Karl Marx e a necessidade da teoria

Marx e Engels no congresso de fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, ocorrido em 1872 na cidade de Haia, autor desconhecido. Imagem: Wikimedia Commons

Por Bruno Fernandes

Um dos problemas clássicos da história da filosofia é o da relação entre o filósofo e a sociedade ou, em termos mais específicos, entre teoria e práxis. Desde a tentativa de Platão de formar um rei-filósofo em Siracusa até as múltiplas figuras modernas do intelectual engajado, a filosofia oscilou entre a contemplação crítica do mundo social e a pretensão de intervir em sua transformação, mas ao longo de seus mais de dois milênios de história, ela talvez não tenha conhecido uma articulação tão radical entre a compreensão crítica do mundo e um projeto de transformação social quanto aquela formulada por Karl Marx em meados do século XIX, e posteriormente desenvolvida pelas diversas correntes do marxismo. 

Não é por acaso que a definição de filosofia crítica proposta por Marx em 1843 permanece insuperada em sua concisão e alcance: trata-se do “autoentendimento da época sobre suas lutas e desejos”1. Nessa formulação, a filosofia deixa de ser um discurso externo ou normativo sobre a sociedade e passa a constituir um momento reflexivo imanente às contradições históricas de seu tempo. A partir dessa perspectiva, a relação entre teoria e práxis não pode ser pensada como uma simples passagem da reflexão à ação, mas como uma unidade mediada, na qual a crítica teórica é condição de possibilidade de uma prática verdadeiramente emancipatória. 

O caráter revolucionário do pensamento de Marx não o impediu de se considerar, antes de tudo, um homem teórico. Mais precisamente, ele recusava qualquer forma de prática que não estivesse sustentada por uma teoria crítica capaz de apreender as determinações objetivas do modo de produção capitalista. Essa posição aparece de forma particularmente clara em sua correspondência com Siegfried Meyer. Na carta enviada em 30 de abril de 1867, Marx justifica a sua demora em responder a mensagem do interlocutor afirmando que esteve “o tempo todo às portas da morte”. Os problemas de saúde, aliados a dificuldades financeiras constantes, levaram os médicos a recomendarem-lhe repouso. Ainda assim, Marx continuava trabalhando noites inteiras. “Por isso”, escreve ele, “tive que aproveitar cada momento em que estava em condições de trabalhar para terminar meu livro, pelo qual sacrifiquei minha saúde, minha felicidade e minha família. Espero que essa explicação seja suficiente”2.

À primeira vista, esse testemunho poderia ser interpretado como expressão de egoísmo ou mesmo indiferença diante das relações sociais imediatas. Tal leitura, no entanto, reproduz precisamente o tipo de consciência que Marx identifica como típica das sociedades modernas, nas quais os indivíduos são como mônadas isoladas. A modernidade caracteriza-se pela subordinação da sociedade ao indivíduo, em contraste com as sociedades tradicionais, nas quais o indivíduo é subordinado ao todo social. Nesse contexto, as aspirações coletivas tendem a perder força diante da primazia das demandas individuais. 

Marx se distancia conscientemente dessa forma de subjetividade moderna. Ao afirmar a Meyer que “se alguém quisesse ser um boi, poderia virar as costas para os sofrimentos da humanidade e cuidar apenas da própria pele”3, ele rejeita explicitamente a figura do homo economicus, isto é, do indivíduo reduzido à lógica da troca, da utilidade e do interesse privado. O capital não é simplesmente a obra de um indivíduo genial, mas a expressão teórica das contradições objetivas de uma sociedade inteira. Trata-se de uma crítica imanente do modo de produção capitalista, produzida a partir de suas próprias categorias fundamentais e orientada pela necessidade interna de sua crise e superação. Afinal, “a sociedade atual não é um cristal inalterável, mas um organismo capaz de transformação e em constante processo de mudança”4.

Essa posição permite responder a uma objeção recorrente: se Marx estava genuinamente comprometido com a transformação social, por que dedicou tanto tempo à elaboração teórica em vez de se engajar exclusivamente nas lutas práticas? Sua resposta é contundente: “rio-me dos chamados homens práticos e de sua suposta sabedoria”, escreveu ele, afirmando ainda que “teria me considerado verdadeiramente ‘não prático’ se tivesse morrido sem concluir meu livro, ainda que apenas em manuscrito”5. Com isso, Marx indica que uma prática desprovida de reflexão crítica não apenas falha em compreender as condições materiais de sua própria ação, como pode reproduzir, no interior do movimento operário, as formas de sociabilidade próprias do capitalismo. A práxis revolucionária exige, portanto, uma mediação teórica capaz de atingir as raízes estruturais da exploração, em vez de limitar-se a seus sintomas imediatos. 

Essa unidade mediada entre teoria e práxis manifesta-se também na atuação política concreta de Marx. Ao longo de sua vida, ele esteve vinculado a diferentes organizações e movimentos, destacando-se sua participação na Associação Internacional dos Trabalhadores. Nos debates da década de 1860, sua controvérsia com John Weston ilustra a função crítica da teoria no interior das lutas sociais.  

Weston sustentava que o aumento dos salários prejudicaria os próprios trabalhadores, partindo da premissa de que produção e salários seriam grandezas fixas. Marx desmonta essa posição, primeiro demonstrando empiricamente que tais grandezas são variáveis e, em seguida, argumentando que, mesmo se fossem fixas, não haveria razão para considerar ilegítima a reivindicação salarial, já que o mesmo raciocínio deveria valer para os lucros.  

Como explica em Salário, preço e lucro, a redistribuição interna das partes de um montante total não altera necessariamente seu valor global.6 Essa intervenção não apenas legitima a luta por aumentos salariais, como abre espaço para reivindicações mais amplas, articulando lutas imediatas a uma crítica estrutural do capitalismo. Trata-se de um exemplo concreto de como a teoria crítica opera como momento constitutivo da práxis, orientando-a e impedindo que se limite a respostas meramente reativas. 

É evidente que o capitalismo do século XXI apresenta formas de organização distintas daquelas analisadas por Marx no século XIX. As plataformas digitais, a flexibilização do trabalho e a ideologia do empreendedorismo de si mesmo parecem inaugurar um novo regime de subjetivação. Nesse processo, direitos trabalhistas já fragilizados são sistematicamente corroídos, enquanto a concorrência generalizada produz sujeitos precarizados, flexíveis e facilmente governáveis. 

No entanto, sob essas novas formas, persistem determinações fundamentais do capitalismo já identificadas por Marx: intensificação da exploração da força de trabalho, precarização das condições laborais, ampliação do exército industrial de reserva, concentração de capital em poucas mãos e destruição da natureza. A crítica marxiana não apenas se mantém, mas é, nesse sentido, atualizada e aprofundada por autoras contemporâneas como Silvia Federici, ao analisar o trabalho não pago, e Nancy Fraser, ao discutir a tensão entre redistribuição e reconhecimento. 

Diante desses novos-velhos problemas, uma teoria que se pretenda crítica deve retomar a pergunta pelas lutas e desejos de seu tempo e por suas possibilidades efetivas de emancipação. Sua tarefa não é oferecer receitas normativas, mas tornar visíveis, por meio de categorias e mediações conceituais, contradições que tendem a ser naturalizadas. Ao fazê-lo, a teoria crítica revela simultaneamente as formas de dominação e exploração e as condições de sua superação.

A consciência filosófica não pode permanecer paralela à miséria real. Pelo contrário, deve escancarar a realidade social, pois apenas assim a humanidade pode reunir forças para realizar o desencantamento da alienação. Nas palavras do próprio Marx, “trata-se de um trabalho pelo mundo e por nós mesmos, possível apenas como obra de forças unificadas”7. A emancipação não exige absolvição moral, mas o reconhecimento crítico daquilo que somos e das condições históricas que produzimos.  

Notas

  1. Marx, Karl. Cartas dos Anais franco-alemães. In. Sobre a questão judaica. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 73. ↩︎
  2. Marx, Karl; Engels, Friedrich. Collected works. Letters 1864-68. Translators Christopher Upward and John Peet. Great Britain: Lawrence & Wishart, 2010, p. 366. ↩︎
  3. Idem. ↩︎
  4. Marx, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro 1: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 80. ↩︎
  5. Marx, Karl; Engels, Friedrich. Marx, Karl; Engels, Friedrich. Collected works. Letters 1864-68. Translators Christopher Upward and John Peet. Great Britain: Lawrence & Wishart, 2010, p. 366. ↩︎
  6. Marx, Karl. Salário, preço e lucro. Tradução de Eduardo Saló. São Paulo: Edipro, 2020, p. 23-24.  ↩︎
  7. Marx, Karl. Cartas dos Anais franco-alemães. In. Sobre a questão judaica. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 73. ↩︎

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Bruno Fernandes é doutorando em Filosofia pela UFSCar e bolsista FAPESP. 


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