Perfil psicológico de pessoa com mentalidade fascista ou fanática

Ato bolsonarista na Avenida Paulista - CRÉDITO: ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL

Uma análise das diferenças entre disposições comportamentais individuais e adesão ideológica no cenário político atual

Diante dos episódios de violência contra petistas, durante a campanha e após a eleição, é necessário distinguir o perfil psicológico do fanático, porque descreve disposições individuais, da adesão ideológica do fascista, porque envolve valores e posições políticas.

Não existem ainda diagnósticos clínicos de bolsonaristas de modo a permitir identificar fascistas ou fanáticos por aparência, escolaridade, renda, religião ou origem social. Entretanto, a partir de descrições típicas, é possível identificar tendências comportamentais e apresentar um perfil psicológico comparado.


Esses traços são tendências analíticas, não características obrigatórias de cada indivíduo bolsonarista.

Uma pessoa pode apresentar rigidez intelectual sem defender o fascismo. Também pode valorizar a autoridade e a ordem sem rejeitar a democracia. O elemento decisivo está na combinação entre crenças, comportamentos e relação com os direitos dos outros.

Uma contribuição complementar sobre a personalidade autoritária, proveniente da psicologia social e dos estudos sobre autoritarismo, é a identificação de disposições como submissão à autoridade, agressividade contra grupos percebidos como desviantes e valorização de convenções rígidas.

Entretanto, essas disposições não pertencem exclusivamente a uma ideologia política. Além disso, atitudes autoritárias não constituem, por si mesmas, diagnóstico de transtorno mental.

Logo, o fascismo deve ser estudado como fenômeno político e histórico, não reduzido a uma patologia psicológica dos seus adeptos.

Ao traçar o perfil social e cultural, aparece uma diferença importante entre as interpretações simplificadoras e a abordagem histórico-sociológica. Não existe uma classe social única, nem um nível educacional específico, determinante da adesão ao fascismo ou ao fanatismo.

Movimentos fascistas históricos reuniram setores sociais distintos, incluindo segmentos das classes médias, trabalhadores, empresários, militares e funcionários públicos. O apoio a esses movimentos dependeu de conjunturas específicas, como crises econômicas, conflitos sociais, instabilidade institucional e transformações culturais.

No caso do fanatismo, o fenômeno é inseparável de seu ambiente coletivo. Podemos organizar as condições favorecedoras em quatro dimensões:

psicológica: necessidade de certezas, dificuldade de tolerar ambiguidades e identificação intensa com uma causa.

social: fortalecimento de identidades de grupo construídas em oposição a adversários percebidos como ameaçadores.

cultural: valorização de verdades indiscutíveis, obediência hierárquica e rejeição do debate crítico.

político-institucional: enfraquecimento de mecanismos de contestação, pluralismo e responsabilização do poder.

Essas condições podem interagir, mas nenhuma delas determina automaticamente a adesão individual.

Um mecanismo de retroalimentação encontra-se em um possível circuito de radicalização coletiva: Crise social e percepção de ameaça → Busca de certezas e pertencimento coletivo → Identificação com liderança ou doutrina infalível → Hostilidade aos discordantes e fechamento do grupo → Redução do diálogo e intensificação da polarização.

O processo pode reforçar percepções de ameaça e reiniciar o ciclo. Este é um modelo interpretativo de possíveis interações sociais, não uma sequência necessária nem um diagnóstico individual.

A interpretação sistêmica ajuda a compreender por qual razão o fanatismo pode adquirir grande força coletiva sem todos os participantes compartilharem exatamente as mesmas motivações. Alguns podem agir por convicção ideológica, outros por pertencimento, conformismo, interesses materiais ou medo de exclusão.

O fanatismo pode produzir conformismo, enquanto dirigentes cínicos podem instrumentalizar a devoção dos seguidores. Vide pastores tipo Malafaia…

Todo fanático é fascista? Todo fascista é fanático? Não.

O fanatismo é mais amplo diante do fascismo. Pode aparecer em movimentos religiosos, nacionalistas e revolucionários de diferentes orientações.

O fascismo é mais específico diante do fanatismo. Envolve um projeto político autoritário, com características institucionais e históricas identificáveis.

A distinção também vale para a relação entre conservadorismo, radicalismo e fascismo. Ser conservador, nacionalista, religioso, anticomunista ou defensor de políticas de segurança rigorosas não basta para caracterizar alguém como fascista.

A classificação exige examinar o conjunto de posições e práticas, especialmente a relação com o pluralismo político, as liberdades civis, a competição democrática e o uso da violência.

Da mesma forma, uma convicção religiosa intensa não equivale a fanatismo. O critério relevante é a disposição de impor essa convicção clerical aos demais, particularmente mediante coerção.

Para prevenir o fanatismo e a formação de movimentos fascistas, o antídoto não consiste apenas em transmitir conhecimentos científicos ou combater a ignorância. A experiência histórica demonstrou: sociedades escolarizadas também podem desenvolver movimentos fanáticos.

Sem dúvida, tem importância uma educação intelectual e civil, baseada na livre discussão, no espírito crítico e na rejeição de verdades oficiais incontestáveis. No caso do fascismo, a prevenção também envolve condições institucionais e sociais.

É possível distinguir quatro frentes complementares:

educação crítica: desenvolver a capacidade de examinar evidências, reconhecer erros e conviver com divergências.

pluralismo democrático: assegurar liberdade de expressão, organização política e proteção das minorias.

instituições responsáveis: preservar eleições competitivas, independência judicial e mecanismos de fiscalização.

integração social: enfrentar condições de exclusão, insegurança e desagregação que podem alimentar conflitos e ressentimentos.

Essas medidas não garantem o desaparecimento do autoritarismo ou do fanatismo, mas podem reduzir as condições favoráveis à sua expansão.

Enfim, é possível identificar três personagens sociopolíticos distintos.

O fascista, entendido como participante de um movimento fascista, procura organizar o poder segundo uma lógica de autoridade concentrada, mobilização nacionalista e supressão do pluralismo.

O fanático acredita possuir uma verdade absoluta e considera legítimo impor essa verdade aos demais, inclusive mediante coerção.

O conformista pode não compartilhar plenamente as convicções dominantes, mas evita contestá-las por receio das consequências.

Há ainda um quarto personagem: o cínico, capaz de instrumentalizar o fanatismo alheio sem acreditar necessariamente nas ideias mobilizadoras de massa fanática.

A coexistência desses comportamentos ajuda a explicar como correntes neofascistas podem reunir seguidores convictos, dirigentes oportunistas e cidadãos resignados.

Portanto, necessitamos ter atenção: não existe um perfil psicológico, social ou cultural único capaz de permitir identificar antecipadamente uma pessoa fascista ou fanática. As duas categorias precisam ser reconhecidas principalmente por ideias defendidas, comportamentos observáveis, práticas de organização e relações estabelecidas com a liberdade dos outros.

O fascismo exige análise histórica e institucional. O fanatismo exige análise das crenças, atitudes e relações sociais. Em ambos os casos, a proteção do pluralismo e da capacidade crítica é essencial.

Uma sociedade democrática não exige cidadãos sem convicções fortes. Exige, sim, que suas convicções não sejam transformadas em autorização para eliminar a liberdade ou a vida dos demais.



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