O verdadeiro alvo do Escudo das Américas chama-se Brasil

Escudo das Américas: um acordo de (in)segurança - CRÉDITO: CASA BRANCA


Enquanto o governo Lula reconstrói corredores de integração e amplia a autonomia estratégica do país, Washington reorganiza uma arquitetura de segurança sobre essas mesmas rotas vitais para o Brasil


A entrada do Peru de Keiko Fujimori no Escudo das Américas revela muito mais do que uma nova aliança de segurança. Pela primeira vez, ganha forma institucional uma arquitetura que incide justamente sobre os portos, corredores, hidrovias, cabos e países que conectam o Brasil ao Pacífico, ao Atlântico e ao Sul Global. Este artigo demonstra por que a disputa já não é apenas contra cartéis ou contra a influência chinesa: ela é, sobretudo, pela capacidade de o Brasil decidir suas próprias saídas e converter sua posição geográfica em soberania, desenvolvimento e poder.

O fato que quase ninguém percebeu

Quando Keiko Fujimori assumiu a Presidência do Peru, em 28 de julho de 2026, e anunciou a aproximação de seu governo com os Estados Unidos, incluindo a intenção de integrar o país ao Escudo das Américas, a notícia foi tratada como mais um movimento da nova correlação de forças na América Latina. A maioria das análises concentrou-se na mudança de orientação política em Lima ou na promessa de ampliar a cooperação contra cartéis, narcotráfico e organizações classificadas como terroristas. Mas essa leitura deixa escapar justamente o aspecto mais importante da história. O que está em jogo não é apenas uma nova aliança de segurança nem uma mudança de governo no Peru. O que começa a se reorganizar é a arquitetura geopolítica sobre um dos espaços mais estratégicos para o futuro do Brasil.

O Peru deixou de ser apenas um país vizinho para ocupar uma posição decisiva na disputa pela reorganização dos fluxos globais. Em seu litoral está Chancay, o porto que aproxima a América do Sul da Ásia e que passou a integrar um dos principais projetos de infraestrutura do continente. Ao mesmo tempo, é justamente por território peruano que passam corredores considerados fundamentais para a estratégia brasileira de integração sul-americana, de acesso ao Oceano Pacífico e de redução da dependência das rotas tradicionais do comércio internacional. Em outras palavras, o país que anuncia sua entrada na nova arquitetura de segurança liderada por Washington é o mesmo que ocupa uma posição central em um projeto logístico que interessa profundamente ao Brasil e que também possui enorme relevância para a estratégia chinesa.

Essa coincidência é grande demais para ser tratada como coincidência. Ela revela uma transformação muito mais profunda do que a cobertura jornalística tem sido capaz de enxergar. O Escudo das Américas não começa a se expandir sobre territórios aleatórios. Ele avança precisamente sobre corredores, portos, infraestruturas e pontos de circulação que ganharam importância crescente na disputa entre Estados Unidos e China e, sobretudo, no esforço brasileiro de transformar sua posição geográfica em uma vantagem estratégica. É exatamente nesse ponto que a pergunta muda completamente de sentido. A questão já não é por que o Peru decidiu aproximar-se de Washington. A verdadeira questão é por que essa aproximação ocorre justamente sobre uma das principais portas de saída do projeto de integração continental que o Brasil voltou a construir durante o governo Lula.

É a partir dessa mudança de perspectiva que este artigo deve ser lido. Porque, quando observamos o mapa por esse ângulo, o Escudo das Américas deixa de parecer apenas uma coalizão voltada ao combate ao narcotráfico. Ele passa a revelar algo muito maior: uma disputa crescente sobre quem controlará as rotas, os fluxos e as infraestruturas que definirão a capacidade do Brasil de se projetar como potência regional e global nas próximas décadas.

O Escudo nasceu para combater cartéis. Mas nunca foi apenas sobre cartéis

Todo projeto de poder precisa de uma linguagem capaz de produzir consenso antes de produzir obediência. Nenhuma grande arquitetura geopolítica nasce dizendo exatamente quais interesses pretende proteger. Ela surge amparada por uma causa moral suficientemente forte para reduzir resistências, organizar alianças e transformar medidas extraordinárias em respostas aparentemente inevitáveis. Foi assim com a guerra ao terror depois de 11 de setembro. Foi assim com inúmeras intervenções militares apresentadas como missões humanitárias. E é assim que nasce o Escudo das Américas.

Sua narrativa oficial é simples e eficaz. Diante da expansão do narcotráfico, do crime organizado transnacional e de organizações classificadas como terroristas, os países do continente precisariam integrar inteligência, ampliar a cooperação militar, compartilhar informações e coordenar operações de segurança. O problema é que essa explicação, embora contenha elementos reais, torna-se insuficiente quando confrontada com a própria materialidade do projeto. Se o objetivo fosse exclusivamente enfrentar cartéis, a prioridade natural seria reunir justamente os maiores Estados do continente, aqueles que concentram as principais fronteiras, capacidades militares, sistemas de inteligência e estruturas policiais. Não foi isso que aconteceu. O Brasil permaneceu fora. O México permaneceu fora. A Colômbia, peça central na política antidrogas hemisférica durante décadas, também não integrou a arquitetura inicial. A seleção dos participantes revela que o critério decisivo não foi apenas operacional. Foi político.

Essa constatação muda completamente o problema. O combate ao crime organizado continua existindo, mas deixa de ser suficiente para explicar a arquitetura construída por Washington. O Escudo passa a cumprir uma função muito mais ampla: reorganizar uma coalizão de segurança composta por governos politicamente alinhados à extrema-direita, integrada por sistemas de inteligência, interoperabilidade militar e crescente capacidade de atuação sobre infraestruturas críticas do continente. O cartel permanece no discurso. Mas o espaço efetivamente reorganizado passa a incluir portos, corredores logísticos, comunicações, cabos submarinos, tecnologias estratégicas, cadeias de suprimento e pontos de circulação que interessam muito além da segurança pública.

É justamente nesse deslocamento que reside a verdadeira novidade histórica. O narcotráfico não desaparece; ele fornece a legitimidade inicial. A segurança continua sendo uma necessidade real dos Estados, mas passa a funcionar também como a linguagem política capaz de justificar uma arquitetura muito mais ampla de reorganização do poder continental. Quando isso acontece, a categoria de “ameaça” deixa de se limitar às organizações criminosas e torna-se suficientemente elástica para incorporar, pouco a pouco, infraestruturas críticas, empresas estratégicas, tecnologias, corredores logísticos e até governos considerados obstáculos aos interesses geopolíticos de Washington.

A própria deterioração recente das relações entre Estados Unidos e Brasil ajuda a compreender esse movimento. Em julho de 2026, Marco Rubio acusou publicamente o governo Lula de não negociar “de boa-fé” e de colocar interesses políticos acima dos interesses nacionais, enquanto autoridades brasileiras responderam afirmando que Washington exigia, na prática, uma “capitulação” do país nas negociações comerciais. Mais do que um episódio diplomático, o caso revela uma mudança de percepção estratégica: um Brasil que volta a defender autonomia, integração regional, aproximação com a Ásia e fortalecimento dos BRICS deixa de ser apenas um parceiro difícil e passa a ser tratado como um ator cuja capacidade de decisão precisa ser condicionada.

A história mostra que grandes potências raramente controlam espaços apenas pela ocupação militar. Antes disso, procuram controlar os critérios pelos quais determinados países, governos, tecnologias e rotas passam a ser classificados como confiáveis, inseguros, legítimos ou problemáticos. É nesse terreno, muito antes de qualquer confronto aberto, que se trava a disputa pela soberania.

É por isso que o Escudo das Américas não deve ser analisado apenas como uma política de segurança. Ele representa a construção de uma infraestrutura política capaz de decidir, no futuro, quem circula, por onde circula, sob quais condições e segundo quais interesses. O cartel foi a porta de entrada. Mas a disputa nunca esteve confinada ao combate ao crime. Ela começa exatamente no momento em que a segurança deixa de ser apenas proteção e passa a se tornar um instrumento de reorganização do poder continental.

Por que o Brasil passou a ser um problema estratégico

Toda grande potência procura impedir o surgimento de outra potência capaz de reduzir sua margem de decisão. Essa é uma das constantes da história das relações internacionais, muito antes da Guerra Fria, da ascensão da China ou mesmo da formação da ordem internacional contemporânea. O poder nunca disputa apenas territórios. Disputa, sobretudo, a capacidade dos outros Estados de construir autonomia. É exatamente nesse ponto que o Brasil volta a ocupar uma posição singular no cenário mundial.

O Brasil não representa uma ameaça militar direta aos Estados Unidos. Não possui armas nucleares. Não mantém uma política externa de confrontação permanente. Não projeta força militar sobre outras regiões do planeta nem construiu sua influência internacional pela ocupação de territórios. Sua força nasce de outra combinação de fatores, muito mais rara e, justamente por isso, muito mais difícil de neutralizar. Poucos países concentram simultaneamente um território continental, abundância de água doce, produção de alimentos em escala global, reservas estratégicas de petróleo e minerais, uma das maiores biodiversidades do planeta, uma base industrial ainda relevante, um vasto mercado interno e capacidade de dialogar com praticamente todos os polos do sistema internacional. O Brasil não é uma potência porque possui capacidade de impor sua vontade ao mundo. É uma potência porque reúne condições objetivas para construir um projeto próprio de desenvolvimento e exercer influência regional e global sem depender integralmente de qualquer outra potência.

Foi exatamente essa capacidade que voltou a ganhar densidade durante o terceiro governo Lula. A retomada da integração sul-americana, a reconstrução das relações com os BRICS, a ampliação dos vínculos com a China, a defesa de reformas na governança internacional, o fortalecimento da política externa ativa e a criação das Rotas de Integração Sul-Americana recolocaram o Brasil em movimento. Pela primeira vez em muitos anos, o país voltou a atuar como formulador de um projeto regional, e não apenas como participante da ordem existente. Não se trata de concordar ou discordar das escolhas do governo. O dado estratégico é outro: um Brasil que volta a pensar infraestrutura continental, corredores bioceânicos, soberania tecnológica e integração econômica amplia sua capacidade de decisão no sistema internacional.

É justamente aí que o Escudo das Américas encontra seu principal limite e, ao mesmo tempo, sua principal razão de existir. Diferentemente de países cuja inserção internacional depende quase exclusivamente da proteção norte-americana, o Brasil possui margem para diversificar parceiros, ampliar mercados, construir infraestrutura própria e articular interesses regionais. Essa autonomia relativa reduz a capacidade de qualquer potência exercer poder de veto permanente sobre suas decisões estratégicas. Não por acaso, a tensão entre Brasília e Washington se intensificou justamente quando o governo brasileiro voltou a defender uma política externa soberana e recusou subordinar seus interesses nacionais às prioridades geopolíticas norte-americanas. As declarações recentes de integrantes do governo Trump, classificando o Brasil como um parceiro que não agiria de maneira confiável e elevando o tom das críticas ao governo Lula, não podem ser lidas apenas como episódios diplomáticos. Elas refletem uma mudança mais profunda: aos olhos de Washington, o problema deixou de ser apenas o comportamento de um governo. Passou a ser a possibilidade de o Brasil voltar a exercer plenamente sua condição de potência regional com capacidade de influenciar os rumos da América do Sul e dialogar de forma autônoma com um mundo cada vez mais multipolar.

É por isso que reduzir o Escudo das Américas a uma simples política de segurança significa ignorar sua dimensão estratégica. A disputa que começa a se desenhar no continente não ocorre apenas contra cartéis ou contra a presença chinesa. Ela ocorre, sobretudo, em torno da capacidade de o Brasil transformar sua geografia, sua economia, sua infraestrutura e sua posição internacional em poder político. Quando uma potência busca ampliar sua influência sobre os corredores, os portos, as comunicações e os sistemas pelos quais outro país se conecta ao mundo, o objetivo final dificilmente é apenas proteger fronteiras. É condicionar a liberdade de decisão desse país. No caso brasileiro, essa liberdade tem um nome muito claro: soberania.

O Escudo das Américas não cerca territórios. Cerca saídas

Durante séculos, o poder das grandes potências foi medido pela capacidade de ocupar territórios. Exércitos avançavam, fronteiras eram redesenhadas e bandeiras substituíam bandeiras. A guerra do século XXI, entretanto, tornou essa lógica insuficiente. No mundo das cadeias globais de produção, da logística integrada, das comunicações instantâneas e das finanças digitalizadas, controlar um território passou a ser menos importante do que controlar os caminhos pelos quais ele se conecta ao restante do planeta. A disputa deixou de ocorrer apenas sobre o espaço físico. Ela passou a ocorrer sobre os fluxos que mantêm esse espaço funcionando.

É exatamente por isso que o Escudo das Américas representa uma mudança qualitativa na estratégia hemisférica dos Estados Unidos. Seu objetivo não precisa ser ocupar o território brasileiro nem estabelecer bases militares ao longo de nossas fronteiras. Basta ampliar influência política, militar, tecnológica e normativa sobre os corredores, os portos, as hidrovias, os cabos submarinos, os sistemas de comunicação, as plataformas digitais e as infraestruturas pelas quais circulam mercadorias, energia, capitais, dados e decisões estratégicas. Na guerra contemporânea, quem condiciona os fluxos condiciona também a capacidade de desenvolvimento daqueles que dependem deles.

É justamente nesse ponto que as cinco Rotas de Integração Sul-Americana deixam de ser apenas um programa de infraestrutura e passam a ocupar posição central na geopolítica do século XXI. Elas representam a tentativa brasileira de romper uma vulnerabilidade histórica: depender de poucos corredores de exportação e de poucas alternativas de inserção internacional. Ao conectar o Centro-Oeste, a Amazônia, o Norte e o Sul do país aos portos do Pacífico, ao Caribe e aos mercados asiáticos, essas rotas ampliam a liberdade de escolha do Brasil. Quanto maior a quantidade de caminhos disponíveis, menor a capacidade de qualquer potência exercer poder de veto sobre a economia brasileira.

É justamente sobre esses mesmos espaços que o Escudo começa a projetar sua arquitetura. O Peru aproxima-se da coalizão ao mesmo tempo em que abriga Chancay, principal alternativa brasileira de acesso ao Pacífico. O Panamá torna-se peça-chave na disputa pelo principal gargalo marítimo do continente. O Equador aprofunda sua cooperação militar com Washington. A Guiana adquire importância crescente na fachada atlântica da América do Sul. O Paraguai e a Bolívia permanecem decisivos para os corredores bioceânicos. Observados isoladamente, esses movimentos parecem acontecimentos independentes. Observados em conjunto, revelam um desenho muito mais coerente: a crescente incidência da arquitetura de segurança norte-americana sobre os pontos pelos quais o Brasil procura ampliar sua circulação internacional.

Esse tipo de poder raramente se manifesta de forma espetacular. Ele aparece por meio de acordos de segurança, protocolos de interoperabilidade, compartilhamento de inteligência, certificações portuárias, normas técnicas, inspeções, seguros, padrões tecnológicos, regimes de sanções e mecanismos de financiamento. Nenhum porto precisa ser fechado para deixar de ser plenamente livre. Nenhuma ferrovia precisa ser destruída para perder competitividade. Nenhum corredor precisa ser interditado militarmente para tornar-se economicamente menos viável. Basta que aumentem seus custos, seus riscos, sua imprevisibilidade ou sua dependência de autorizações externas. Na guerra dos fluxos, a burocracia pode produzir efeitos que, em outros tempos, dependeriam de uma esquadra.

É por isso que interpretar o Escudo das Américas apenas como uma coalizão militar significa olhar para o lugar errado. O centro da disputa já não é o território. É a capacidade de definir quem circula, por onde circula, em quais condições circula e sob quais regras circula. Em outras palavras, a disputa deixou de ser apenas pelo mapa da América. Passou a ser pelo mapa das possibilidades do Brasil. Porque um país pode preservar integralmente suas fronteiras e, ainda assim, perder parte de sua soberania se deixar que outros decidam como suas riquezas, seus dados, sua produção e seu comércio alcançarão o mundo.

A guerra já não é pelo território. É pela capacidade de decidir

Existe um erro recorrente na forma como parte da imprensa e até mesmo muitos analistas interpretam a geopolítica contemporânea. Ainda procuram identificar a guerra apenas quando aparecem tanques, bombardeios ou ocupações militares. Mas as grandes disputas entre potências mudaram profundamente de natureza. Hoje, o objetivo principal já não é conquistar territórios. É reduzir a capacidade de decisão dos Estados considerados estratégicos. Um país pode preservar todas as suas fronteiras, manter suas instituições funcionando e continuar realizando eleições periódicas. Ainda assim, pode perder gradualmente sua autonomia se deixar que outros passem a controlar as condições materiais pelas quais sua economia, sua tecnologia, sua infraestrutura e sua política externa se conectam ao mundo.

É precisamente essa lógica que torna o Escudo das Américas um fenômeno muito maior do que uma aliança de segurança. Sob o argumento legítimo de combater cartéis, organizações criminosas e ameaças transnacionais, consolida-se uma arquitetura capaz de ampliar influência sobre corredores logísticos, infraestruturas críticas, sistemas de inteligência, fluxos financeiros, comunicações e padrões tecnológicos. A segurança deixa de ser apenas uma política pública. Ela passa a funcionar também como critério de autorização. Quem define o que representa risco passa, pouco a pouco, a influenciar quem pode financiar, operar, transportar, investir, compartilhar tecnologia ou participar das grandes cadeias internacionais de circulação.

Essa transformação produz uma consequência decisiva para países como o Brasil. Nossa vulnerabilidade já não depende apenas da capacidade de defender fronteiras ou ampliar efetivos militares. Ela depende da capacidade de manter sob decisão nacional os sistemas que permitem ao país produzir, exportar, inovar, financiar seu desenvolvimento e construir relações internacionais segundo seus próprios interesses. Quando um porto pode ser classificado como inseguro, uma empresa considerada inconveniente, uma tecnologia transformada em ameaça ou uma rota submetida a custos e restrições crescentes, a disputa já deixou o campo exclusivamente militar. Ela passou a atuar sobre a própria liberdade de planejamento do Estado brasileiro.

É exatamente por isso que a soberania, no século XXI, precisa ser compreendida de forma muito mais ampla do que a tradição costuma ensinar. Não basta controlar o território. É preciso controlar as condições pelas quais esse território se relaciona com o restante do planeta. Isso inclui portos, cabos submarinos, satélites, data centers, sistemas de pagamento, inteligência artificial, infraestrutura energética, corredores bioceânicos, cadeias industriais e capacidade tecnológica. Quem depende integralmente das decisões de terceiros sobre esses sistemas conserva a aparência de soberania, mas perde, progressivamente, a capacidade de definir seu próprio futuro.

É nesse contexto que o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países possuem, simultaneamente, recursos naturais, mercado interno, capacidade industrial, produção de alimentos, energia, posição geográfica e densidade diplomática suficientes para construir um projeto relativamente autônomo de desenvolvimento. Essa é precisamente sua maior força, mas também sua maior exposição. Quanto maior a possibilidade de um país oferecer alternativas de integração, comércio, financiamento e cooperação, maior tende a ser a pressão exercida por aqueles que desejam preservar estruturas internacionais de poder já estabelecidas.

A verdadeira disputa aberta pelo Escudo das Américas, portanto, não é apenas sobre segurança continental. É sobre quem terá autoridade para definir as condições de funcionamento das rotas, dos fluxos e das infraestruturas que sustentarão o desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas. Porque, no mundo contemporâneo, quem controla as condições da circulação controla, em grande medida, as possibilidades da soberania.

O maior problema do Escudo chama-se realidade

Todo projeto geopolítico procura apresentar-se como inevitável. A inevitabilidade produz conformismo, reduz a capacidade de reação e faz parecer que determinados processos históricos já chegaram ao seu resultado final. O Escudo das Américas procura transmitir exatamente essa impressão: a de que uma nova arquitetura hemisférica já estaria consolidada sob liderança norte-americana e de que caberia aos demais países apenas adaptar-se à nova realidade. Mas a geopolítica raramente funciona dessa maneira. Nenhuma arquitetura estratégica se sustenta apenas pela vontade de quem a projeta. Ela precisa encontrar correspondência na realidade material sobre a qual pretende operar. E é justamente aí que começam as maiores fragilidades do Escudo.

A primeira delas é econômica. Os mesmos países que hoje aproximam suas estruturas de segurança de Washington mantêm, em muitos casos, relações econômicas profundas com a China. O Peru dificilmente pode pensar seu futuro sem o mercado chinês para seus minerais e sem os investimentos que transformaram Chancay em uma das principais portas de entrada da América do Sul para a Ásia. O Chile possui na China seu principal parceiro comercial. O Brasil construiu, ao longo de quase duas décadas, uma relação econômica estrutural com Pequim, que hoje alcança agricultura, mineração, energia, infraestrutura e tecnologia. Mesmo países politicamente alinhados aos Estados Unidos continuam profundamente integrados a cadeias produtivas que têm na Ásia um de seus principais motores. Isso significa que a arquitetura de segurança proposta por Washington não encontra uma arquitetura econômica equivalente capaz de substituí-la.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente quando observamos o próprio Brasil. Diferentemente de outras economias da região, o país não representa apenas um mercado consumidor ou um fornecedor de matérias-primas. O Brasil possui escala territorial, população, produção de alimentos, recursos energéticos, capacidade industrial, sistema financeiro, instituições científicas e posição geográfica suficientes para influenciar a organização econômica de toda a América do Sul. Nenhuma estratégia voltada para reorganizar o continente pode ignorar esse dado. Por isso, o maior desafio do Escudo não é convencer governos. É neutralizar a capacidade brasileira de oferecer aos países vizinhos um projeto de integração que seja economicamente mais atraente, logisticamente mais eficiente e politicamente mais autônomo do que uma simples arquitetura de segurança.

É exatamente por isso que o Brasil não deve interpretar o momento atual apenas como uma ameaça. Existe também uma oportunidade histórica. Quanto mais o mundo se torna multipolar, menor tende a ser a capacidade de qualquer potência impor sozinha sua vontade ao restante do sistema internacional. A crescente presença econômica da China, a consolidação dos BRICS, a reorganização das cadeias globais de produção, a busca por novas moedas de comércio internacional e a necessidade crescente de alimentos, energia e minerais ampliam a importância estratégica de países capazes de produzir estabilidade e oferecer alternativas de integração. O Brasil reúne praticamente todas essas condições. Sua força não nasce da capacidade de coerção. Nasce da capacidade de articular interesses.

Essa talvez seja a diferença mais importante entre uma potência militar e uma potência civilizacional. A primeira amplia sua influência pela imposição. A segunda amplia sua influência porque outros países encontram vantagem objetiva em cooperar com ela. O Brasil possui condições materiais para construir essa segunda forma de poder, desde que seja capaz de combinar infraestrutura, ciência, indústria, diplomacia, integração regional e soberania tecnológica em um mesmo projeto nacional. É exatamente essa possibilidade que torna o país um ator estratégico e, ao mesmo tempo, o maior limite para qualquer tentativa de reorganizar a América do Sul exclusivamente a partir dos interesses de uma potência externa.

O futuro do continente, portanto, permanece em aberto. O Escudo das Américas é um movimento importante, mas está longe de representar um desfecho. Seu sucesso dependerá da capacidade de convencer economias profundamente conectadas entre si a romper relações construídas ao longo de décadas e substituir uma integração material já existente por uma arquitetura baseada prioritariamente na lógica da segurança. É justamente aí que reside sua maior vulnerabilidade. A história demonstra que nenhuma estratégia geopolítica consegue permanecer por muito tempo quando entra em conflito permanente com as necessidades econômicas e os interesses concretos dos próprios países que pretende organizar.

A janela estratégica do Brasil não permanecerá aberta para sempre

Existe um equívoco recorrente na tradição política brasileira. Durante décadas, acostumamo-nos a imaginar que nossas vantagens geográficas eram permanentes e que nossos recursos naturais, nosso mercado interno e nossa dimensão territorial bastariam para garantir relevância internacional. A história recente demonstra exatamente o contrário. Nenhuma riqueza produz poder por si mesma. Ela só se transforma em poder quando existe um projeto nacional capaz de organizá-la. Sem estratégia, até mesmo a maior abundância converte-se em dependência.

O Brasil reúne praticamente todas as condições objetivas para ocupar uma posição singular no século XXI. É uma das maiores potências agrícolas do planeta, possui enormes reservas de petróleo, minerais estratégicos e água doce, controla uma extensa fachada atlântica, participa diretamente da Amazônia, abriga um dos maiores mercados internos do mundo e ocupa uma posição geográfica privilegiada entre o Atlântico, o Pacífico e a África. Poucos países concentram, ao mesmo tempo, tamanho potencial econômico, energético, ambiental, científico e logístico. Mas potencial não é destino. A história das nações mostra que a distância entre possuir recursos e transformá-los em soberania costuma ser preenchida pela política.

É exatamente essa transformação que passa a preocupar as grandes potências. O problema nunca foi o Brasil exportar soja, minério ou petróleo. O problema surge quando o país começa a utilizar essas riquezas para financiar infraestrutura, ampliar sua capacidade industrial, integrar a América do Sul, construir corredores bioceânicos, fortalecer sua base tecnológica, ampliar sua presença diplomática e reduzir vulnerabilidades históricas. Em outras palavras, o conflito não nasce da existência das riquezas brasileiras. Nasce da possibilidade de elas serem organizadas dentro de um projeto nacional de desenvolvimento.

É por isso que o tempo se transforma em fator estratégico. As cinco Rotas de Integração Sul-Americana, os investimentos em infraestrutura, a aproximação entre Brasil e Ásia, o fortalecimento dos BRICS, a defesa da soberania tecnológica e a reconstrução da integração regional não são políticas isoladas. Juntas, elas representam a abertura de uma janela histórica rara. Quanto mais essas iniciativas avançarem, maior será a capacidade brasileira de diversificar parceiros, reduzir dependências e ampliar sua liberdade de decisão. Da mesma forma, quanto mais demorarem a consolidar-se, maior será o espaço para que arquiteturas externas condicionem o funcionamento dessas mesmas rotas sob outras prioridades.

A geopolítica raramente oferece oportunidades permanentes. Janelas estratégicas se abrem e se fecham. Países que compreendem o momento histórico conseguem reorganizar sua posição no sistema internacional. Os que hesitam acabam adaptando-se às decisões tomadas por outros. É justamente por isso que o debate sobre o Escudo das Américas não pode ser reduzido à política externa ou à segurança. Ele diz respeito ao tempo histórico do Brasil. Pela primeira vez em décadas, o país reúne condições concretas para transformar sua posição geográfica em um verdadeiro projeto de poder nacional. A questão é saber se conseguirá fazê-lo antes que outros passem a definir, em seu lugar, as condições pelas quais essa transformação poderá ocorrer.

Porque a disputa aberta diante do Brasil não é apenas entre Washington e Pequim, nem entre modelos distintos de integração continental. A disputa é entre dois futuros. Em um deles, o Brasil organiza seus recursos, suas rotas, sua indústria, sua ciência e sua diplomacia para tornar-se um dos polos estruturantes de um mundo multipolar. No outro, continuará sendo uma grande potência em recursos naturais, mas subordinada às regras, às infraestruturas e às decisões estratégicas construídas por terceiros. É essa escolha, e não apenas o Escudo das Américas, que definirá o lugar do Brasil no século XXI.

O Brasil voltou a pensar como uma potência. Agora falta o povo brasileiro compreender o que isso significa.

Uma das maiores transformações silenciosas dos últimos anos foi a retomada da capacidade do Estado brasileiro de voltar a pensar estrategicamente. Depois de um longo período marcado pela fragmentação do planejamento nacional e pela perda de protagonismo internacional, o Brasil voltou a construir um projeto de inserção soberana no mundo. A retomada da integração sul-americana, a criação das Rotas de Integração, o fortalecimento dos BRICS, a aproximação com a Ásia, a defesa da reindustrialização, da soberania tecnológica e de uma política externa ativa demonstram que o país deixou de atuar apenas como administrador de sua própria dependência e voltou a organizar as bases de um projeto nacional de desenvolvimento.

Nesse processo, a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva possui um papel histórico. Não apenas por suas escolhas de governo, mas por recolocar o Brasil no centro das grandes discussões internacionais como um país que voltou a defender autonomia, desenvolvimento, multipolaridade e integração regional. É justamente essa mudança que explica por que a pressão externa aumentou. Grandes potências não reagem da mesma forma diante de países que apenas administram sua inserção subordinada no sistema internacional e diante daqueles que voltam a construir capacidade própria de decisão. O problema, para Washington, não é simplesmente o governo Lula. O problema é o Brasil voltar a agir como uma potência regional com capacidade de formular projetos próprios, ampliar sua influência e reduzir dependências históricas.

O desafio agora deixa de ser apenas diplomático. Passa a ser político, econômico e, sobretudo, cultural. O Estado brasileiro voltou a pensar estrategicamente, mas essa percepção ainda precisa alcançar a sociedade. Durante muito tempo, incutiu-se na cultura política do país a ideia de que o Brasil deveria conformar-se com um papel secundário no cenário mundial, limitando-se a aceitar as decisões tomadas pelos grandes centros de poder. Romper essa dependência mental é o passo decisivo para consolidação de qualquer projeto soberano. Nenhuma nação se torna potência apenas por atos do governo; ela se torna potência quando seu povo compreende o valor de seus recursos, a importância de sua autonomia e a necessidade de defender seu futuro. O mapa já está desenhado. A disputa pelas rotas e pelo poder já começou. Falta agora ao Brasil assumir plenamente o destino que sua própria geografia e sua história colocaram à sua frente.

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AUTOR
Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net.


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