Apoiantes dos houthis gritam slogans durante um protesto contra a intervenção militar da Arábia Saudita, em Saná, no Iémen, a 18 de setembro de 2026. Foto de Yahya Arhab
Graças a Netanyahu e a Trump, o Irã e o Iémen controlam agora as entradas das rotas marítimas globais de Ormuz e Bab-el-Mandeb. O príncipe herdeiro saudita MBS, em pânico, anda a percorrer os círculos de poder a implorar por ajuda. E com razão, porque os iemenitas não vão recuar.
PorTARIQ ALI
Na semana passada, o exército Ansar Allah, no Iémen, libertou toda a costa ocidental do país, reconquistou o importante porto de Mocha, bem como as ilhas Hanish e a ilha de Perim, assumindo assim o controlo total do Estreito de Bab-el-Mandeb. Celebraram o seu triunfo com alegria desenfreada. Graças a Netanyahu e a Trump, o Irão e o Iémen controlam agora as entradas das rotas marítimas globais de Ormuz e Bab-el-Mandeb. O ataque a oleodutos e outras infraestruturas na Arábia Saudita é resultado da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão. Antes da guerra contra o Irão, qualquer tentativa deste tipo teria levado a uma agressão israelo-estadunidense contra a oposição iemenita, o Ansar Allah (referido nos meios de comunicação ocidentais como os “rebeldes houthis” ou “aliados do Irão”, como se não tivessem identidade própria no país onde habitam há vários séculos). Mas as munições dos EUA têm vindo a diminuir drasticamente nos últimos seis meses, o que torna a administração Trump relutante em socorrer os seus subservientes. O príncipe herdeiro saudita MBS, em pânico, anda a percorrer os círculos de poder a implorar por ajuda. Os seus amigos íntimos nos EUA e em Israel fazem ouvidos moucos e o seu outro amigo, Epstein, já morreu há muito tempo.
Na verdade, é a ordem apoiada pelo Conselho de Segurança da ONU, liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, que agora parece precária. Os apelos sauditas a uma intervenção direta ficaram sem resposta por parte de Trump. A sua recusa é, em parte, uma escolha estratégica: por mais frágil que seja, o cessar-fogo de julho com o Irão continua em vigor e o Ansar Allah deixou claro que o seu bloqueio de Bab el-Mandeb se aplica apenas aos sauditas. Mesmo esta administração irracional parece reconhecer certos limites. Os co-signatários da Arábia Saudita no Pacto de Meca, a Turquia e o Paquistão, deixaram claro que também não têm qualquer intenção de travar uma guerra aérea no Iémen, muito menos de enviar tropas terrestres. Não conseguindo angariar apoio militar dos seus benfeitores habituais, MBS voou para o Cairo na última quarta-feira para fazer um apelo ao ditador Sisi.
Seria uma enorme ironia se o Egito alugasse uma parte do seu exército para combater ao lado da Arábia Saudita no Iémen. As mentes mais sensatas no Cairo recordarão a última vez que o Egito interveio naquele país. No norte, os nacionalistas nasseristas triunfaram sobre o imamato apoiado pela Arábia Saudita em 1970, após um conflito trágico. No sul, comunistas e socialistas expulsaram os britânicos da cidade portuária de Áden, que controla a entrada para o Mar Vermelho através do Estreito de Bab el-Mandeb. Desta vez, os nacionalistas iemenitas acabaram de fazer o mesmo aos ocupantes árabes, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. A embaixada saudita encerrada em Saná foi decorada com um mural que retrata um combatente iemenita a ordenar que um navio pare. É claro que o Egito e a Arábia Saudita encontraram uma causa comum em inúmeras ocasiões desde então — o recente controlo do estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis é apenas o mais recente exemplo. O Egito perdeu cerca de 7 mil milhões de dólares entre 2023 e 2024 devido à instabilidade no Mar Vermelho e não quer que as receitas diminuam ainda mais. Ainda assim, o Egito recusou-se, até agora, a oferecer apoio militar aos sauditas.
Os sauditas têm razão em procurar ajuda. Os iemenitas não vão recuar. O Iémen, como confirmou há alguns dias um consultor israelita, tornou-se “o cavalo negro deste conflito”. O único país árabe, parcialmente governado por neonacionalistas houthis, que saiu em defesa dos palestinianos após o 7 de Outubro e, mais tarde, dos iranianos; o Iémen é uma terra antiga. É um dos países mais antigos da região, o centro de uma civilização do Próximo Oriente que floresceu há 3000 anos e o berço do café (uma afirmação contestada pelos etíopes). Saná, a capital do Iémen, já existia quando o Antigo Testamento ainda estava a ser escrito e editado. Hoje, ao contrário dos seus Estados vizinhos, é um dos países mais pobres do mundo, devido às guerras contínuas e às sanções severas da ONU, da UE e dos EUA.
Os iemenitas são um povo incrivelmente determinado e resiliente. Durante o século XX, ocorreram três guerras civis; a tentativa de desalojar o seu povo para tornar o Iémen um país “normal”, à semelhança da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, fracassou. Os Ansar Allah, frequentemente referidos como “os Houthis” em referência aos líderes da maior tribo xiita originária do norte do país, têm repetidamente atacado os seus ocupantes sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, bem como aqueles que ocupam a Palestina. O resultado? O semi-isolamento dos sauditas, que sofrem ataques regulares às suas instalações petrolíferas — uma guerra eficaz levada a cabo pelos iemenitas que prejudicou gravemente a produção de petróleo bruto no Reino e que só pode agravar a crise global.
Este é um dos resultados da guerra descabida desencadeada por Trump e Netanyahu contra o Irão há seis meses e meio, que os aliados do Reino Unido e da UE apoiaram com muito gosto. O outro, mais grave em muitos aspetos, é o dano causado pelos ataques aéreos iranianos às bases dos EUA na região. Não se trata de rumores não confirmados na Internet, mas sim de informações publicadas no «Relatório do Inspetor-Geral do Pentágono sobre a Operação Fúria Épica», a 14 de setembro. De acordo com o relatório, desde o lançamento da ”Operação Fúria Épica”, os ataques iranianos danificaram ou destruíram centenas de edifícios e estruturas nas bases dos EUA no Kuwait, no Bahrein, no Catar, nos Emirados Árabes Unidos, na Arábia Saudita, no Iraque, em Omã e na Jordânia, bem como dezenas de aeronaves estadunidenses.
Envolver-se noutra guerra em nome dos sauditas, com as eleições intercalares tão próximas e o risco de os iemenitas fecharem completamente o estreito de Bab el Mandab, não é, de forma alguma, uma jogada que Trump se possa dar ao luxo de fazer. Mas vender armas aos sauditas? Não há problema nenhum. No início desta semana, a administração Trump aprovou a compra, há muito almejada pelos sauditas, de quase 50 caças F-35 – um negócio que custará ao Reino da Arábia Saudita a bagatela de 24,3 mil milhões de dólares. Não irá compensar os milhares de milhões de dólares dos contribuintes perdidos até agora na guerra com o Irão, mas ajudará a reduzir marginalmente a dimensão do prejuízo. A grande questão é: que grupo de mercenários irão os sauditas contratar para pilotá-los? A venda, que ainda precisa de ser aprovada pelo Congresso, constituiria um desvio sem precedentes do compromisso legal dos EUA de fornecer a Israel o armamento mais avançado disponível, em comparação com o que fornecem a outros aliados na região. Tempos desesperados, medidas desesperadas. Entretanto, os subordinados europeus dos EUA, que se debatem para reconstruir os seus próprios setores de defesa, foram informados por Washington para esperarem atrasos consideráveis na entrega de mísseis, devido à nova escassez de munições dos EUA.
Na falta de mais ajuda, a ocupação do Iémen pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos poderá muito bem chegar em breve ao fim e um governo nacionalista no Iémen, não reconhecido pelos sauditas e pelos seus apoiantes ocidentais, marcaria uma importante mudança no equilíbrio de forças. Os meus amigos árabes excessivamente otimistas prevêem que tal mudança poderia derrubar o próprio regime wahabita, mas é improvável que os EUA permitam que isso aconteça. As consequências para eles seriam desastrosas e toda a região poderia escapar ao domínio e controlo israelitas. Há relatos de que os sauditas, para além de espalharem rumores descabidos no sentido de que “os houthis estão a disparar drones na direção de Meca”, estão a pedir aos chineses que ajudem a resolver a crise. Para além de ser um sinal de que a decisão de combinar o genocídio em Gaza, os assassinatos em massa na Cisjordânia e a guerra contra o Irão saiu completamente pela culatra, revela o isolamento da entidade al-Saud, algo que não se via desde a crise do petróleo da década de 1970.
É assim que a situação se apresenta neste momento, mas está a evoluir rapidamente. Trump afirmou hoje que se questiona “se e quando devo fazer explodir toda a nação [o Irão]”, à medida que se espalham notícias sobre uma possível ofensiva contra o Iémen e a retomada dos ataques ao Irão. Só o tempo o dirá...
Artigo publicado a 20 de setembro de 2026 na página Substack do autor.

Escritor paquistanês, activista revolucionário estabelecido em Inglaterra.
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