EUA: o notável triunfo da esquerda democrata

Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, da esquerda do Partido Democrata,, em comício no ano passado. Eles percorreram o país inteiro com a campanha “Combatendo a Oligarquia”, exigindo justiça social e denunciando as políticas autoritárias de Donald Trump. Foto: Tess Crowley/Deseret News

Nas eleições que arrasaram Trump há outro fenômeno político. Candidatos de grupos socialistas quebram preconceitos e avançam com pautas de justiça social e combate à desigualdade. Cai o discurso de medo da ala corporativa do partido


Por Melanie Mason, Blake Jones, Lisa Sahinsky e Liam Dillon, em Politico | Tradução: Antonio Martins

Integrantes de todas as matizes ideológicas do Partido Democrata conquistaram vitórias expressivas em todas as partes dos Estados Unidos na terça-feira. Mas os progressistas reivindicam algo mais com suas vitórias: o reconhecimento.

Com plataformas assumidamente ligadas a um populismo de esquerda, como o Medicare [seguro de Saúde, hoje óferecido apenas aos maiores de 65 anos] para Todos e a taxação dos ricos, candidatos como Abdul El-Sayed em Michigan, Troy Jackson no Maine e Randy Villegas no Vale Central da Califórnia, romperam com as estratégias tradicionais do partido para vencer em distritos disputados entre os dois partidos. Em alguns casos, derrubaram republicanos com mandatos consolidados, que haviam resistido a investidas anteriores dos democratas.

Agora, enquanto esperam por uma primárias presidenciais que testará a direção do Partido Democrata para o pós-Trump, os progressistas sustentam que suas vitórias nestas eleições de meio de mandato estão redefinindo a esquerda, transformando-a de guerreiros culturais em guerreiros do povo.

“Quando as pessoas pensam em hiperprogressistas, imaginam gente de Nova York com cabelo azul, piercings no nariz e dois mestrados”, disse Chuck Rocha. Estrategista democrata e ex-membro da equipe de Bernie Sanders, que trabalhou em 25 campanhas para a Câmara dos Representantes neste ciclo eleitoral. “Muitos desses movimentos dentro do Partido Democrata surgem em São Francisco, Nova York ou Chicago. Mas todas as cadeiras do Congresso conquistadas hoje à noite — especialmente entre os latinos — foram ganhas nos subúrbios e no interior do país.”

A esquerda também estava em ascensão nos territórios urbanos, principalmente na corrida para a prefeitura de Los Angeles, onde Nithya Raman, membro dos Socialistas Democráticos da América (DSA), parece prestes a vencer a prefeita Karen Bass, que, embora profundamente impopular, contava com o apoio da cúpula do Partido Democrata da Califórnia. O bom desempenho de Raman na noite da eleição consolidou a ascensão improvável do DSA ao centro de poder dentro do Partido Democrata, já que podem estar próximos a governar as duas maiores cidades do país.

“O Partido Democrata na Califórnia, e especialmente em Los Angeles, permaneceu completamente adormecido”, disse Rick Cole, codiretor da equipe de transição de Raman. “As ruas estão esburacadas. As calçadas precisam de reparos. Os aluguéis estão absurdamente caros, e os jovens se sentem totalmente marginalizados por uma estrutura democrata fechada. Eles [os voluntários pró Raman] bateram de porta em porta e se manifestaram nas redes sociais. Isso representa um levante contra o status quo.”

Em âmbito nacional, os progressistas exibiram resultados de terça-feira como um golpe na ideia de que certos candidatos da esquerda eram simplesmente inelegíveis em estados decisivos. Um grupo de candidatos democratas progressistas ao Senado ficou apenas alguns pontos atrás dos candidatos a governador mais centristas e que buscam consenso dentro do partido. Essa diferença ainda pode reforçar o argumento dos moderados, de que seus candidatos são os que têm melhor desempenho eleitoral. Mas, ao contrário do que diziam os moderados, os candidatos progressistas não perderam cadeiras importantes — e saíram com muitos motivos para comemorar.

Os democratas tradicionais minimizaram as implicações da eleição para a ala esquerda do partido, argumentando que a poderosa onda democrata que varria o país não era exclusiva dos progressistas. “Nossas vitórias esta noite são tão expressivas que nenhuma ala ou setor do partido conseguirá ditar as regras”, disse o ex-governador da Virgínia, Terry McAuliffe.

Antonio Villaraigosa, ex-prefeito de Los Angeles e aliado próximo de Bass, afirmou: “Bons candidatos asseguram uma vantagem. E acho que tínhamos candidatos melhores — alguns progressistas, alguns moderados — do que o outro lado.” Ele acrescentou: “E, mais importante ainda, as pessoas estão cansadas de Donald Trump.”

Outros democratas, mesmo enquanto comemoravam o sucesso dos progressistas, mostravam-se mais cautelosos em relação à esquerda recém-fortalecida. “Os democratas esperam que a DSA tenha um certo nível de maturidade em relação à forma como constrói uma coalizão na Câmara, à medida que elege seus membros em diferentes partes do país, porque precisamos manter a pressão sobre os republicanos”, disse Michael Trujillo, estrategista democrata de Los Angeles. “O inimigo não é o seu colega de bancada.”

Os apelos à cordialidade contrastavam com as comemorações da noite eleitoral de alguns dos progressistas vitoriosos, que enquadraram suas vitórias não apenas como um golpe para Trump e os republicanos, mas também para a liderança de seu próprio partido.

“Disseram-nos que o establishment era forte demais. Que Washington iria ditar quem ganharia e quem perderia. Que Washington e seus interesses especiais não nos queriam. Disseram-nos que, quando os votos fossem contados em 4 de agosto [data das eleições primárias democratas] e novamente em 3 de novembro, o partido teria desperdiçado tempo, dinheiro e energia”, disse o senador eleito pelo estado de Michigan, Abdul El-Sayed, em um discurso de vitória desafiador em Detroit. “E agora? É 3 de novembro e os votos foram contados. E o que mostramos a eles? Que um movimento do povo, pelo povo e para o povo acabará vencendo.”

Michigan foi talvez o palco mais acirrado da guerra entre as facções do Partido Democrata. Os progressistas viam o estado decisivo como a maior prova, neste ciclo eleitoral, de que poderiam vencer em um território disputado. Argumentavam que a mensagem econômica populista de El-Sayed e políticas como o Medicare para Todos haviam capturado a atenção dos eleitores — e acusaram a ala tradicional do partido de sabotar a campanha do progressista. O líder do partido no Senado, Chuck Schumer, apoiou firmemente a deputada moderada Haley Stevens, nas acirradas primárias democratas. Além disso, a dois dias da eleição, a própria Stevens voltou-se contra seu partido e passou a apoiar o ex-deputado republicano Mike Rogers. A deputada Ayanna Pressley (democrata de Massachusetts) criticou abertamente o Comitê de Campanha Senatorial Democrata por não fazer um “investimento equitativo” em El-Sayed e outros candidatos da ala esquerda.

Mas os parlamentares alinhados com a cúpula do partido insistem que impulsionaram El-Sayed à vitória. Os coordenadores do fundo de arrecadação eleitoral dos democratas (Senate Majority PAC) afirmaram ter investido mais de US$ 65 milhões na campanha e antecipado a veiculação de seus anúncios na televisão, devido à enxurrada de gastos republicanos contra El-Sayed.

A vitória esmagadora dos democratas também levou a algumas disputas inesperadamente acirradas para progressistas, que a cúpula do partido ignorou em grande parte, alimentando ressentimentos na esquerda sobre oportunidades perdidas. “Na disputa por uma cadeira no Senado na Flórida, Angie Nixon [candidata da esquerda do partido] foi deixada sozinha pela direção democrata. É uma grande vergonha. O que mais ela precisava provar? Ela venceu as primárias com folga, contra todas as expectativas”, disse Nina Turner, ex-legisladora estadual de Ohio e progressista muito ativa. “É preciso haver uma reflexão sobre a campanha dela e a de Charles Booker no Kentucky. Se o Comitê Nacional Democrata (DNC) e o Comitê de Campanha Democrata do Senado (DSCC) tivessem investido nessas campanhas como fizeram em outras, esses dois candidatos corajosos poderiam ter vencido.”

A senadora Kirsten Gillibrand, de Nova York, que preside o braço de campanha dos democratas no Senado, disse que o partido “investiu na Flórida”, mas que é “um estado muito grande e caro”. Em seguida, concedeu: Acho que o que ela conquistou, o que arrecadou e como se engajou gerou uma energia enorme na base, é uma prova da força de sua candidatura. A Flórida agora será um estado que observaremos e tentaremos conquistar.”

Na Califórnia, a multidão reunida em uma boate no centro da cidade explodiu em aplausos quando Jorge Contreras, dirigente do Partido das Famílias Trabalhadoras da Califórnia, mostrou os resultados iniciais promissores para os progressistas do estado — Villegas, Angela Gonzales-Torres e Jane Kim. O público também vaiou a menção ao democrata moderado que Villegas derrotou nas primárias.

“O que provamos esta noite é que é possível conduzir esse tipo de campanha sem aceitar dinheiro, sem de corporações, do AIPAC [o principal lobby sionista], mantendo-nos fiéis aos nossos valores. E apesar de tudo isso, vencemos de forma decisiva. Isso envia uma mensagem de que a política pode ser feita de maneira diferente”, disse Villegas ao declarar vitória poucas horas após o fechamento das urnas.

É uma mensagem que os progressistas agora esperam que os candidatos do seu partido em 2028 internalizem. “Para 2028, é a prova de precisamos seguir nossos valores e lançar um candidato que realmente fale a verdade e não seja comprado por chefões corporativos”, disse Contreras.

Daniel Miller, Jalen Beckford, Alex Nieves, Jessica Piper, Jordain Carney e Tyler Katzenberger contribuíram para esta reportagem.



Comentários