O presidente do Brasil receberá uma homenagem inédita na noite de abertura do desfile, com uma efígie gigante sua.
Tom Phillips no Rio de Janeiro. Fotografias de Alan Lima.
theguardian.com/
Ele é um gigante da política brasileira e em breve se tornará também um gigante do carnaval brasileiro: uma figura metálica de 22 metros, para ser mais preciso.
Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu da pobreza rural para se tornar o primeiro presidente operário de seu país, receberá uma homenagem inédita na noite de abertura do desfile de carnaval do Rio, neste domingo.
A escola de samba responsável pela homenagem – Acadêmicos de Niterói – construiu seu desfile de 2026 em torno da extraordinária trajetória de oito décadas do presidente Lula: desde sua infância humilde no árido nordeste do Brasil, passando por suas lutas como engraxate e operário em uma fábrica na São Paulo industrial, até seus três mandatos presidenciais na capital, Brasília.
Fabiano Leitão, um trompetista de esquerda, será um dos cerca de 3.000 foliões e artistas que participarão do desfile da escola.
“O maior brasileiro de todos os tempos… merece ser celebrado no maior palco do Brasil”, disse Fabiano Leitão, trompetista de esquerda e um dos cerca de 3.000 artistas que participarão do desfile da escola.
Durante o desfile, dançarinos de samba usando capelos e segurando diplomas universitários representarão os esforços de Lula para democratizar o ensino superior. Vítimas reais da ditadura militar brasileira e seus descendentes simbolizarão a defesa da democracia feita por Lula durante a tentativa de golpe de direita de Jair Bolsonaro em 2022. A imponente efígie de Lula, mais alta que a Grande Esfinge de Gizé, seguirá milhares de sambistas pelo Sambódromo lotado do Rio.
“A vida dele tem uma trajetória incrível… um cara de origem humilde, que passou fome, chega à presidência sem ir para a universidade e faz tudo o que fez pelo Brasil e pelos brasileiros”, disse Tiago Martins, diretor criativo da escola, celebrando as cruzadas de Lula contra a insegurança alimentar e a pobreza extrema. “Como poderíamos não contar a história de um homem assim?”
O desfile marcará a primeira vez que um presidente brasileiro em exercício será homenageado durante as festividades de carnaval do Rio, embora homenagens póstumas tenham sido prestadas aos falecidos líderes Getúlio Vargas, em 1956, e Juscelino Kubitschek, em 1981. Esse fato gerou reclamações de críticos de direita, que alegam que o desfile constitui um ato ilegal de campanha eleitoral, financiado em parte com dinheiro dos contribuintes.
Integrantes da escola de samba Acadêmicos de Niterói participam de um ensaio para o desfile que antecede a homenagem a Lula no domingo.
Martins insistiu que a extravagância de Niterói era uma celebração de uma figura histórica influente, e não uma peça de propaganda política destinada a aumentar o apoio a Lula. "Isto não é uma campanha. Não temos um slogan", disse ele.
Mas o espetáculo acontece em um momento crítico para a política brasileira e para os 44 anos de carreira política de Lula.
Em outubro, a maior democracia da América do Sul realizará suas eleições presidenciais e Lula planeja buscar um quarto mandato sem precedentes, em sua sétima campanha presidencial desde que se candidatou pela primeira vez ao cargo em 1989. Se o veterano do Partido dos Trabalhadores (PT) vencer, terá 85 anos quando deixar o cargo no final de 2030. Lula já é um dos líderes democraticamente eleitos mais velhos do mundo. Na semana passada, Lula previu que a eleição seria uma “guerra” acirrada, aparentemente entre ele e o senador Flávio Bolsonaro, que prometeu concorrer no lugar de seu pai, que está preso.
A idade de Lula tem levado alguns a temer que ele se torne uma resposta brasileira a Joe Biden, que abandonou sua campanha de reeleição em 2024 após um debate constrangedor com Donald Trump.
Mas aqueles que conviveram com o político octogenário insistem que ele está em plena forma.
A homenagem dos Acadêmicos de Niterói a Lula contará a história de sua extraordinária vida de oito décadas.
“Você viu aquela foto recente dele na praia de sunga?”, perguntou Martins enquanto percorria o galpão onde sua escola de samba está preparando os carros alegóricos.
“Esse cara tem vigor. Ele está em melhor forma do que muitos jovens… Ele tem 80 anos. Essa é a idade em que você poderia dizer que alguém está no fim da carreira, mas ele está mostrando que ainda tem muita energia”, acrescentou Martins, que se encontrou com Lula recentemente na residência presidencial para mostrar a ele seus planos para o carnaval.
Martins não tinha certeza se o presidente brasileiro, frequentador assíduo de academias, sabia dançar samba, mas o mestre de cerimônias do carnaval esperava que ele comparecesse no domingo para que o público tivesse a chance de descobrir.
O amigo e biógrafo de Lula, Fernando Morais, confirmou que Lula participaria do desfile e disse que os dois apareceriam juntos – vestindo calças e sapatos brancos – em um carro alegórico repleto de amigos do presidente.
Ao falar após Lula anunciar sua candidatura em outubro passado, Morais rejeitou comparações com Biden. "Ele sempre brinca dizendo que vai chegar aos 130 anos. Ele ficou super empolgado quando aquela conversa entre Xi Jinping e Putin vazou por um microfone aberto e... [Xi disse que as pessoas poderiam] começar a viver até os 150 anos", brincou Morais.
O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, conversa com Lula durante a inauguração da construção de uma refinaria de petróleo em Recife, Brasil, em 2005. Fotografia: Evaristo Sa/AFP/Getty Images
Apesar de toda a vitalidade de Lula, Morais achava que ele poderia ter feito mais para preparar um sucessor. O escritor de 79 anos lembrou-se de ter presenciado uma conversa entre Lula e Hugo Chávez, na qual o brasileiro disse ao seu homólogo venezuelano: “Você precisa pensar na sua sucessão. Todos nós somos mortais.”
“[Lula] acabou não fazendo isso ele mesmo. Ele deu esse conselho, mas em sua própria vida política não o seguiu, não incentivou o surgimento [de um herdeiro]”, disse Morais, embora tenha citado o ministro das Finanças, Fernando Haddad, de 63 anos, e o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, de 43 anos, como potenciais herdeiros.
Segundo informações, Boulos também participará da procissão de domingo, juntamente com pelo menos outros cinco ministros de Lula e a primeira-dama, Rosângela da Silva, conhecida como Janja.
Em um ensaio geral realizado na última sexta-feira, sob forte chuva, Janja, de 59 anos, exibiu sua habilidade na dança diante de centenas de apoiadores eufóricos de Lula, que agitavam bandeiras e faziam o sinal de "L" com as mãos.
Mas será que o marido dela, de 80 anos, sabe dançar a famosa e difícil dança brasileira?
“Ah, sim, muito melhor do que eu. Vou ter que fingir – mas ele sabe”, insistiu Morais enquanto se preparava para voar para o Rio para a festa de Lula. “Eu já o vi fazer isso… Ele não vai precisar enganar ninguém… Ele está em ótima forma.”

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