com a propriedade, a exploração do trabalho e a reprodução ampliada do capital. Existem instituições capazes de coordenar seus conflitos sem colocar em risco o princípio geral da ordem social: empresas, associações empresariais, bancos, aparelhos jurídicos, meios de comunicação, universidades, fundações, institutos privados, partidos e o próprio Estado.
A experiência histórica de aparelhos como IPES e IBAD, assim como a emergência posterior de organizações como MBL e Brasil Paralelo, demonstra que diferentes frações dominantes conseguem investir recursos consideráveis na produção de quadros, narrativas, filmes, pesquisas, campanhas e instrumentos de intervenção cultural quando percebem ameaças aos seus interesses.
3.
Entre os trabalhadores, a fragmentação tem consequências distintas. A classe se organiza por ocupações, regimes de contratação, territórios, níveis salariais, pertencimentos culturais, diferenças raciais, relações de gênero, gerações, religiões, trajetórias educacionais e inúmeras experiências particulares produzidas pela divisão capitalista do trabalho. Muitas dessas diferenças têm raízes materiais profundas e não podem ser dissolvidas por proclamações abstratas de unidade.
O problema central está na ausência de instituições autônomas capazes de elaborar essas experiências heterogêneas como partes de uma totalidade social comum. O capital dispõe de mecanismos para administrar seus conflitos internos; os trabalhadores frequentemente dependem de estruturas externas ou burocratizadas para estabelecer conexões entre suas próprias experiências. A fragmentação econômica encontra, assim, uma fragmentação comunicacional correspondente.
Essa condição ganhou intensidade com a expansão das plataformas digitais. A internet ampliou extraordinariamente a quantidade de pessoas capazes de emitir mensagens publicamente, mas essa multiplicação de emissores ocorreu dentro de uma infraestrutura concentrada em poucas corporações. A capacidade técnica de publicar uma mensagem disseminou-se enquanto distribuição, visibilidade, armazenamento, monetização, coleta de dados e ordenamento da atenção continuam sob controle de centros privados de poder.
Cada indivíduo dispõe de seu meio de comunicação enquanto todos dependem de sistemas que não controlam. A contradição é relevante porque produz uma experiência subjetiva de autonomia no interior de uma estrutura altamente centralizada. O usuário fala, comenta, publica e compartilha, mas sua atividade alimenta simultaneamente bancos de dados, métricas comerciais, sistemas publicitários e mecanismos de segmentação que pertencem às empresas responsáveis pela infraestrutura.
4.
O desenvolvimento desse modelo alterou também os critérios de autoridade política. A audiência acumulada começou a funcionar como índice de relevância, e números de seguidores, visualizações e engajamento ganhou peso crescente na definição de quem merece ser ouvido. O mecanismo contém uma circularidade poderosa: aquele que tem visibilidade recebe novos convites, participa de grandes canais, amplia suas relações, fortalece sua autoridade e ganha ainda maior visibilidade.
Quem está em circuitos menores encontra obstáculos crescentes para interferir sobre o debate público, independentemente da consistência de sua elaboração fazendo com que a métrica digital tenha o lugar da inserção concreta nas lutas sociais como critério de autoridade política. O algoritmo integra uma estrutura anterior à internet: a concentração desigual da capacidade social de falar e ser reconhecido.
A comunicação vinculada às esquerdas incorporou amplamente essa racionalidade. O desenvolvimento tecnológico ofertou novos recursos à velha estrutura da representação política, aproximando dirigentes e audiência sem alterar necessariamente a posição ocupada pelos sujeitos dentro da relação. O parlamentar transmite ao vivo; o intelectual mantém canais próprios; o partido atua em redes sociais; o militante profissional transforma análise política em produção diária de conteúdo; o público comenta, compartilha, financia e acompanha.
A proximidade aparente pode esconder uma separação persistente entre produção da orientação política e participação na elaboração dessa orientação. A velha reunião de cúpula encontra novos meios de difusão, a propaganda partidária assume linguagem audiovisual contemporânea e o profissional da política aprende a administrar comunidades digitais. A tecnologia aperfeiçoa a circulação sem resolver o problema da autonomia, sendo, portanto, necessário promover a crítica da comunicação, que encontra a crítica da organização.
Uma estrutura política baseada na separação entre dirigentes e dirigidos produzirá uma comunicação compatível com essa divisão; uma organização cujo centro reside na representação eleitoral tenderá a tratar comunicação como propaganda, construção de imagem, disputa de narrativa e mobilização periódica da base; uma organização que depende do protagonismo de determinadas personalidades tenderá a concentrar recursos comunicacionais nessas figuras; uma estrutura orientada pela competição eleitoral buscará alcance, persuasão e reconhecimento público.
O modelo comunicacional expressa, portanto, o tipo de relação política que o sustenta. Sua verticalidade tem raízes organizacionais e sociais muito mais profundas do que escolhas estéticas ou técnicas. Esse é um dos pontos presentes na crítica ao circuito do webcomunismo e da chamada esquerda radical, onde a linguagem revolucionária pode conviver com práticas comunicacionais assentadas na autoridade individual, na audiência e na integração institucional.
5.
A questão ganha maior gravidade porque a comunicação participa da constituição do sujeito político. Quem está na posição de receptor aprende a reconhecer outros como produtores legítimos da interpretação, podendo concordar, discordar, comentar ou abandonar determinado canal, mas continua situado diante de uma estrutura já pronta fazendo com que experiências desse tipo produzam hábitos políticos como esperar que alguém explique a conjuntura, interprete uma eleição, diga quais acontecimentos são relevantes, apresente os inimigos, estabeleça prioridades e ofereça alguma projeção sobre o futuro.
A dependência comunicacional encontra assim a dependência política. A ausência de organizações próprias aumenta a demanda por representantes, enquanto a presença contínua de representantes enfraquece a necessidade social de construir instrumentos autônomos o que nos leva a entender a força contemporânea dos gurus, influenciadores, especialistas e personalidades políticas.
Em períodos marcados pela deterioração das referências coletivas, esses indivíduos oferecem coerência a experiências sociais fragmentadas. Sua eficácia deriva da existência real de uma demanda por interpretação em uma sociedade na qual milhões de pessoas carecem de meios coletivos para elaborar aquilo que vivem. A autoridade personalizada ocupa o espaço deixado pelo enfraquecimento das instituições autônomas dos trabalhadores.
Por isso, qualquer discussão séria sobre comunicação popular precisa começar antes da mensagem, do canal ou da tecnologia. Seu problema inicial são as relações sociais que estabelecem quem dispõe da capacidade de produzir conhecimento público e quem depende da interpretação produzida por outros. A democratização técnica do acesso à emissão é apenas uma dimensão dessa questão. Controle dos meios, tempo disponível, formação, propriedade, financiamento, organização, poder decisório, circulação e memória precisam ser examinados como elementos de um mesmo processo.
Uma comunicação vinculada à emancipação dos trabalhadores terá de enfrentar essa divisão em sua estrutura, sob o risco de reproduzir internamente aquilo que pretende combater.
É nesse ponto que a pergunta sobre a comunicação popular deixa de ser uma discussão abstrata sobre linguagem ou conteúdo e assume caráter organizacional. Se trabalhadores devem ser os sujeitos de sua própria emancipação, precisam também conquistar capacidade coletiva para conhecer, interpretar, registrar e comunicar sua experiência histórica.
A produção da consciência integra o processo pelo qual uma classe fragmentada pode reconhecer relações comuns, elaborar divergências, acumular memória, produzir critérios de decisão e construir poder próprio. A comunicação popular começa precisamente nesse problema: quem produz a interpretação da experiência dos trabalhadores e sob controle de quem essa interpretação circula?
*Arthur Moura é doutorando em História Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
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