Desilusão



Por PANKAJ MISHRA*

Ao expor a brutalidade das ações israelenses em Gaza, a guerra recente não apenas fraturou o apoio incondicional das elites globais, mas também escancarou como o Ocidente usou a defesa de Israel para encobrir seus próprios legados coloniais

1.

A realidade da conduta de Israel está finalmente cobrando o seu preço. Até há pouco tempo, era mais fácil ignorar e apoiar a destruição da sociedade palestina na Cisjordânia e em Gaza, o bombardeio de vários países, o extermínio de líderes estrangeiros e o roubo de territórios libaneses e sírios. O homicídio, muitas vezes premeditado, de mais de vinte mil crianças em Gaza havia ferido as consciências, não os bolsos; as consciências puderam ser administradas com um pouco de censura ritualística a Benjamin Netanyahu ou a seus colegas orgulhosamente preconceituosos.

O ataque ao Irã expôs ao escrutínio público uma estranha aberração na comunidade internacional, fazendo um número maior de cidadãos na Europa e na América do Norte se espantar com o imprimatur que suas elites concederam a Israel.

Esse imprimatur dependia tanto de uma supressão sistemática dos fatos quanto de uma ignorância generalizada sobre o Oriente Médio. Israel era apresentado, no mainstream não- árabe, como a única democracia da região, adornado com o “exército mais moral” do mundo. A dissidência convidava ao ostracismo: nenhum “cancelamento” no Ocidente era tão punitivo e rápido quanto aqueles desencadeados pela má-fé das acusações de antissemitismo, ele próprio redefinido como crítica ao etnonacionalismo belicoso de Israel. Agora, porém, a guerra calamitosamente imprudente contra o Irã quebrou o encanto.

Essa nova ruptura manifestou-se de diversas maneiras. Mais americanos agora simpatizam com os palestinos do que com Israel, segundo uma pesquisa do New York Times/Siena College. Tal mudança dramática na opinião pública, de forma preocupante, levou membros da extrema direita em muitas partes dos Estados Unidos a manifestar um antissemitismo bem real e virulento. Simultaneamente, a crescente consciência de massa sobre a profunda corrupção da política americana está produzindo algumas tendências salutares.

Em todo o espectro ideológico, políticos estão sendo recompensados eleitoralmente por se oporem às subvenções a um Estado em guerra perpétua – algo que não passou despercebido ao perene oportunista J. D. Vance, que, de olho na eleição de 2028, aconselhou publicamente Israel: “Vocês não podem simplesmente matar para resolver todos os problemas de segurança nacional que têm.” Num rompimento surpreendente com seus antecessores, o prefeito de Nova York acusou repetidamente Israel de cometer genocídio e, ainda assim, conquistou mais aprovação dos judeus americanos do que Benjamin Netanyahu. Em Michigan, Abdul El-Sayed, fazendo campanha com a promessa de encerrar a ajuda militar incondicional a Israel, derrotou a deputada Haley Stevens, defensora da ajuda incondicional.

As reavaliações de Israel estão ganhando fôlego de forma mais ampla entre seus outrora leais aliados fora dos Estados Unidos. A Itália juntou-se à Indonésia e ao Paquistão ao condenar o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, quando ele publicou um vídeo em que zombava de ativistas pró-Palestina vistos ajoelhados e amarrados com braçadeiras.

Andy Burnham, antes de se tornar o novo primeiro-ministro do Reino Unido, decidiu pedir desculpas publicamente por meio de um vídeo nas redes sociais, distanciando-se da posição de Keir Starmer sobre Gaza, incluindo o seu endosso ao método israelense de estrangular Gaza cortando o fornecimento de água e eletricidade. Oportunistas como os Emirados Árabes Unidos, signatários dos Acordos de Abraão que concedem reconhecimento diplomático a Israel, teriam subornado Irã uma vez que fracassaram em debilitá-lo. As mudanças mais profundas causadas pela desgraça global de Israel, no entanto, ainda são tenuamente percebidas.

Não menos do que a Rússia e a China revolucionárias, ou outros Estados com projetos utópicos, Israel há muito proclama sua própria moralidade – uma moralidade superior amparada pela nobreza de seus objetivos – enquanto mata e despoja povos vulneráveis. E a política sionista comandou, mais do que outros nacionalismos de longo alcance (irlandês, hindu, armênio, tibetano), defensores influentes por toda a Europa e os Estados Unidos a partir dos anos 1970.

Tudo isso permite a Benjamin Netanyahu apresentar Israel com confiança na vanguarda da resistência da civilização ocidental contra os bárbaros. Originalmente o refúgio de uma minoria perseguida dentro do Ocidente, o país gradualmente se tornou, por meio de uma série de manobras, crucial para a autoestima das elites ocidentais. Explicações convencionais da influência desmedida de Israel tendem a se concentrar nas chantagens dos grupos lobistas nos negócios, na política e na mídia. Um relato mais histórico e revelador, contudo, não deixaria de fora a transformação rápida da autoimagem ocidental a partir do ponto zero de 1945.

2.

O hitlerismo consistia, como Simone Weil apontou em 1943, “na aplicação pela Alemanha ao continente europeu, e à raça branca em geral, dos métodos coloniais de conquista e dominação”. George Orwell havia visto tanto desses métodos na Ásia que chegou a se perguntar, ainda em 1940, se deveria apoiar o Império Britânico contra seu rival nazista. As tendências de Winston Churchill ao hitlerismo genocida foram percebidas em 1944 por um de seus próprios ministros, depois de ele ter ajudado a infligir fome maciça à Índia sob domínio britânico.

Certamente Albert Camus não estava exagerando quando, em 1946, descreveu o hitlerismo como um veneno ocidental moderno que havia sobrevivido à guerra. O ódio à minoria judaica não desapareceu nos países onde as pessoas colaboraram ativamente com os nazistas (houve pogroms na Polônia ainda em 1946). Mesmo os libertadores da Europa, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, mantiveram altas barreiras de entrada para os sobreviventes judeus do Holocausto. A incineração nuclear do Japão – precedida pela caracterização visual, nada menos que na The New Yorker e no New York Times, dos japoneses como macacos – e seguida por contrainsurgências brutais nas colônias britânicas e francesas, confirmou a persistência da mentalidade supremacista branca entre as potências aliadas.

Todavia, a irrupção de uma nova guerra – chamada de “fria”, mas inegavelmente quente, da Coréia ao Afeganistão – contra a União Soviética exigia uma autoimagem mais lisonjeira. A noção de que o “mundo livre” está travando uma batalha necessária contra o totalitarismo (primeiro nazista, depois soviético, baathista e, mais recentemente, islamista) tornou-se o arcabouço analítico básico de gerações sucessivas de brancos norte-americanos e europeus instruídos. A própria Segunda Guerra Mundial passou a ser vista como a batalha existencial da democracia contra a tirania, apesar de Hitler ter se inspirado em eugenistas americanos, disputado invejosamente com imperialistas britânicos e de as vitórias mais cruciais contra os nazistas terem sido alcançadas pelos soviéticos.

Uma nação fundada em grande parte por socialistas declarados (e inicialmente armada por Joseph Stálin), Israel não se encaixava bem no imaginário pós-guerra do mundo livre. O próprio novo Estado judeu confundiu as coisas ao participar de um assalto imperialista antiquado em 1956 na tentativa britânico-francesa de roubar o Canal de Suez do Egito. Nem a grande população de judeus de pele escura provenientes de países árabes ajudou a promover a adesão ao Ocidente: ao cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em 1961, Hannah Arendt descreveu as multidões judaicas que esperavam do lado de fora do tribunal em Jerusalém como uma “multidão oriental”.

A rápida vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 entusiasmou muitos judeus americanos que antes olhavam com desconfiança para a suposta pátria do judaísmo global, suscitando ainda o presidente francês Charles de Gaulle a descrever os judeus como “um povo de elite, seguro de si e dominador”.

As opiniões de De Gaulle eram um sinal, raramente identificado até os anos setenta, de que o preconceito mainstream havia feito da França, e não da Alemanha, o lugar mais provável para o extermínio em massa de judeus. Outra indicação foi que a Shoah não recebeu atenção continuada na França durante décadas após a libertação – realizada sobretudo pelo Exército Vermelho – dos campos de extermínio em 1945.

O acerto de contas e a renovação das identidades nacionais e civilizacionais tornaram-se imperativas somente depois que, no início dos anos setenta, o historiador americano Robert O. Paxton divulgou a extensão da colaboração francesa com o nazismo, seguida por uma série de julgamentos dos criminosos de Vichy.

A reformulação urgente da imagem foi ajudada inadvertidamente pela União Soviética, cuja perseguição aos judeus de repente se tornou uma causa célebre em todo o mundo livre. Os apoiadores agora proclamavam seus valores superiores em nome dos judeus soviéticos dissidentes, transformando os direitos humanos, como argumentou Samuel Moyn em The Last Utopia, de uma exigência nascida entre os desempossados em uma arma empunhada pelos poderosos.

3.

Em outra reestilização ideológica engenhosa, comemorar a Shoah com remorso ostensivo tornou-se, a partir dos anos oitenta, gradativamente central à identidade coletiva daqueles que haviam contribuído zelosamente para ele: uma síndrome manifestada de forma mais marcante na Alemanha, onde um ex-nazista, Kurt Georg Kiesinger, tornou-se chanceler em meados dos anos sessenta, e que, após a reunificação, começou a confundir, com alegre antissemitismo, a população judaica mundial com Israel, transformando a proteção deste último em sua Staatsräson.

Os países do Leste Europeu, principais cenários da Shoah, emergiram do domínio comunista nos anos noventa para descobrir que o reconhecimento devidamente pesaroso de seus massacres de judeus era o “bilhete de entrada” para a próspera comunidade de seus vizinhos da Europa Ocidental, como apontou Tony Judt em Pós-guerra. A nova Europa, escreveu Tony Judt, havia “se investido da responsabilidade de garantir que se preste atenção” às atrocidades infligidas aos judeus e de “definir como ‘europeus’ pessoas que de fato prestam atenção a elas”.

Havia sempre riscos na “ubiquidade compensatória”, como Tony Judt a chamou, “com a qual os europeus agora reconheciam, ensinavam e memorializavam a perda de seus judeus” e faziam da comemoração de seus crimes a “própria definição e garantia da humanidade restaurada do continente”. Nem mesmo uma demonstração de atenção moral era exigida, por exemplo, para os numerosos crimes que os europeus cometeram contra outros povos: os milhões de congoleses assassinados e mutilados por imperialistas belgas; as dezenas de milhões consumidas pelos holocaustos do final da era vitoriana; ou, aliás, os estimados vinte e sete milhões de mortos em decorrência da invasão nazista da União Soviética.

Estes saíram do campo de visão do imaginário público ocidental, dominado pelos horrores entrelaçados da Shoah e do gulag. As múltiplas vítimas do imperialismo genocida do Ocidente na Ásia e na África foram instruídas a parar de culpar os eventos passados por sua condição e a assumir responsabilidade por seus fracassos no presente. Enquanto isso, Israel, alegando ser a salvaguarda essencial contra futuros crimes de aniquilação, comandava, com timing perfeito, o espírito da época da Guerra Fria – e tornou-se o principal beneficiário das autoimagens ocidentais renovadas.

Quase simultaneamente, a intensificação da política identitária nos Estados Unidos, que transformou a vitimização histórica em emblema de virtude moral, ajudou tanto a americanizar o Holocausto quanto a colocar Israel além de qualquer reprovação. Para muitos judeus americanos cada vez mais obcecados com a Shoah, havia um “frisson especial”, como identificou Robert Alter, “de vivenciar vicariamente o indizível, com todo o conforto material e a segurança de nossas vidas americanas”.

Como veio a acontecer, Israel assumiu seu posto de membro honorário do mundo livre justamente quando estendia com arrogância o tapete do ben-gvirismo. Saul Bellow foi um dos que chegaram tarde à Shoah e ao sionismo, compensando-os além da conta; ele advertiu, contudo, numa carta privada em 1978, que Israel estava se encaminhando para um “perigoso grau de fanatismo”. Alfred Kazin, deplorando repetidamente em seus diários “a crescente brutalidade dos israelenses” e a paixão cada vez maior dos judeus americanos por Israel, concluiu em 1988 que “nunca haverá paz com Israel”: “Sempre suspeitei que haveria conflitos intermináveis entre Israel e o mundo muçulmano, e minha suspeita mais profunda é que a Terceira Guerra Mundial bem poderia começar ali.”

4.

Nas quatro décadas desde então, um Estado racista e imperialista com armas nucleares e uma afinidade cada vez mais profunda com nacionalistas brancos neofascistas no Ocidente desfrutou de estima mais ampla e profunda do que qualquer um dos regimes comunistas jamais conheceu entre políticos e intelectuais ocidentais.

Isaiah Berlin não fugiu à regra ao admitir a Susan Sontag que se flagrava pensando em Israel de forma tão obsessiva e terna quanto os comunistas outrora pensavam na União Soviética. Tampouco esse sábio do mundo anglo-americano foi atípico ao isentar o sionismo do escrutínio de uma vida inteira dedicada à análise das patologias do nacionalismo e do autoritarismo.

As obras de proeminentes intelectuais públicos ocidentais – de Jürgen Habermas a Michael Walzer, de Timothy Snyder a Francis Fukuyama – são marcadas pela mesma omissão. Foi uma extensa trahison des clercs, à qual se juntaram os porta-estandartes do liberalismo ocidental, bem como os panfletários de Rupert Murdoch, que forjaram a realidade alternativa de um Estado de apartheid. O sucesso dessa democracia Potemkin pode ser medido pela indignação com que muitas pessoas despertam hoje para o apoio incondicional da elite ocidental a uma sociedade dominada por paixões genocidas.

É claro que a ideia fundacional de Israel – a de que judeus israelenses deveriam ter mais direitos do que palestinos – sempre foi, como disse Natalia Ginzburg, “monstruosa”. Nenhuma medida de sofrimento passado poderia justificar a política de violência organizada e de injustiça nos territórios ocupados. E a alegação implícita dos defensores de Israel de que a vitimização confere virtude permanente nunca fez muito sentido.

Os sobreviventes dos pogroms durante a guerra civil russa (1917–21) rapidamente se transformaram em executores do regime bolchevique, supervisionando matanças em larga escala, fome generalizada e trabalho forçado. “Odeie a opressão; tema os oprimidos”, escreveu certa vez V. S. Naipaul, numa coda sem sentimentalismo para a era dos extremos, e que repetidamente deixou claro que nenhum grupo de pessoas, da Ucrânia à Indonésia, é imune às corrupções do poder e da ideologia.

O sionismo provou não ser exceção à regra sombria de que o idealismo político nascido do sofrimento extremo contém a semente de sua própria perversão e decadência, e que, impulsionadas pelo medo e pelo ódio vingativo, as vítimas de calamidades históricas podem muito rapidamente se transformar em carrascos.

No Partido Democrata e em outras formações políticas pró-Israel do Ocidente, também podemos ver o que Carlo Ginzburg quis dizer quando afirmou que uma ideia monstruosa, que “cresce e prolifera junto com nossos melhores impulsos e nossa sede de justiça e igualdade”, acaba por transformá-los em “um monte de palha encharcada”. A percepção crescente de que a fidelidade absoluta a Israel embruteceu mentes e almas será, sem dúvida, resistida. Muito está em jogo e corre perigo para os partidários do país: todo um modo não examinado de se autoestimar, de pensar e sentir sobre si e sobre os outros, e de agir sem piedade e de forma inatacável.

Ao fracassar, em última instância, a sua chantagem moral já é histérica, as perguntas-armadilha sobre o “direito de existir” de Israel tornam-se mais frenéticas, e as acusações de antissemitismo, cada vez mais desequilibradas. A brutalização de campi universitários financiada por corporações e a desajeitada Pravda-ização da CBS e da CNN indicam que o encobrimento de fatos salientes sobre Israel não pode mais ser imposto por meios mais sutis.

Mas o resultado desse apoio hiperorganizado a uma sociedade comprometida com a guerra e a destruição infinitas agora se manifesta com demasiada clareza em grande parte da vida ocidental, desde o centro político cuja liderança encontra-se comprometida, passando pela mobilização insidiosa da judeofobia pela extrema direita, até as dezenas de universidades enfraquecidas por acusações de antissemitismo e as instituições jornalísticas degradadas por suas fabricações e eufemismos sobre o genocídio.

Espiritualmente devastadas pela exposição prolongada a tais atrocidades, e assombradas por sua provável cumplicidade nelas, cada vez mais pessoas chegaram à mesma conclusão: que a própria definição e garantia de sua humanidade restaurada reside em repudiar decisivamente as ações monstruosas de Israel.

*Pankaj Mishra é ensaísta e romancista. Autor, entre outros livros, de The age of anger: a history of the presente (Farrar, Straus, and Giroux). [https://link.amazon/B0au55hcV]

Tradução: Nikola Matevski.

Publicado originalmente em Haper’s Magazine.



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