Imagem: Martin Woortman
Por EMILIO CAFASSI*
A derrota do bolsonarismo nas urnas freou um projeto de subserviência internacional, mas a fuga protegida de Flávio Bolsonaro escancara a permanência de uma rede reacionária que exige contínua mobilização popular para ser desmantelada
O Brasil não acordou emancipado, mas também não acordou submisso. Entre esses dois extremos reside uma vitória cuja magnitude transcende a margem de vitória. Milhões de pessoas impediram que o maior país da América do Sul fosse incorporado a uma constelação reacionária de interesses empresariais, de controle, de ruína popular e de subserviência internacional.
O triunfo de Lula interrompeu uma sucessão com nome de família, apoiadores e administradores prontos para dividir os despojos. A fuga de Flávio Bolsonaro pela Argentina demonstrou quanto poder essa rede conserva mesmo após a derrota. As urnas fecharam o palácio para ele; seus aliados mantiveram o caminho aberto. A derrota eleitoral não desmantela uma rede capaz de transitar da celebração à assistência sem abandonar seus próprios interesses.
Lula obteve 51,79% dos votos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma margem de mais de 4,4 milhões de votos, revertendo o resultado do primeiro turno. Durante três semanas, uma derrota que parecia inevitável começou a ser enfrentada com organização e trabalho árduo. O resultado não prova que a vitória é sempre possível; demonstra que o equilíbrio de poder também se altera durante a luta.
A incerteza que nos impede de prometer vitórias também deve nos impedir de declarar derrotas. A metáfora da onda de direita torna-se um pretexto quando transforma seus adversários em banhistas que só podem escolher onde se afogar. Desta vez, vieram para alterar o curso das águas.
A dimensão do Brasil confere a essa interrupção uma importância continental. Estavam em jogo a indústria, os recursos naturais e a influência diplomática, que não podem ser substituídos por meras declarações. Para Donald Trump, conquistar um governo aliado no Brasil teria significado muito mais do que adicionar uma fotografia à sua coleção; para Javier Milei, teria permitido exibir a subserviência da Argentina como vanguarda regional.
A vitória de Lula não estabelece uma hegemonia progressista, mas impede que os reacionários ocupem outro Estado de importância decisiva. Numa região acostumada a ter seu futuro escrito por outros, manter o direito de discuti-lo é uma vitória que merece ser celebrada sem exigir fé cega.
As tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil condicionaram o acesso ao mercado americano a conflitos políticos e jurídicos internos. Uma ferramenta comercial tornou-se um instrumento de coerção: certas decisões soberanas teriam um preço imposto por Washington. O prejuízo econômico deveria servir como punição eleitoral contra Lula, enquanto o aliado prometia normalidade. Não havia necessidade de banir um candidato se a vitória pudesse ser mais custosa.
A chantagem se manifestava na forma de regulamentações alfandegárias, mas mantinha uma sintaxe reconhecível: aceite nossa proteção ou enfrente as consequências. A campanha de Lula contestou essa interpretação, buscando garantir que os brasileiros reconhecessem o agressor por trás do suposto salvador.
Ali, a contradição do nacionalismo de Flávio Bolsonaro ficou exposta: proclamar a grandeza da nação enquanto, simultaneamente, busca ou celebra a pressão estrangeira sobre ela. Essa contradição pode ser disfarçada retratando o governo como uma ocupação e a potência estrangeira como uma libertadora. Mas revela uma prioridade: a vitória da facção prevalece sobre a independência da comunidade nacional.
Javier Milei forneceu a esse empreendimento apoio estatal e ampla cobertura midiática, colocando em risco uma relação estratégica para a indústria, o emprego e a energia argentina. Um vizinho não se muda simplesmente quando, na visão do presidente, ele vota contra ele. Depois de fazer campanha pelo Brasil que desejava, Javier Milei terá que conviver com o Brasil que existe; depois da visita de Flávio Bolsonaro às Cataratas do Iguaçu, ele também terá que explicar o que fez com sua própria fronteira.
A família protege os seus
A sequência de eventos que envolve a fuga revela a natureza mafiosa dessa aliança. O termo descreve uma lógica de lealdade, intimidação e proteção mútua; não prenuncia uma sentença criminal. A sociedade é pressionada a favorecer o parceiro, a suspeita recai sobre as urnas quando este perde, e refúgio é oferecido quando o sistema judiciário do próprio país restringe seus movimentos. Os instrumentos variam, e não conhecemos cada ordem específica, mas a continuidade do favorecimento é evidente.
A comunidade ideológica funciona como uma família que exige obediência externamente, enquanto concede indulgência internamente. O Estado deixa de agir como um bem público e passa a emprestar seus cargos, sua autoridade e seu silêncio a uma solidariedade de clã.
Às 22h50 de terça-feira, 27 de outubro, Flávio Bolsonaro, sua esposa e suas duas filhas entraram na Argentina pela Ponte Tancredo Neves. Às 23h30, embarcaram em um voo particular da Baires Fly em Puerto Iguazú, com destino declarado a Guayaquil. A decolagem ocorreu por volta das 00h21 de quarta-feira. Autoridades de imigração registraram a passagem às 2h01, após a aeronave já ter partido.
A escala para reabastecimento no Equador foi posteriormente documentada por jornalistas da AFP. Washington havia anunciado que concederia vistos à família. A cronologia substitui rumores por uma rota concreta e revela um nível de proteção que vai além dos abraços presidenciais. Essa relação próxima incluiu veículos, uma aeronave e a promessa de entrada.
Flávio Bolsonaro saiu do país apesar de uma ordem judicial. Alexandre de Moraes havia ordenado que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes como parte de uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro; a Polícia Federal cancelou seus documentos brasileiros quando o prazo expirou. O senador nega as acusações. Sua fuga não prova sua culpa, mas também não pode ser descartada como uma viagem em família simplesmente porque um órgão argentino registrou sua entrada sem impedimentos.
O controle de fronteiras permite uma coisa, e uma ordem judicial do país de origem permite outra. Não se deve criar uma brecha entre as duas jurisdições por meio da qual a questão política desapareça. Um carimbo certifica um procedimento; não exime um governo da obrigação de explicar suas ações.
A CNN Brasil noticiou na manhã de terça-feira que a Polícia Federal contatou as autoridades argentinas devido ao risco de fuga. Não conhecemos o texto dessa comunicação, e seria inapropriado confundi-la com um mandado de prisão executável. Mas o alerta, emitido antes da troca de informações, torna essencial questionar o que a Casa Rosada (o palácio presidencial argentino) sabia e o que fez com esse conhecimento.
Notícias argentinas indicaram uma escolta policial até o aeroporto; o jornal La Nación noticiou a presença do principal assessor do governo, Santiago Caputo, em Misiones no momento do embarque. Esses elementos justificam a investigação de assistência oficial, mesmo que não reconstruam a cadeia de comando. A crítica não precisa inventar uma conversa secreta; precisa impedir que o governo se esquive de perguntas públicas.
A comemoração oficial, no entanto, dissipa qualquer dúvida sobre a apropriação política do resultado. Juan Pablo Carreira, Diretor de Comunicação Digital da Presidência, apresentou Flávio Bolsonaro como livre do comunismo e pronto para continuar a luta a partir dos Estados Unidos. Sua mensagem não comprova uma ordem operacional, mas desmente qualquer indiferença.
Enquanto a Imigração descrevia um trânsito, um funcionário da Presidência comemorava um resgate. A burocracia falava em voz baixa, enquanto a propaganda saudava o ocorrido. A Casa Rosada, que não encontrou palavras para parabenizar o brasileiro vitorioso, demonstrou entusiasmo ao se despedir do derrotado. A falta de cortesia foi seletiva; a solidariedade, também.
Santiago Caputo zombou das contradições jornalísticas em torno do paradeiro de Flávio Bolsonaro. Havia erros que precisavam ser corrigidos: uma chegada noturna não invalida uma reportagem matinal que ainda não o havia registrado. Mas essa precisão também não isenta aqueles que gerenciam informações públicas. A confusão se torna uma ferramenta quando desvia o foco do questionamento das decisões do Estado para uma competição sobre qual jornalista cometeu o primeiro erro.
Os que detêm o poder retêm informações e depois ridicularizam aqueles que tentam juntá-las. Enquanto a discussão persegue o mensageiro, o passageiro cruza outra fronteira. É por isso que o rigor não sufoca a denúncia: ele a impede de funcionar na névoa.
Washington anunciou vistos e autorização de entrada; Donald Trump expressou sua disposição em receber a família. Trata-se de uma oferta de boas-vindas, não de asilo já concedido, nem de prova do controle dos EUA sobre cada movimento. O que se sabe é suficiente para demonstrar uma proteção que sobrevive ao revés eleitoral. Do lado argentino, houve trânsito confirmado, escolta relatada e comemoração por parte de um gabinete presidencial; do lado americano, uma recepção pública.
A cumplicidade política se sustenta nessa convergência, enquanto as responsabilidades legais individuais exigem mais evidências. O acordo oferece dois recursos complementares: um território de trânsito e um destino disposto a receber o aliado.
O asilo não deveria depender de simpatias políticas, mas uma investigação também não se torna perseguição simplesmente por afetar um aliado de Donald Trump. Apresentar qualquer ação legal contra o próprio partido como violência comunista introduz uma absolvição ideológica antes mesmo do processo ser aberto. Algo semelhante acontece com as eleições: se o adversário vence, o resultado é suspeito; se o aliado vence, a verdadeira voz do povo se fez ouvir. É assim que se fabrica uma legitimidade portátil, que o líder carrega consigo mesmo que as urnas tenham escolhido outro. A soberania nacional é subordinada a um tribunal estrangeiro de afinidades, cujo presidente decide qual democrata merece um visto e qual democracia merece punição.
A fuga também revela uma distribuição desigual de riscos. O líder tem conexões, aviação privada e refúgio no exterior; seus seguidores permanecem onde enfrentarão as consequências da derrota. A nação pode continuar a exigir sacrifícios de um ponto de vista estrangeiro. Mas o bolsonarismo não é uma força unificada: houve surpresa e inquietação entre os aliados que esperavam que Flávio Bolsonaro liderasse a oposição.
A proteção internacional resguarda um membro do clã sem garantir sua autoridade sobre todo o cenário político. Outros podem contestar sua posição. Uma rede capaz de tirar seu candidato do país não demonstra, portanto, que possa manter a coalizão governista unida.
As raízes da vitória
A aliança reúne interesses que não são idênticos: um produtor brasileiro que vende para a China pode discordar de Washington; uma fábrica argentina pode sofrer as consequências da influência de Javier Milei. Lula mantém espaço para diversificar os laços por meio da China, dos BRICS e do Mercosul.
Mas a multipolaridade não traz automaticamente emancipação: mudar os compradores não transforma uma estrutura produtiva, nem diversificar os credores torna uma dívida justa. A autonomia adquire substância popular quando aumenta a capacidade de decidir sobre trabalho, tecnologia e bens comuns.
Envolve também a infraestrutura onde uma sociedade dialoga. A campanha de Lula contestou eficazmente as plataformas digitais, mas vencer dentro delas não significa governar as suas regras. A promessa de falar diretamente com as pessoas obscurece a empresa que gere a circulação: o intermediário desaparece da imagem, mas permanece no negócio. Resta discutir quem distribui a visibilidade e sob que controle. A soberania digital perde o seu significado se apenas o detentor da arbitrariedade muda; o ativismo empobrece-se quando a participação se reduz a simplesmente transmitir informação.
José Natanson, escrevendo no Le Monde Diplomatique, explica o ressurgimento do partido pela confluência de mobilização, uma ofensiva digital e a liderança de Lula. Sua análise nos permite revisitar uma história incômoda: o partido, nascido das lutas operárias, gradualmente direcionou sua energia para a administração do Estado, enquanto organizações antes combativas tornaram-se cada vez mais dependentes do governo.
O problema não é que um militante ocupe um cargo ministerial; ele começa quando aqueles que o formaram perdem a capacidade de desafiá-lo externamente. As reformas implementadas durante o governo Lula transformaram vidas; não foram mera conformidade fabricada. Mas um direito vivenciado como um favor pessoal pode gerar intensa gratidão e fragilidade organizacional. O protetor acaba arcando com o peso de uma experiência que deveria ser coletivamente sustentável.
A ameaça uniu jovens, mulheres e trabalhadores cuja iniciativa a administração do dia a dia não conseguiu mobilizar. A questão incômoda é por que foi preciso chegar ao abismo para reconhecer sua força. A militância não deve ser um extintor de incêndio que é retirado quando as urnas estão em polvorosa e guardado no corredor depois da apuração.
Aqueles que tornaram a vitória possível têm o direito de discutir seu futuro. Atribuir tudo ao excepcionalismo de Lula mais uma vez relega as massas à margem, quando elas acabaram de desempenhar seu papel na discussão. Sua liderança importa porque articula as capacidades atuais; as forças reacionárias não têm o monopólio da história.
A luta para acabar com a semana de trabalho de seis dias e o fim de semana de um dia levou a democracia ao seu limite. Em 14 de outubro, o Senado aprovou, por 75 votos a um, uma reforma que elimina esse sistema e reduz progressivamente a jornada de trabalho sem redução salarial. Sua implementação abre outro campo de batalha. Essa reivindicação deu substância a uma campanha que poderia ter se dissipado pelo medo: recuperar o tempo para viver é também uma luta pelo poder.
A soberania de um país e a de seus habitantes se cruzam onde alguém decide sobre as horas de trabalho de outros. Uma bandeira defendida no exterior e usada internamente para mascarar desigualdades acaba perdendo o poder daqueles que deveriam sustentá-la. Não basta que a nação respire se seus trabalhadores continuarem sufocados.
A comunicação eficaz não nos exime de discutir os meios empregados. As falsidades atribuídas à campanha de Lula não devem ser confundidas com humor ou provocação. Entre um caso que não comove o público e uma acusação fabricada, existe um vasto campo de narrativa política. Uma esquerda que precisa de pessoas capazes de discernimento não pode tratar sua credulidade como matéria-prima. As mentiras ganham vantagens e deixam para trás hábitos de obediência que outros explorarão. A vitória não legitima todos os meios utilizados: a vitória deve ampliar a autonomia daqueles que a tornaram possível.
A riqueza também vota
A vitória presidencial não garantiu a maioria parlamentar nem eliminou o poder econômico. É importante distinguir o bolsonarismo do centro e do centro-direita, cada um com seus próprios interesses, embora essas diferenças não garantam apoio à redistribuição. Forças rivais podem concordar em encarecer a reforma, adiá-la ou, na prática, anulá-la. A reação do mercado de ações e da moeda após os resultados eleitorais adicionou outra forma de pressão.
Não é preciso imaginar uma conspiração em andamento: decisões isoladas de grandes latifundiários podem convergir para disciplinar um governo. Os cidadãos votam no domingo; na segunda-feira, começa outra contagem, onde cada voto tem peso de acordo com a riqueza do eleitor. A igualdade política encontra aí uma barreira que não está prevista na Constituição.
Pressões externas, restrições financeiras e obstruções parlamentares não decorrem necessariamente de uma única ordem. Seus efeitos podem, contudo, convergir para uma única exigência: reduzir o escopo daquilo para o qual o mandato foi obtido. A proteção internacional de Flávio Bolsonaro acrescenta a capacidade de preservar líderes derrotados e oferecer-lhes um refúgio seguro. Lula impediu que essa rede controlasse também o Poder Executivo brasileiro, mas terá que contestar a substância da presidência que conquistou.
Aqui reaparece a dimensão trágica da conciliação: as concessões que garantem a governabilidade podem enfraquecer a força social necessária para governar. Se cada enfraquecimento justifica a concessão seguinte, o governo acaba oferecendo a neutralização daqueles que o levaram ao poder como garantia de estabilidade.
A negociação faz parte da política; recusar-se a modificar os termos da negociação é uma abordagem que precisa ser discutida. A mobilização pode ampliar esses termos se mantiver sua autonomia e capacidade de formular demandas. Reduzida a aplaudir acordos que não conseguiu debater, ela perde seu poder.
A sucessão de Lula também exige esse tipo de construção: nenhuma tradição pode organizar seu futuro em torno da resiliência biológica de um único homem. Uma candidatura pode ser transmitida; uma experiência emancipadora precisa de líderes e organizações capazes de sustentá-la. Salvaguardar o que Lula representa significa criar as condições para que ele não precise representar tudo.
Para a Frente Ampla do Uruguai, a experiência evidencia a discrepância entre governo, programa e participação. Restrições parlamentares, por si só, não determinam a intensidade das transformações. Se o ativismo surge apenas para defender decisões tomadas em outros lugares, o potencial para ampliar as possibilidades é desperdiçado.
Para a Argentina, o revés sofrido pelo aliado de Javier Milei também não cria automaticamente uma alternativa: o descontentamento exige um programa, conexões e uma visão. O incidente do Iguaçu também exige informação pública e fiscalização do uso de órgãos estatais. Não é preciso esperar por uma condenação brasileira para questionar o que o governo argentino fez. Nenhuma nação pode terceirizar a tarefa de construir sua própria força política para as urnas de um vizinho.
Em artigo “O inferno tem herdeiros”, alertamos sobre uma reação capaz de transmitir recursos, identidades e posições de poder. A derrota de Flávio Bolsonaro não apaga esse legado; Iguazú mostrou que ele também inclui contatos e rotas de fuga. Mas a vitória de Lula nos impede de tratá-la como uma sucessão natural. A luta foi necessária quando a vitória parecia improvável: lutamos também para defender vidas, preservar organizações e manter abertas possibilidades que uma derrota pode fechar. Desta vez, vencemos. Clareza não exige extinguir a alegria, mas sim impedir que ela seja consumida antes de iluminar o que virá a seguir.
O desafio começa com a forma como utilizamos o tempo que conquistamos. Se a mobilização retornar para casa sem voz, se cada promessa se tornar uma explicação de sua impossibilidade e se a autonomia externa não transformar o cotidiano, a reação encontrará terreno fértil para retornar. Se a vitória ampliar direitos e distribuir o poder de decisão, terá começado a transcender as urnas.
O tempo conquistado precisa se tornar nosso: para nos organizarmos, discutirmos o curso de ação e vivenciarmos algo mais do que simplesmente nos recuperarmos da exaustão. O Brasil preservou um respiro para a região. A Entente mantém seus refúgios, fortunas e pistas de pouso. O inferno tem herdeiros e sabe como protegê-los. A eles foi negada a sucessão. O que resta discutir é a escritura do título de propriedade.
*Emilio Cafassi é professor sênior de sociologia na Universidade de Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Olla a presion: Cacerolazos, piquetes y asambleas sobre fuego argentino (Libros del Rojas). [https://amzn.to/442vaxw]
Tradução: Artur Scavone.


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