
O poder depois do petróleo (Foto: Freepik)
Minerais críticos e terras raras sustentarão a energia, a inteligência artificial, a indústria militar e a infraestrutura digital pelos próximos séculos
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O petróleo estruturou guerras, impérios e desigualdades no século XX. No século que se consolida, a disputa desloca-se para o subsolo mineral. Terras raras, lítio, nióbio, grafite e outros minerais críticos formam a base material da transição energética, da revolução digital e da soberania tecnológica. Diferentemente do petróleo, eles atravessam simultaneamente energia, dados, defesa e indústria. O país que compreender essa transformação poderá moldar o futuro. O que ignorá-la corre o risco de repetir o ciclo da dependência, agora em escala tecnológica e geopolítica.
O petróleo foi um ensaio geral de poder
O século do petróleo não foi apenas um período de abundância energética. Foi a forma histórica que o poder encontrou para se materializar em escala planetária. Quem controlou o fluxo de hidrocarbonetos controlou o ritmo da indústria, a logística do comércio, a mobilidade das populações e, sobretudo, a capacidade de guerra. O petróleo transformou-se em eixo organizador de alianças, de doutrinas militares, de chantagens econômicas e de hierarquias internacionais. A energia não ficou no posto. Ela virou soberania para uns e dependência para outros.
A promessa do petróleo sempre veio acompanhada de uma fatura política. O recurso que acelerou a modernização de alguns países também sustentou a arquitetura de uma ordem global baseada em assimetrias. O mundo aprendeu, à força, que a disputa por um insumo estratégico não se resolve apenas no mercado. Ela se resolve na diplomacia, no controle de rotas, na capacidade de impor sanções, na manipulação de preços, no acesso privilegiado a infraestrutura e, quando necessário, na coerção aberta. O petróleo ensinou que recursos decisivos raramente permanecem neutros. Eles atraem poder como gravidade.
A narrativa liberal de que a riqueza energética se converte automaticamente em prosperidade social foi desmentida repetidas vezes. Em muitos lugares, a renda do petróleo consolidou elites, financiou aparelhos repressivos, alimentou corrupção sistêmica e comprimiu a diversidade produtiva, aprisionando economias em ciclos de dependência e vulnerabilidade externa. Em outros, fortaleceu Estados capazes de planejar, industrializar e distribuir parte dos ganhos, ainda assim sob tensões permanentes entre interesse público e captura privada. O padrão histórico é claro: quando um recurso se torna estrutural, a pergunta central deixa de ser “quanto ele vale” e passa a ser “quem manda nele, para quê e com quais efeitos”.
Esse legado ajuda a entender por que a transição energética é, ao mesmo tempo, uma promessa e uma ruptura. O petróleo tende a perder centralidade relativa à medida que novas matrizes ganham escala, eficiência e competitividade. Essa mudança altera o mapa do poder, mas não elimina a lógica que o petróleo consolidou. Apenas desloca o eixo. O mundo não está caminhando para um futuro sem disputa por recursos. Está caminhando para uma disputa diferente, mais profunda, porque não gira apenas em torno de combustível. Gira em torno da infraestrutura que permitirá existir, produzir e decidir no novo ciclo tecnológico.
O petróleo, portanto, foi um ensaio geral. Ele mostrou como recursos estratégicos organizam a política global, como a dependência se transforma em subordinação e como a riqueza, quando não é capturada por um projeto nacional, é capturada por interesses que não respondem à sociedade. Essa memória histórica não serve para nostalgia nem para moralismo. Serve para calibrar o olhar. O que vem adiante não será uma repetição idêntica, mas seguirá a mesma gramática do poder: quem controla a base material de uma era controla o seu destino.
A ilusão da desmaterialização
Nas últimas décadas, consolidou-se a ideia de que o mundo caminha para uma economia imaterial. Fala-se em nuvem, em inteligência artificial, em plataformas digitais, em serviços baseados em dados. A aparência é de leveza. A narrativa sugere que o poder deixou de depender de matéria e passou a depender apenas de código. Essa percepção é confortável, mas enganosa.
Cada avanço tecnológico aumentou, e não reduziu, a intensidade material da economia. Data centers exigem toneladas de cobre para transmissão elétrica e de dados. Processadores dependem de silício ultrapuro e de uma cadeia química complexa. Baterias que sustentam a mobilidade elétrica precisam de lítio, níquel, grafite e outros minerais específicos. Turbinas eólicas e motores de alta eficiência utilizam ímãs permanentes que incorporam terras raras. A chamada economia digital está assentada sobre uma base física extensa, sofisticada e profundamente dependente de insumos minerais estratégicos.
A transição energética reforça essa tendência. A substituição de combustíveis fósseis por matrizes renováveis não elimina a materialidade do sistema produtivo. Ela a reorganiza. Painéis solares, redes inteligentes, sistemas de armazenamento e infraestrutura de transmissão ampliam a demanda por metais e minerais críticos em escala inédita. A eletrificação generalizada, da mobilidade ao setor industrial, desloca o centro da dependência energética para a dependência mineral.
A inteligência artificial, frequentemente descrita como fenômeno abstrato, é talvez o exemplo mais claro dessa intensificação material. Treinar modelos avançados requer centros de processamento massivos, hardware especializado e consumo elevado de energia elétrica. Cada camada de inovação adiciona complexidade técnica e demanda insumos específicos, cuja produção e refino concentram-se em poucos países. O que parece virtual depende de cadeias produtivas físicas altamente especializadas.
A ideia de que a economia se desmaterializa mascara a realidade de que ela se mineraliza. O valor agregado pode se concentrar em software e serviços, mas a possibilidade de produzir software e serviços está condicionada ao acesso a componentes, metais e infraestrutura. O controle do código não substitui o controle da matéria; ele o pressupõe. Quem não domina a base material dificilmente dominará as camadas superiores da tecnologia.
Essa constatação altera a leitura estratégica do presente. Se o século do petróleo foi marcado pela centralidade de um recurso energético específico, o século que se consolida é caracterizado pela multiplicidade de minerais críticos que sustentam simultaneamente energia, computação, defesa e comunicação. A suposta leveza do mundo digital esconde uma densidade material maior do que nunca. É nesse deslocamento silencioso que começa a se delinear o poder depois do petróleo.
O nascimento do século mineral
Se o petróleo organizou a era industrial, os minerais críticos organizam a era tecnológica. Não se trata apenas de um novo insumo estratégico, mas de uma nova base estrutural sobre a qual se assentam energia, indústria, defesa e sistemas digitais. O deslocamento é qualitativo. O recurso central deixa de ser um combustível concentrado e passa a ser um conjunto de elementos cuja função é sustentar a arquitetura material da civilização contemporânea.
Terras raras, lítio, nióbio, grafite, cobalto, níquel e outros minerais classificados como críticos não são intercambiáveis nem facilmente substituíveis. Eles integram componentes de alto desempenho, sistemas de armazenamento energético, equipamentos militares de precisão, motores elétricos eficientes, redes de transmissão e semicondutores avançados. A sua importância não deriva apenas do volume, mas da função estratégica que exercem dentro das cadeias produtivas.
Ao contrário do petróleo, cuja centralidade estava associada principalmente à geração de energia e ao transporte, os minerais críticos atravessam múltiplos setores simultaneamente. Eles conectam a transição energética à revolução digital, a indústria civil à indústria de defesa, a infraestrutura de dados à logística global. Essa transversalidade amplia o seu peso geopolítico. Não se trata de abastecer motores, mas de garantir a capacidade de produzir tecnologia, armazenar energia, processar informação e proteger território.
O caráter estrutural desses minerais se evidencia também na complexidade das cadeias envolvidas. A extração é apenas a primeira etapa. Refino, separação química, transformação metalúrgica e incorporação em componentes exigem conhecimento técnico sofisticado, investimento de longo prazo e coordenação industrial. Quem domina essas etapas superiores controla o ponto de estrangulamento da economia tecnológica. O poder deixa de residir apenas na reserva geológica e passa a residir na capacidade de transformar matéria-prima em insumo estratégico.
Esse processo marca o nascimento do que pode ser chamado de século mineral. Não é uma metáfora retórica. É uma mudança na infraestrutura do poder. A transição energética depende de minerais críticos. A inteligência artificial depende de minerais críticos. A indústria militar de alta precisão depende de minerais críticos. A conectividade global depende de minerais críticos. A nova matriz produtiva exige uma base material mais diversa e mais especializada do que aquela que sustentou o ciclo do petróleo.
A implicação histórica é clara. Enquanto o petróleo foi o eixo de uma era definida pela energia fóssil e pela indústria pesada, os minerais críticos sustentam uma era definida por tecnologia avançada, eletrificação ampla e integração digital. O seu impacto potencial é mais abrangente e, possivelmente, mais duradouro. O petróleo estruturou um século. O século mineral tende a estruturar uma etapa mais extensa, porque acompanha qualquer paradigma tecnológico que venha a emergir.
O poder depois do petróleo não desaparece. Ele se reconcentra. E se reconcentra naqueles que compreendem que, antes de controlar mercados ou algoritmos, é preciso controlar a base mineral que torna esses mercados e algoritmos possíveis.
Por que será maior que o século do petróleo
A afirmação de que o século mineral poderá superar o século do petróleo não é retórica. Ela se sustenta em três diferenças estruturais que alteram a escala do poder em jogo: abrangência setorial, profundidade tecnológica e duração histórica.
Primeiro, a abrangência. O petróleo concentrou sua influência principalmente na geração de energia e no transporte, com desdobramentos decisivos na indústria pesada e na geopolítica militar. Era um eixo energético dominante, mas relativamente delimitado. Já os minerais críticos não estruturam apenas uma matriz energética. Eles atravessam energia, computação, defesa, telecomunicações, mobilidade elétrica, infraestrutura urbana e sistemas industriais automatizados. O impacto não se distribui por um setor central; ele se espalha por toda a arquitetura produtiva.
Segundo, a profundidade tecnológica. O petróleo podia ser extraído, refinado e comercializado em um circuito relativamente linear. O controle de reservas e rotas era suficiente para exercer poder significativo. No caso dos minerais críticos, a extração é apenas o ponto de partida. O verdadeiro poder está nas etapas posteriores: refino químico de alta complexidade, processamento metalúrgico, fabricação de componentes e integração em cadeias industriais avançadas. A dependência deixa de ser apenas energética e passa a ser tecnológica. Um país pode ter reservas abundantes e ainda assim permanecer subordinado se não dominar as etapas superiores da cadeia.
Terceiro, a duração histórica. O petróleo está associado a um paradigma energético específico, o da era fóssil. À medida que a transição energética avança, sua centralidade relativa tende a diminuir, ainda que continue relevante por décadas. Os minerais críticos, ao contrário, não estão presos a uma única matriz. Eles são necessários para qualquer modelo tecnológico que envolva eletrificação, digitalização e automação. Se novas formas de geração energética surgirem, continuarão exigindo metais e materiais especializados. Se a inteligência artificial evoluir, demandará ainda mais infraestrutura física. O ciclo mineral não substitui um combustível por outro; ele sustenta a própria condição material da inovação contínua.
Há também uma diferença na natureza da dependência. O petróleo gerava choques de oferta e crises de preço que afetavam economias inteiras. Minerais críticos podem gerar algo mais profundo: interrupções em cadeias produtivas estratégicas, paralisação de indústrias de alta tecnologia e vulnerabilidade em setores de defesa. A escassez de um componente específico pode comprometer sistemas complexos inteiros. A vulnerabilidade não se mede apenas em barris, mas em capacidade produtiva e soberania tecnológica.
Além disso, o controle sobre minerais críticos tende a ser mais concentrado nas etapas de processamento e transformação do que na simples extração. Essa concentração cria pontos de estrangulamento globais, nos quais decisões técnicas ou comerciais se convertem rapidamente em instrumentos de poder geopolítico. A interdependência se torna mais assimétrica, porque envolve conhecimento, patentes, equipamentos especializados e cadeias logísticas sofisticadas.
Em síntese, o petróleo movia motores, exércitos e indústrias. Minerais críticos movem sistemas completos de produção, comunicação e defesa. O petróleo estruturou o ritmo do século XX. Os minerais estruturam o ritmo da transição energética e da revolução tecnológica, com potencial de moldar mais de um século. É essa combinação de transversalidade, complexidade e duração que permite afirmar que o impacto do século mineral pode ser maior que o do petróleo.
A nova geopolítica silenciosa
A transição para o século mineral não está sendo anunciada com tanques ou declarações de guerra. Ela avança por meio de políticas industriais discretas, acordos comerciais estratégicos e redefinições regulatórias que raramente ocupam as manchetes. As principais potências já classificam minerais críticos como questão de segurança nacional. Não é retórica ambiental. É cálculo geopolítico.
Governos reorganizam cadeias produtivas para reduzir dependências consideradas vulneráveis. Criam estoques estratégicos, subsidiam refino doméstico, firmam parcerias preferenciais com países detentores de reservas e impõem critérios técnicos que consolidam posições dominantes. A disputa desloca-se do controle de campos petrolíferos para o controle de capacidades industriais e tecnológicas associadas à transformação mineral. O poder se exerce menos pela ocupação territorial direta e mais pelo domínio de etapas decisivas da cadeia.
Esse movimento tem um componente silencioso porque opera no nível da infraestrutura. O refino de terras raras, a produção de insumos para baterias, a fabricação de ímãs permanentes ou semicondutores raramente despertam mobilizações populares imediatas. No entanto, é nesses segmentos que se define quem terá autonomia tecnológica e quem dependerá de fornecedores externos para setores sensíveis. A dependência mineral pode significar dependência em energia renovável, em defesa aérea, em satélites ou em sistemas de comunicação.
A reorganização das cadeias globais também reflete uma percepção de vulnerabilidade. Conflitos comerciais recentes, tensões entre grandes potências e interrupções logísticas demonstraram que a interdependência pode ser usada como instrumento de pressão. Nesse contexto, controlar etapas estratégicas da cadeia mineral torna-se forma de blindagem econômica e política. O acesso a insumos críticos passa a ser negociado com a mesma intensidade com que, no passado, se negociavam rotas de petróleo.
A nova geopolítica é menos espetacular, mas potencialmente mais abrangente. Ela envolve padrões técnicos, acordos de fornecimento de longo prazo, financiamentos condicionados e influência sobre marcos regulatórios nacionais. O poder não se afirma apenas pela capacidade de produzir, mas pela capacidade de definir regras, certificar produtos e estabelecer requisitos tecnológicos que outros precisam seguir.
O que está em curso não é uma corrida por volumes brutos de minério, mas por controle estratégico da cadeia mineral. Essa diferença é decisiva. O país que apenas extrai participa da margem inferior do sistema. O país que refina, transforma e integra minerais em tecnologia participa do núcleo do poder. É nessa distinção que se desenha o novo mapa geoeconômico do século mineral.
O Brasil na encruzilhada histórica
O deslocamento do poder para o eixo mineral coloca o Brasil diante de uma decisão estrutural. O país possui reservas significativas de minerais estratégicos e ocupa posição relevante no mapa geológico global. Essa condição pode ser alavanca de autonomia ou ponto de partida para uma nova dependência. O desfecho não está dado pela natureza, mas pela estratégia.
A história econômica brasileira é marcada pela exportação de produtos primários com baixo grau de transformação. Quando a cadeia produtiva se encerra na extração, o valor agregado e o controle tecnológico se deslocam para fora. No século mineral, repetir esse padrão significa fornecer insumo barato e importar tecnologia cara, consolidando uma assimetria que compromete soberania industrial e capacidade de inovação. A dependência não se manifesta apenas na balança comercial, mas na incapacidade de decidir sobre setores estratégicos.
O risco não é abstrato. Se a extração mineral avançar sem coordenação nacional robusta, as etapas de refino, processamento e incorporação tecnológica tenderão a se concentrar em países que já dominam essas capacidades. Nesse cenário, o Brasil permanece como elo inicial de uma cadeia cujo comando está em outro lugar. A abundância geológica não se converte automaticamente em poder político ou tecnológico.
A disputa também ocorre no plano institucional. Minerais estratégicos exigem marco regulatório claro, coordenação federativa e visão de longo prazo. Fragmentação decisória, competição desordenada entre entes subnacionais ou flexibilização excessiva sob pressão de interesses imediatos podem comprometer a capacidade do Estado de orientar a cadeia mineral para fins nacionais. Recursos críticos não são apenas ativos econômicos; são instrumentos de política de desenvolvimento.
Há, por outro lado, uma possibilidade distinta. O Brasil pode tratar minerais críticos como infraestrutura estratégica, articulando política mineral com política industrial, energética e tecnológica. Isso implica investir em pesquisa aplicada, formar quadros técnicos, desenvolver capacidade de refino e estimular a fabricação de componentes no território nacional. Significa transformar reserva geológica em base de um projeto produtivo mais sofisticado.
A encruzilhada não é entre extrair ou não extrair. É entre extrair de forma subordinada ou integrar a extração a uma estratégia de agregação de valor e autonomia tecnológica. No século mineral, a diferença entre esses caminhos define se o país será fornecedor periférico ou participante ativo do núcleo produtivo global. O poder depois do petróleo passa inevitavelmente pelo subsolo brasileiro. A questão é quem decidirá o destino dessa base material.
Cenários futuros
A consolidação do século mineral não é hipótese distante. Ela já orienta políticas industriais e estratégias de segurança nas principais economias do mundo. O que ainda está em aberto é a posição que o Brasil ocupará nesse novo arranjo. A partir das tendências atuais, três cenários se desenham com nitidez.
No primeiro, o país mantém a lógica primário-exportadora. A extração se expande, mas as etapas de refino avançado, processamento químico e fabricação de componentes permanecem concentradas no exterior. O Brasil amplia receitas de curto prazo, mas consolida dependência estrutural em setores decisivos como energia renovável, eletrificação da frota, defesa tecnológica e infraestrutura digital. A vulnerabilidade não aparece imediatamente, mas se manifesta quando cadeias globais sofrem interrupções ou quando decisões externas afetam o acesso a insumos transformados. Nesse cenário, o país participa do ciclo mineral sem comandá-lo.
No segundo, ocorre fragmentação institucional. Estados e atores privados negociam isoladamente, priorizando ganhos imediatos e competição por investimentos, sem coordenação estratégica nacional. A ausência de diretrizes integradas dificulta a construção de capacidade tecnológica doméstica. Projetos são estruturados com foco na exportação de concentrado mineral, enquanto o planejamento de longo prazo fica subordinado a contratos e demandas externas. O resultado é perda de coerência industrial e enfraquecimento da capacidade do Estado de orientar a cadeia mineral para objetivos de desenvolvimento.
No terceiro cenário, o país reconhece o caráter estrutural dos minerais críticos e adota estratégia coordenada. Isso envolve marco regulatório específico para recursos estratégicos, políticas de incentivo ao refino e à transformação local, integração entre universidades, centros de pesquisa e indústria, e instrumentos financeiros voltados à verticalização produtiva. Implica também articulação internacional que privilegie cooperação tecnológica e não apenas fornecimento de matéria-prima. Nesse quadro, a riqueza mineral deixa de ser apenas fonte de receita e se converte em alicerce de autonomia produtiva.
A diferença entre esses caminhos não está apenas na renda gerada, mas na posição ocupada no sistema internacional. No primeiro e no segundo cenários, o Brasil permanece na periferia tecnológica. No terceiro, passa a disputar espaço no núcleo produtivo. O século mineral amplia o leque de possibilidades, mas também eleva o custo do erro estratégico. Uma vez consolidadas cadeias globais e padrões tecnológicos, reverter dependências torna-se mais difícil.
A escolha é política e institucional. Não depende apenas do volume de reservas, mas da capacidade de planejar, coordenar e sustentar uma estratégia de longo prazo. O poder depois do petróleo será distribuído conforme a habilidade de transformar recurso natural em capacidade tecnológica. É nesse ponto que o futuro brasileiro se decide.
O que está em jogo
O debate sobre minerais críticos não é técnico nem setorial. Ele define a posição do país na próxima etapa da história econômica. O petróleo moldou o século XX porque controlava a energia que movia a indústria e os exércitos. Os minerais críticos moldam o século que se consolida porque sustentam simultaneamente energia, tecnologia, comunicação e defesa. Quem domina essa base material controla o ritmo da inovação e a margem de decisão estratégica.
O erro mais grave seria tratar esse processo como mera oportunidade comercial. Recursos estruturais não podem ser pensados apenas como fonte de exportação. Eles condicionam políticas industriais, autonomia tecnológica e capacidade de planejamento estatal. Se a riqueza mineral for dissociada de um projeto nacional, ela seguirá a trajetória já conhecida: extração intensiva, agregação de valor no exterior e retorno limitado para a sociedade.
O que está em jogo é a possibilidade de financiar um ciclo de desenvolvimento sustentado em ciência, tecnologia e infraestrutura própria. Minerais críticos podem sustentar cadeias produtivas mais sofisticadas, fortalecer a indústria nacional e ampliar a capacidade de inovação. Mas isso exige visão estratégica, coordenação institucional e disposição para enfrentar pressões que privilegiam ganhos imediatos em detrimento de autonomia de longo prazo.
O século mineral redefine o poder porque redefine a base material da economia global. Não é uma transição superficial, mas estrutural. O país que compreender essa mudança poderá moldar seu próprio futuro tecnológico. O que ignorá-la poderá assistir à consolidação de uma nova dependência, agora mais profunda, porque atinge o núcleo da capacidade produtiva.
O poder depois do petróleo já está sendo reorganizado. A questão não é se os minerais críticos terão centralidade maior que o petróleo, mas quem transformará essa centralidade em soberania. A janela histórica é estreita. Decidir como tratar o subsolo é decidir como ocupar o século.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
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