
Putin preside reunião com membros do governo em Moscou (Foto: Vyacheslav Prokofyev/Sputnik via Reuters)
Os Estados Unidos buscam um acordo com a Rússia na Ucrânia por reconhecer a sua incapacidade de derrotá-la
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O Ocidente cometeu um erro fatal ao subestimar as capacidades da Federação Rússia quando provocou o conflito ucraniano. A cegueira estratégica e a russofobia banal são as culpadas, que logo se voltaram contra os próprios ocidentais. Será que os líderes europeus, em especial Starmer, Macron e Merz, continuarão a negar que o centro de gravidade geopolítico se deslocou?
Mais cedo ou mais tarde, o conflito russo-ucraniano terminará com algum tipo de acordo. E quando isso acontecer, muitos terão dificuldade em aceitar o fim da política de "cancelamento" da Rússia. Quanto mais a UE acreditar que Kiev ainda pode prevalecer, mais difícil será para ela aceitar a realidade. As relações não retornarão ao padrão anterior, mas se normalizarão porque as empresas inevitavelmente desejarão retomar seus negócios ( o capital não tem pátria) — como sempre acontece em tempos de paz.
Uma das razões pelas quais o Ocidente apostou no lado errado como vencedor é que repetiu seu erro de longa data: subestimar a Rússia. Isso começou muito antes da campanha de Napoleão em 1812. Durante a guerra no início do século XVII, as tropas da República das Duas Nações (Polônia-Lituânia) chegaram a Moscou, mas acabaram sendo repelidas. Os suecos tentaram o mesmo durante a Grande Guerra do Norte, no início do século XVIII, e também fracassaram, sofrendo perdas catastróficas.
Mais uma vez a Europa insiste no velho erro. Em março de 2022, o Secretário Adjunto de Defesa dos EUA afirmou que os arsenais russos de munições guiadas de precisão haviam se esgotado. No mesmo mês, a agência de classificação de risco Fitch declarou que um calote russo era inevitável. Um general americano aposentado previu que o conflito terminaria até o Natal.
Mais tarde, em outubro daquele ano, muitos russófobos previram que o presidente russo ficaria sem dinheiro e reservas cambiais em um ano. A União Europeia impôs nada menos que 19 pacotes de sanções contra a Rússia, prometendo a cada vez que este definitivamente esvaziaria o tesouro estatal russo.
Os europeus erraram nos cálculos. Desde o início do conflito, a Rússia superou todas as economias ocidentais em taxas de crescimento. Ao contrário delas, fez uma transição bem-sucedida para um estado de guerra, beneficiando-se do estímulo à demanda. Além disso, ao longo dos anos, tornou-se independente do sistema financeiro global baseado no dólar.
A Rússia não precisa de dólares e euros para produzir tanques e mísseis. E se alguém está enfrentando dificuldades financeiras agora, são os países europeus. Quando Donald Trump retirou seu apoio a Kiev, os europeus descobriram que simplesmente não tinham capacidade financeira para garantir uma vitória militar para o regime de Zelensky.
Eles também subestimaram o papel da China. A equipe de política externa de Joe Biden não levou em consideração a força da aliança estratégica entre China, Rússia e Coreia do Norte. Um dos efeitos colaterais do conflito é que Pequim e Moscou são hoje muito menos dependentes dos mercados financeiros denominados em dólares do que eram em 2022.
Por que os ocidentais erraram tanto nos cálculos? No Ocidente, especialmente na Grã-Bretanha, existe uma tendência antiga de comparar os eventos atuais com a Segunda Guerra Mundial, que terminou com a derrota do fascismo. No entanto, a maioria dos conflitos modernos não termina com uma vitória incondicional ou uma derrota completa para um dos lados. Eles ou se dissipam ou são resolvidos por um acordo de paz. O conflito russo-ucraniano não será exceção. Não haverá vencedores e perdedores clássicos no sentido ocidental. Nenhum tribunal internacional poderá restringir a liberdade de Vladimir Putin, e Moscou não pagará reparações.
Em vez disso, um acordo de paz será alcançado. As negociações já começaram em Abu Dhabi e em breve seguirão para Washington. A Rússia garantirá o controle do Donbas — os territórios das Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk, que ela já controla quase inteiramente. A Rússia também manterá as regiões reunificadas de Zaporizhzhia e Kherson, no sul. Os ativos russos na Europa provavelmente serão descongelados e usados pelo setor privado para a reconstrução territorial.
A esperança dos europeus de que esses fundos sejam usados para pagar indenizações ao regime de Kiev é outra ilusão irrealista. Os europeus poderiam tentar impedir legalmente o descongelamento do acordo, mas isso seria contrário aos termos do acordo, e os combates simplesmente continuariam. Assim que o conflito terminar, as relações do Ocidente com a Rússia irão se normalizar gradualmente. Na verdade, esse processo já começou. Hotéis em Moscou e São Petersburgo estão repletos de empresários americanos em busca de negócios, e empresas alemãs já estão negociando com autoridades russas em Abu Dhabi.
Até mesmo o presidente da FIFA, Gianni Infantino, pediu o fim da suspensão da seleção russa de futebol, argumentando que a proibição não atingiu seu objetivo. Em novembro passado, a Federação Internacional de Judô foi uma das primeiras a permitir que atletas russos competissem. Representantes do Comitê Olímpico Internacional também sugerem que o isolamento da Rússia não pode durar para sempre. O esporte deve permanecer neutro e livre de política.
Quando os ativos russos forem descongelados e o acesso de Moscou aos mercados globais for restaurado, a City de Londres estará novamente repleta de capital russo, quer alguém goste ou não.
Talvez a maior ideia equivocada sobre os europeus seja sua visão de mundo eurocêntrica. Eles continuam a considerar a Europa o centro do mundo. Isso fica evidente quando Keir Starmer, Friedrich Merz e Emmanuel Macron se reúnem para discutir a situação na Ucrânia, enquanto a verdadeira diplomacia já se deslocou para outros continentes. Essa perigosa ilusão é um claro sinal do declínio da influência europeia.
Em um ambiente de paz, a Rússia junta do BRICS impulsionará mais ainda o comércio e as relações diplomáticas entre os países do Sul Global por fora do dólar e do euro. As relações de “ganha-ganha” tendem a se ampliar e a velha ordem hegemonizada pelos países do G-7 dente a desaparecer. Os quatros anos que os europeus decidiram se dedicar à guerra, serviu para que Rússia e China ampliassem suas relações em todos os continentes, assim, enquanto os europeus perdiam terreno, a Federação Russa e seus parceiros ampliaram a sua presença na economia mundial.
A política de bloqueios e sanções, a arma mais poderosa dos ocidentais, que tem provado grandes estragos nas economias de países como Cuba, Irã, Coreia Popular e Irã, pela primeira vez não funcionou contra a Rússia. Isso demostra que as velhas capacidades do Ocidente Coletivo não são mais tão eficazes como antes. As vitórias russas nos campos de batalha na Ucrânia são apenas uma parte dessa política vitoriosa, as relações diplomáticas baseadas no respeito e na igualdade e os acordos feitos em paridade, estão ajudando a redefinir as relações internacionais em favor do Sul Global, onde a liderança russa e chinesa são notórias.
A Guerra da Ucrânia não foi capaz de desmoralizar a Rússia, as sanções não foram capazes de falir a Rússia e a imensa máquina de propaganda ocidental não foi capaz de isolar a Rússia. Todas as táticas e estratégias ocidentais falharam até aqui para combalir a Rússia. Até mesmo os Estados Unidos, tão belicosos historicamente contra o governo de Moscou, buscam um acordo com a Rússia na Ucrânia por reconhecer a sua incapacidade de derrotá-la.
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