O que é o Eixo da Resistência

Teerã, IrãCRÉDITO: MAJID ASGARIPOUR/WANA VIA REUTERS


Até agora, o Irã e seus aliados estão conseguindo obter uma vitória relativa significativa
Com a guerra envolvendo o Irã, a imprensa passou a mencionar com mais frequência o termo “Eixo da Resistência”. A expressão se refere a uma aliança informal articulada pelo Irã no Oriente Médio, que reúne grupos, movimentos, milícias e organizações que controlam partes de territórios em diferentes países da região.

A origem do conceito remonta ao jornal líbio Al-Zahf Al-Akhdar, que publicou um artigo quando os Estados Unidos ainda eram governados por George W. Bush. O presidente norte-americano e outros integrantes de seu governo utilizavam a expressão “eixo do mal” para se referir a países como Iraque, Irã e Coreia do Norte. O termo chegou, inclusive, a ser incorporado à Política de Defesa encaminhada por Bush ao Congresso dos Estados Unidos.

Ao contestar o conceito formulado pelo governo norte-americano, o jornal líbio publicou um artigo com o título “Eixo do mal ou Eixo da Resistência?”. A partir de então, o conceito de “Eixo da Resistência” passou a ser adotado pelo Irã, pela Síria e por outros movimentos do Oriente Médio. O Irã assumiu a articulação dessa aliança, que conferiu ao país um significativo poder geopolítico. O objetivo do Eixo da Resistência consiste em combater a influência de Israel e dos Estados Unidos na região.

O Eixo da Resistência é composto pelo Irã, Hezbollah, Hamas e outros grupos palestinos, Houthis e milícias que atuam no Iraque e na Síria. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, essa aliança não possui unidade religiosa ou ideológica, e seus integrantes não são meras marionetes do Irã. Trata-se de uma aliança de natureza política e estratégica: seus integrantes consideram Israel um Estado sionista ilegítimo, apoiam a causa palestina e defendem a redução ou o fim da influência dos Estados Unidos na região.

Na atual guerra, o Irã surpreendeu os Estados Unidos e o mundo não apenas por sua capacidade de resistência, mas também pelo poder de contra-ataque, infligindo pesada destruição às bases norte-americanas localizadas em países vizinhos. Analistas militares de grande projeção consideram que conquistar militarmente o Irã seria uma missão quase impossível.

Entre os fatores que pesam em favor do país estão sua geografia, marcada por montanhas e desertos; sua localização estratégica, conectando três continentes; seus recursos estratégicos, como fontes de energia, minérios e gás; o Estreito de Ormuz, por onde flui 17% do petróleo mundial; o acesso a três mares; e sua história e cultura, fatores que contribuem para garantir a unidade nacional.

As forças militares do Irã são constituídas por dois pilares principais e reúnem cerca de 650 mil soldados. O primeiro é o Exército Regular, o Artesh, organizado nos moldes tradicionais, com forças terrestres, aéreas e marítimas orientadas para a proteção das fronteiras do país. O segundo é o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma força político-militar encarregada de proteger o regime.

Depois da decapitação das lideranças políticas e militares nos ataques de Israel e dos Estados Unidos em 2025, especula-se que atualmente o poder seja exercido pela Guarda Revolucionária.

Existe ainda a Força Quds, divisão encarregada de operações especiais no exterior, além da milícia paramilitar voluntária Basij, integrada por cerca de 90 mil homens na ativa e com capacidade de mobilização estimada entre 5 milhões e 10 milhões de pessoas.

A segunda principal força do Eixo da Resistência são os Houthis, grupo xiita dissidente que, do ponto de vista doutrinário e jurídico, está mais distante dos xiitas do Irã e mais próximo dos sunitas. Os Houthis possuem uma história que remonta às origens do islamismo. Controlam uma parcela importante do território do Iêmen, incluindo a capital, e são combatidos pela Arábia Saudita e pelas monarquias do Golfo, além de estarem envolvidos em uma guerra civil.

Seu poder de fogo é considerável. Com cerca de 350 mil combatentes, demonstraram capacidade de atingir o território de Israel e navios militares dos Estados Unidos que operam na região. Suas forças armadas têm caráter misto, combinando estruturas institucionais e milícias armadas. Possuem um Exército terrestre, uma Força Aérea não tripulada, organizada em uma Divisão de Drones, além de Força Aérea, Defesa Aérea e Guarda Costeira.

Os Houthis adotam táticas de guerra irregular e possuem capacidade de fabricação de mísseis balísticos de precisão, drones kamikazes e mísseis de cruzeiro destinados a ataques contra navios. Também têm capacidade de paralisar a navegação pelo estratégico Estreito de Bab el-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico.

A terceira força militar em importância é o Hezbollah, que trava uma violenta guerra contra Israel no sul do Líbano. Depois de ter sua liderança decapitada pelos serviços de inteligência israelenses em 2025, o Hezbollah, que também possui um braço político atuante no Parlamento libanês, passou por um processo de reorganização que ampliou sua capacidade de resistência ao Exército de Israel.

Essa reorganização teria ocorrido sob supervisão direta do Irã e estaria assentada em três pilares. O primeiro é a descentralização, com células autônomas e independentes e unidades móveis de assalto, ampliando a capacidade para a guerra assimétrica. O segundo seria o controle direto do Irã após a decapitação da liderança. O terceiro é o abandono de tecnologias eletrônicas, reduzindo a capacidade de monitoramento por parte dos serviços de inteligência de Israel e aumentando a letalidade dos ataques com drones kamikazes, os UAVs.

Estimativas indicam que o Hezbollah teria cerca de 50 mil combatentes na ativa e outros 30 mil na reserva.

No Iraque, operam pelo menos cinco milícias paramilitares armadas agrupadas nas Forças de Mobilização Popular (FMP). Elas são treinadas e armadas pela Guarda Revolucionária do Irã. Estimativas indicam que as FMP contam com cerca de 140 mil pessoas envolvidas em suas organizações, 238 mil membros e aproximadamente 50 mil combatentes.

Além das milícias armadas, as FMP são integradas por organizações civis e políticas e possuem reconhecimento legal concedido pelo Parlamento iraquiano.

Na Síria, operam duas milícias pró-Irã: a Fatemiyoun, composta por afegãos xiitas, e a Zainabiyoun, integrada por combatentes xiitas paquistaneses. Tanto as FMP quanto o Hezbollah também realizam incursões armadas em território sírio.

Com o genocídio e a destruição de Gaza por parte de Israel, o Hamas sofreu perdas extremas, com milhares de combatentes mortos. O grupo dissolveu o governo e aceitou um acordo de desarmamento. Os dois processos ainda não foram concluídos e permanecem envolvidos em uma série de impasses. Hamas e Jihad Islâmica ainda teriam entre 10 mil e 25 mil combatentes em Gaza.

O Eixo da Resistência confere ao Irã uma extraordinária projeção de poder político e militar no Oriente Médio. O alcance geopolítico desse poder se estende da Ásia Central ao Mediterrâneo e ao Mar Vermelho. Trata-se de uma rede descentralizada formada por atores estatais e não estatais, que possuem um objetivo comum e, ao mesmo tempo, objetivos específicos, reunidos em uma aliança colaborativa.

A estratégia do Irã é baseada na defesa ativa, com forte influência em áreas extraterritoriais. A doutrina iraniana nunca teria sido a de iniciar uma guerra, mas a de saber defender-se atacando. Até agora, o Irã e seus aliados estão conseguindo obter uma vitória relativa significativa. Israel e os Estados Unidos estão pagando o preço de terem iniciado uma guerra criminosa e injustificável.

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