Tratar pipas empinadas por crianças como ameaças militares representa uma escalada perigosa na normalização da guerra assimétrica.
Bem acima das ruínas de concreto da Faixa de Gaza, o céu ocasionalmente se enche de cores. Em um lugar definido pela ocupação desumana de Israel, bloqueios e ataques aéreos, crianças juntam papel, plástico e gravetos para construir pipas simples. No entanto, até mesmo esse símbolo universal da infância foi arrastado para a arena da guerra.
Quando brinquedos improvisados são classificados como armas e alvos de ataques aéreos militares, a comunidade internacional não pode permanecer em silêncio. O mundo precisa se mobilizar urgentemente para proteger as crianças de Gaza e defender seu direito fundamental à infância.
No domingo, ataques aéreos israelenses visando o centro de Gaza atingiram um prédio em az-Zawayda, matando três pessoas — incluindo Mohammad Abdel-Salam Taha, de quatro anos. A justificativa oferecida pelas forças de ocupação para essas operações mortais? Uma diretiva de segurança que ordena que pipas de papel, balões e brinquedos improvisados lançados por crianças sejam tratados com a mesma força letal que drones de combate militares.
Para os sul-africanos, essa linguagem é assustadoramente familiar. Ela ecoa as eras sombrias do nosso próprio passado, quando o regime do apartheid classificava os estudantes que marchavam em Soweto como ameaças existenciais ao Estado. Quando o simples ato de brincar é designado como um ato de guerra, a comunidade internacional não pode ignorar.
Os principais meios de comunicação, a sociedade civil e os cidadãos comuns devem mobilizar-se urgentemente. Devemos defender as crianças de Gaza e proteger o seu direito fundamental à infância.
A decisão das autoridades israelenses de elevar as pipas à categoria de armas de guerra representa um novo e aterrador patamar na normalização da guerra assimétrica.
Fontes militares israelenses reconheceram que as diversas pipas recuperadas perto da fronteira não continham explosivos ou materiais suspeitos, não representando nenhum perigo físico para o público.
No entanto, o líder criminoso de guerra do regime colonialista, Benjamin Netanyahu, emitiu um ultimato: interromper os voos das pipas em três dias ou enfrentar ataques aéreos intensificados e evacuação em massa de civis.
Ao tratar um brinquedo infantil sob a mesma doutrina estratégica que um drone de vigilância avançado, as forças armadas de ocupação criam uma brecha legal para justificar o lançamento de munições de alto poder explosivo em bairros civis.
O resultado catastrófico foi o que testemunhamos no domingo: estilhaços e pedaços de concreto voando destruindo o refúgio improvisado de uma criança de quatro anos. Mohammad Taha não tinha noção de geopolítica nem de cercas de fronteira. Ele é apenas a vítima mais recente de um sistema que vê a mera presença de crianças palestinas como uma ameaça demográfica.
Como observou Basem Naim, alto funcionário do Hamas, essas crianças não estão realizando operações militares; elas estão empinando pipas “em busca de sua infância inocente em meio aos escombros”.
Como sul-africanos, nossa história nos oferece uma perspectiva moral única — e uma profunda responsabilidade — para chamar isso pelo que é: opressão sistemática disfarçada de segurança do Estado.
Sabemos o que significava quando o poder administrativo do regime do apartheid controlava todas as saídas, cortava o fornecimento de água e eletricidade e restringia a entrada de suprimentos médicos humanitários básicos. Compreendemos o impacto psicológico de um sistema concebido para fazer com que uma população se sentisse totalmente descartável.
Quando até o céu se transforma em uma zona de fogo livre, o último refúgio para uma fuga psicológica é arrancado da juventude de Gaza.
A comunidade internacional frequentemente aborda o direito internacional em termos clínicos e distantes. No entanto, os marcos humanitários internacionais, incluindo a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, garantem explicitamente às crianças o direito ao lazer, ao brincar e a um ambiente seguro.
Permanecer em silêncio e continuar a apoiar os crimes de guerra de Israel, como fazem a administração Trump e muitas potências globais, torna-os cúmplices na eliminação sistemática desses direitos fundamentais. O fornecimento de carvão pela África do Sul enquadra-se na mesma categoria e tem de ser interrompido com urgência.
De fato, esta crise impõe um fardo pesado sobre a mídia tradicional, particularmente na África do Sul. Por muito tempo, as redes de notícias globais têm se baseado em comunicados de imprensa militares higienizados, que obscurecem o sofrimento humano sob termos como “operações direcionadas” ou “medidas retaliatórias”. Os jornalistas têm a obrigação ética de ir além dessa retórica fria e calculista.
Devemos afirmar claramente que uma pipa de papel não é um drone, uma criança não é um combatente e um armazém em az-Zawayda não é uma fortaleza militar legítima.
Nossas próprias instituições locais também precisam se livrar da inércia. Da Cidade do Cabo a Joanesburgo, jornalistas, artistas e ativistas sul-africanos já se reuniram para soltar pipas com as cores da bandeira palestina em praias populares como Muizenberg, enviando uma mensagem de esperança e resistência compartilhadas através dos oceanos.
Mas gestos simbólicos por si só não impedirão as bombas.
As principais plataformas de mídia devem servir como amplificadores regulares do ativismo popular, garantindo que as histórias de famílias como a de Mohammad Taha sejam notícia de primeira página, e não notas de rodapé escondidas.
Os ventos que sopram pelas ruínas de Gaza carregam mais do que apenas papel e barbante; carregam um clamor universal por liberdade, paz e o direito fundamental de existir sem terror.
Uma criança empinando pipa não está praticando um ato de guerra. É um ato de sobrevivência. É o espírito humano se recusando a ser esmagado pelo peso da opressão. A África do Sul se levantou para desmantelar o apartheid em seu próprio território; agora devemos nos solidarizar firmemente com as crianças de Gaza, garantindo que suas vozes — e suas pipas — jamais sejam silenciadas para sempre.

– Iqbal Jassat é membro executivo da Media Review Network, organização sediada na África do Sul. Ele contribuiu com este artigo para o The Palestine Chronicle. Visite: www.mediareviewnet.com
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