
Com programa baseado no Comum – em especial no direito à Moradia – e presença constante nos bairros populares, Die Linke tem chances reais de liderar governo da capital alemã. Há apenas dois anos, partido parecia moribundo. O que mudou?
Formado há vinte anos, tendo como tronco principal os remanescentes do Partido Socialista da Alemanha Oriental (SED), que se filiava à tradição soviética e governou o país de 1946 até a queda do Muro de Berlim, o Linke viveu fases muito distintas. Expressou, em seu início, o saudosismo oriental pós-unificação alemã – um sentimento hoje capturado pela AfD. Mais tarde, em reviravolta, adotou uma postura woke, concentrando-se em guerras culturais cujo impacto limitava-se a setores intelectualizados da classe média. A postura reduziu-o à quase insignificância. Em 2021, seu percentual de votos para o Bundestag, oparlamento alemão, reduziu-se a 4,9% (ante 11,9%, doze anos antes). Em 2023, seu número de membros havia caído para pouco mais de 50 mil (30% menos que na fundação). À época, sofreu uma dissidência. A deputada Sarah Wagenknecht, co-líder no Bundestag, afastou-se e fundou seu próprio partido, o BSW, alegando divergência com o wokismo. Num primeiro momento, o gesto alcançou popularidade notável, enquanto o Linke parecia prestes a naufragar.
A virada política pós-2024
Uma campanha “ao estilo Mamdani”
Em face do cenário, o Linke optou por disputar as eleições com uma “campanha ao estilo de Zohran Mamdani”, segundo a expressão usada pelo texto da Fundação Rosa Luxemburgo. Seu programa tinha três pontos essenciais: volta dos bilhetes de transporte de 9 euros, válidos por um mês, introduzidos “promocionalmente”, por tempo limitado, em 2022; criação de cantinas populares; e – muito destacadamente – respeito ao referendo de 2021, que pode restituir o direito a moradia digna e acessível. A busca de inspiração em Mamdani ampliou-se algumas semanas antes da campanha, quando o Linke enviou uma delegação a Nova York para encontrar-se com conselheiros do prefeito. “O sucesso de um socialista democrático em Nova York, o coração do capitalismo, é uma grande conquista – e trocamos muitas ideias”, disse então a agora vitoriosa candidata Elif Eralp.
Efeito notável deste intercâmbio: o Linke recusou-se, durante toda a campanha, a entrar nas provocações da direita e ultradireita, que tentaram atrair o partido para os terrenos prediletos do conservadorismo moral. Em matéria no site espanhol Publico, Néstor Prieto Amadorrelata: CDU e AfD agiram para associar imigração a criminalidade, e para condenar o uso de linguagem inclusiva. Mantendo o que chama de “estrita disciplina comunicacional”, Prieto Amador conta que o Partido de Esquerda manteve-se concentrado nas “narrativas que unem” – em especial o direito à Moradia. Ao fazê-lo em Berlim, foi capaz de dialogar efetivamente tanto com os trabalhadores quanto com a classe média e juventude cosmopolita, também atingidas pela especulação imobiliária.
A aproximação com Mamdani e com a cultura política que ele expressa contribuiu para um segundo movimento vitorioso na campanha do Linke. Num gesto que em outros tempos talvez fosse chamado de “assistencialista” por uma velha esquerda, o partido transformou suas sedes em escritórios de apoio gratuito à população. Lá, os militantes realizavam tarefas práticas, como identificar irregularidades nos contratos de aluguel e cobranças abusivas em contas de serviços públicos privatizados. Apresentada com o mote de “Nunca sós, sempre juntos”, a iniciativa ajudou a enfrentar o desamparo – material e psíquico – a que o neoliberalismo submete as maiorias. Permitiu ao Linke expressar de modo prático sua concepção de política, que vai muito além do jogo parlamentar e das eleições.
A renovação programática e prática do partido, a partir de 2025, já havia produzido um enorme salto na militância – passando dos 50 mil, no ponto mais baixo, para 123 mil, no final do ano passado. Mas em Berlim, o foco no direito à Habitação e a busca de diálogo com a sociedade resultaram na mobilização em massa de gente (especialmente jovens) interessada em fugir da pasmaceira e dar sentido de luta à sua vida. Mais de 2 mil voluntários somaram-se a uma campanha que conversou com a população de porta em porta, ao invés de ficar relegada a atividades de baixíssima densidade, como os “bandeiraços” brasileiros. Segundo os cálculos do partido, mais de 140 mil residências foram visitadas. O resultado apareceu no dia de eleição: a vitória do Linke deveu-se, também, a um avanço sensível do comparecimento às urnas, que passou de 62,9% a 74,2%.
E o chamado à participação política resultou não apenas em vitória eleitoral, mas numa presença destacada entre os públicos com que o Linke mais conta, para mobilizações futuras. Segundo enquetes, o partido teve 43% de apoio, na faixa entre 16 e 24 anos; 49%, entre os 25 e 34; e espantosos 54%, entre as mulheres com menos de 30. Também reuniu 29% entre a população com formação educacional superior e foi o mais votado em distritos com forte presença de assalariados e imigrantes, como Neukölln (33%) ou Friedrichshain-Kreuzberg (até 47%).
A formação do governo e os novos desafios
As negociações para formar os governos alemães, após as eleições, pode durar semanas ou meses. Pesam em favor do Linke, certamente, a vitória eleitoral notável, os resultados do plebiscito e a capacidade de mobilização demonstrada agora. As próximas semanas serão decisivas em Berlim. A resultado na capital alemã não significa que a onda de ultradireita no país e em toda a Europa (e também nas Américas) seja facilmente reversível. Mas sugere que há espaço real para uma esquerda disposta ao mesmo tempo a manter o enfrentamento ao capitalismo e colocá-lo em sintonia com as novas dinâmicas do século XXI.
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