
CRÉDITO: REUTERS/BRUNO DOMINGOS
A produção gera renda; a renda crescendo acima do padrão de consumo gera poupança; a poupança é aplicada para sua capitalização; e o capital acumulado em ativos financeiros, captados por bancos ou empresas não-financeiras por meio de títulos de dívida direta, volta a financiar novos investimentos produtivos, fechando um ciclo de retroalimentação permanente.
Uma das limitações da Ciência Econômica tradicional é analisar o capitalismo por apenas uma de suas dimensões. Algumas teorias concentram-se exclusivamente na produção; outras, na distribuição da renda; outras ainda, nas finanças. Entretanto, o capitalismo do século XXI tornou-se suficientemente complexo de modo a exigir uma visão sistêmica capaz de integrar essas dimensões em um único modelo interpretativo.
A proposta da Nova Ciência Econômica (NCE) consiste justamente em compreender o capitalismo como um sistema formado por três circuitos interdependentes: o circuito da produção de valor, o circuito da distribuição da renda e o circuito da capitalização financeira. Nenhum deles existe isoladamente. Cada um alimenta os demais em um processo permanente de retroalimentação, embora, em diferentes momentos históricos, um deles possa tornar-se dominante sobre os outros.
O primeiro circuito é o da produção de valor. Trata-se do núcleo clássico da Economia Política. Nele, trabalho, conhecimento, tecnologia e recursos naturais são transformados em bens e serviços, gerando valor adicionado.
Durante grande parte do capitalismo industrial do pós-guerra, entre aproximadamente 1945 e 1975, este circuito ocupava posição predominante. O crescimento econômico era explicado principalmente pela expansão da capacidade produtiva, pelo aumento da produtividade do trabalho e pela industrialização. A teoria mais influente para compreender esse processo foi a Teoria do Valor-Trabalho, segundo a qual a produção constitui a origem fundamental do valor econômico.
Entretanto, produzir não basta. O valor gerado precisa ser convertido em renda monetária. Surge então o segundo circuito: o da distribuição da renda. Salários, lucros, juros, dividendos, aluguéis e tributos representam diferentes formas pelas quais o valor produzido é repartido entre trabalhadores, empresários, rentistas e Estado.
Nesse circuito aparecem os conflitos distributivos característicos das economias capitalistas: salários versus lucros, consumo versus investimento, política fiscal versus política social. A renda distribuída transforma-se em poder de compra e, consequentemente, em demanda efetiva, permitindo a produção ser vendida no mercado e reiniciando o ciclo produtivo.
Durante muito tempo, esses dois circuitos pareciam suficientes para explicar o funcionamento do capitalismo. Contudo, a partir das últimas décadas do século XX, uma terceira dimensão ganhou autonomia crescente: a capitalização financeira.
Nesse terceiro circuito, parte da renda monetária não retorna imediatamente ao consumo, mas converte-se em poupança financeira. Essa poupança é aplicada em títulos públicos, ações, debêntures, fundos de investimento, fundos de pensão, previdência complementar e diversos outros ativos financeiros.
Por meio dos juros compostos, dos dividendos e da valorização dos ativos, os fluxos anuais de renda transformam-se em estoques crescentes de riqueza patrimonial. A riqueza passa, assim, a crescer não apenas pela produção direta de novos bens e serviços, mas também pela capitalização contínua dos ativos financeiros.
Esse fenômeno fundamenta a Teoria do Valor Financeiro: uma teoria destinada não a substituir a Teoria do Valor-Trabalho, mas sim a complementar com um nível distinto da dinâmica econômica contemporânea. Essa inovação conceitual constata uma parte crescente da riqueza no capitalismo contemporâneo deriva da sequência: Capital Acumulado → Juros Compostos → Crescimento Patrimonial.
Essa teoria explica a acumulação patrimonial com a dinâmica exponencial dos juros compostos, a valorização de ativos como ações em mercado secundário com base nas especulações sobre o futuro incerto e a acumulação financeira resultante de renda fixa (juros prefixados e pós-fixados) e renda variável (dividendos).
A principal inovação da abordagem sistêmica consiste em mostrar como esses três circuitos formam um único sistema dinâmico. A produção gera renda; a renda crescendo acima do padrão de consumo gera poupança; a poupança é aplicada para sua capitalização; e o capital acumulado em ativos financeiros, captados por bancos ou empresas não-financeiras por meio de títulos de dívida direta, volta a financiar novos investimentos produtivos, fechando um ciclo de retroalimentação permanente.
Essa interação ajuda a compreender por qual razão a economia não pode ser reduzida nem ao mercado de bens, nem ao mercado de trabalho, nem ao mercado financeiro. O capitalismo emerge precisamente da interação entre esses três subsistemas.
Contudo, embora os três circuitos coexistam, sua importância relativa muda historicamente. O capitalismo não permanece sempre organizado em torno do mesmo eixo. A própria evolução histórica passa a ser interpretada como uma mudança de dominância entre circuitos.
Entre 1945 e 1975, predominou o capitalismo industrial. O circuito da produção liderava o crescimento econômico. A industrialização acelerada, o aumento contínuo da produtividade, o fortalecimento dos sindicatos e a consolidação do Estado de bem-estar social caracterizaram esse período.
A capitalização financeira já existia, mas permanecia subordinada à expansão produtiva. O capital financeiro era, em grande medida, um instrumento para financiar o investimento industrial. O circuito da estrutura social era mais simples: Produção → Renda → Consumo.
A partir da segunda metade da década de 1970, inicia-se uma fase de transição. A crise de lucratividade industrial, os choques do petróleo, a inflação internacional persistente, o elevado endividamento externo e a liberalização financeira alteraram profundamente o funcionamento da economia mundial.
Os mercados financeiros cresceram muito mais rapidamente diante da economia produtiva. O circuito de capitalização começou, então, a adquirir predominância com crescente autonomia em relação ao circuito produtivo.
Entre 1990 e a crise financeira global de 2008, consolida-se aquilo denominado de capitalismo financeirizado. A globalização financeira, a desregulamentação bancária, a expansão dos fundos de investimento e dos fundos de pensão e a difusão da lógica de maximização do valor para os acionistas transformaram profundamente a governança das empresas. A valorização patrimonial tornou-se referência central das decisões econômicas, inclusive pela emergência da cultura do investidor individual.
Após a crise de 2008, surge então uma nova etapa: o capitalismo patrimonial massificado. A participação nos mercados financeiros deixa de ser privilégio exclusivo das grandes fortunas.
Fundos de pensão, previdência complementar, fundos de investimento e plataformas digitais ampliam significativamente o número de famílias dependentes, em maior ou menor grau, da rentabilidade de ativos financeiros para complementar sua renda futura.
O envelhecimento populacional reforça esse movimento, pois a Previdência Complementar torna-se importante para parcelas crescentes da classe média, visando à aposentadoria. O resultado é um rentismo mais difuso socialmente, para substituir o regime de repartição da Previdência Social por regime de capitalização, embora a riqueza permaneça fortemente concentrada.
Essa evolução histórica não significa, porém, a produção ter perdido sua importância. Ao contrário, a produção continua sendo a condição necessária para toda a acumulação financeira.
Nenhum sistema financeiro pode existir indefinidamente desconectado da economia real. Os juros, dividendos e ganhos patrimoniais são sustentados porque existe uma base produtiva capaz de gerar renda, lucros, arrecadação tributária e capacidade de pagamento. A capitalização constitui, portanto, uma camada emergente construída sobre a economia produtiva – e não um universo independente dela.
Essa perspectiva permite compreender diversos fenômenos contemporâneos, os quais, isoladamente, parecem contraditórios. Explica por qual razão economias podem apresentar crescimento relativamente modesto da produção e, ao mesmo tempo, oferecer rápida expansão da riqueza financeira. Ajuda a interpretar a crescente desigualdade patrimonial, observada em vários países, e esclarece por qual razão o sistema financeiro não é apenas um setor da economia, mas um circuito integrado, capaz de reorganizar incentivos, estratégias empresariais e formas de distribuição da renda.
A proposta da Nova Ciência Econômica consiste, assim, em integrar verticalmente diferentes Teorias do Valor. No primeiro nível, permanece válida a análise clássica da produção e da geração do valor com exploração da força de trabalho. No segundo nível, acrescenta-se a teoria da capitalização financeira e da valorização patrimonial. Finalmente, no terceiro nível, ambos os processos são integrados em uma visão macroestrutural da financeirização, da desigualdade patrimonial e da mudança histórica na dominância entre circuitos.
Em síntese, compreender o capitalismo contemporâneo exige abandonar explicações unidimensionais. Produção, distribuição e capitalização constituem três dimensões inseparáveis de um mesmo sistema complexo.
A produção continua criando a riqueza real; a distribuição determina quem participa dela; e a capitalização transforma parte dos fluxos de renda em estoques de patrimônio, rentabilizados por juros e dividendos. A dinâmica do capitalismo contemporâneo emerge precisamente da interação contínua entre esses três circuitos, cuja hierarquia se modifica ao longo da história sem romper sua interdependência fundamental.
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