Niki de Saint Phalle, a DANÇA
Por WESLLEY R. PALOMBARINI*
A passagem para outro estágio evolutivo da humanidade exige uma nova “psico-antropologia”, baseado numa força produtiva regenerativa, e não destrutiva, e relações produtivas entre famílias e indivíduos associados, para realizar a totalidade das potencias humanas possíveis
1.
Poderíamos iniciar um texto sobre relações de trabalho e educação refletindo sobre o conceito de relação dialógica de Álvaro Vieira Pinto, assim como através dos conceitos de trabalho social de György Lukács, ou de qualquer outro autor. No entanto, apesar desses paradigmas serem válidos e potentes do ponto de vista teórico, a exposição textual continuaria conservando a lógica idealista, onde o uso apenas de conceitos para refletir sobre a história material acabaria por substancializar a ontologia humana com categorias fixas e abstratas.
O materialismo histórico dialético nos permite analisar a ontologia humana a partir da história natural e social do Homo sapiens sapiens, onde o desenvolvimento tecnológico e as relações de produção mediam a espécie com o meio natural, determinando a causa primeira do processo humanizador. E a lógica dialética, por sua vez, nos permite compreender os movimentos de criação, manutenção e transformação pelo qual passaram os hominídeos e a nossa espécie ao longo da história.
Desde a revolução produzida pelas obras de Charles Darwin – A origem das espécies e A Origem do homem e a seleção sexual –, sabemos que o H. sapiens sapiens foi engendrado a partir de ramificações de espécies hominídeas que evoluíram ao longo de milhares de anos. (RAIMONDI, 2019). Atualmente, com o avanço da paleantropologia, possuímos provas e experimentos que comprovam nossa origem, derivada dos símios, desde sete milhões de anos atrás, com os Australopithecus, ancestral hominídeo que começou a andar de modo mais ereto do que as espécies anteriores.
Passados aproximadamente quatro milhões de anos, depois de termos aperfeiçoado a estrutura óssea menos curvada, portanto, modelando os órgãos para funções especializadas, como a mão, os olhos e o cérebro, outra espécie surgiu como variação do processo evolutivo, trazendo um salto qualitativo dos processos fisiológicos acumulados do seu ancestral – o H. habilis.
É consenso entre os paleantropólogos que essa espécie de hominídeo, surgida entre 3 e 2,5 milhões de anos a.p.,[i] foi a primeira a fabricar seus instrumentos de trabalho – pedra lascada –, cuja necessidade engendrou relações educacionais e o aperfeiçoamento da linguagem entre os membros do bando, habilidades necessárias para reproduzir seu modo existencial. Ou seja, inicia-se, com o H. habilis a primeira espécie hominídea a criar cultura, trabalho e pensamento teleológico, isto é, ação com finalidade subjetiva e não apenas instintual. (NEVES, 2015).
2.
Apesar dos Neandertais terem sido geneticamente compatível com os homo sapiens – houve cruzamento, eles mantiveram a convivência em bando, e até agora não há certeza sobre rituais mortuários ou produções artísticas. Eles se expandiram entre as regiões que hoje é a Europa e a Ásia, e viveram mais em climas glaciais do que interglaciais.
Devemos a eles o domínio do fogo e a diversificação de ferramentas, principalmente a confecção de agulhas, o que apresentou um avanço significativo no processo de humanização, isto é, na ampliação da economia libidinal para graus mais elevados de satisfação biológica, social e afetiva. Eles foram extintos em aproximadamente 30 mil a.p., provavelmente devido a mudanças climáticas repentinas (Laschamp – inversão dos polos magnéticos, ocorrida entre 40 mil e 30 mil anos atrás). (NEVES, 2015).
Até onde sabemos atualmente, nossa espécie, em sua concepção biológica, compartilhou com os Neandertais dois ancestrais comuns – o H. Erectus – , espécie que expandiu vertiginosamente os hominídeos para o planeta, vivendo entre 1,8 milhões até 100 mil anos atrás, e o H. heidelbergensis, que viveu entre 500 mil e 250 mil a.p. No entanto, enquanto os Neandertais permaneceram no continente euroasiático, nós nos formamos fisicamente no continente Africano, cuja origem, ainda em debate, parece proceder do H. sapiens idaltu, isto é, H. sapiens “mais antigo”. (WHITE T.D, 2003).
A caverna de Blombos, na África do Sul, tornou-se o principal sítio arqueológico com materiais rupestres datados entre 120 mil e 70 mil anos. A diversidade de conchas e artefatos decorados e espalhados em sítios próximos demonstram a variedade produtiva daquele povo, fruto de um conjunto de tribos que mantinham relações econômicas e sociais complexas, bem diferente do modo das espécies de hominídeos anteriores, que viviam em bando de 30 a 50 pessoas na era glacial.
O H. sapiens sapiens empreenderam duas ondas migratórias para a região Euroasiática, uma há 120 mil a.p., e outra há aproximadamente 60 mil anos atrás, quando parte da África passou a se desertificar. (NEVES, 2015). Ao chegar na Euroasiática, região de clima temperado e rico em sua fauna e flora, criou-se condições naturais para que a evolução hominídea produzisse um salto qualitativo na condição material e cultural da espécie, engendrando a única espécie de hominídeo do planeta a desenvolver comunidades racionais – trabalho associado, e consequentemente, tempo livre, ampliando as capacidades biológicas herdadas para capacidades psicossociais, como pensamento abstrato, linguagem e afetos diversificados.
Entre 60 e 40 mil a.p. verifica-se a expansão e aperfeiçoamento das primeiras expressões de arte rupestre, tendo como registro arqueológico inúmeras cavernas, como a de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha. É neste momento que ocorre o que a paleantropologia denomina de “explosão criativa”, contexto em que o sentido da ação passa a ser orientado para o desenvolvimento de habilidades e faculdades livres[ii], não mais unicamente relacionadas às necessidades de autopreservação. (NEVES, 2020)
De aproximadamente 20 ferramentas registrados até 60 mil a.p., na Europa, a partir de 30 mil a.p., os paleoantropólogos acharam cerca de 100 utensílios diferentes, provavelmente pertencentes à inúmeros indivíduos que dividiam o trabalho comunitário entre as famílias, com relativa especialização das atividades por sexo e faixa etária. (NEVES, 2020).
Ou seja, verifica-se, depois de uma certa quantidade de anos do processo evolutivo – cerca de 3 milhões de anos, um aumento vertiginoso das forças produtivas e a socialização racional das relações de produção, cujo resultado foi um salto qualitativo nas relações existenciais da tribo, onde viver em comunidade passou a ser não somente sobreviver – alimentar-se e abrigar-se, mas poder criar culturalmente formas mais livres de experiência em comunidade e com a natureza (RAIMONDI, 2019).
Assim, a educação passa a ter a finalidade de formar personalidades segundo um projeto de identidade tribal ideal, não mais apenas um caçador(a), mas também um(a) possível produtor(a) criativo(a), ou “mitólogo”, ou artista, ou curandeiro xamã, ou tudo isso junto. Em relações de comunidade indiferenciada e com boas condições naturais e culturais,[iii] a educação acontece constantemente e se estende para toda a tribo – pai, mãe, filhos e dezenas de primos, tias, tios e avós.[iv] (ÁLVARO, 2005 & DARCY, 1968 & PONCE, 2008)
3.
O modo de produção de caçador/pescador/coletor organizado em comunidades tribais na Europa, parte da Ásia, África e Oriente Médio, existiu entre 40 mil há aproximadamente 10 mil anos a.p., momento em que os agrupamentos humanos começaram a migrar em grande número, devido a mudanças climáticas, e formar primeiramente aldeias, e depois cidades de pequenos agricultores, entre 10 e 5 mil a. p.
As aldeias de povos Natufianos que floresceram na região do crescente fértil entre 20 mil e 10 mil anos – correspondente aos territórios da atual Jordânia, Líbano, Síria, Egito, Israel, Palestina, Irã, Iraque e parte da Turquia –, já possuíam aprimorado desenvolvimento tecnológico e relações de trabalho associado entre familiares que começavam a se individualizar. Além de caçarem e coletarem, domesticaram espécies de cães e iniciaram o processo de agricultura rudimentar.
O grau de especialização do trabalho e das relações psico culturais desses povos conduziram à revolução agrária aproximadamente em 10 mil a.p. Os sítios arqueológicos de Göbekli Tepe, Karahantepe, Mendik Tepe, todos na Turquia, Monte Carmelo, em Israel, e Karim Shahir, no Iraque, apresentam provas valiosas da existência dos povos Natufianos. (BAR-YOSEF, 1998).
Logo depois, mediante a expansão do vilarejo, a diversificação do trabalho em especializações, como o ferreiro, o marceneiro, o agricultor, o pastor, os(as) sacerdotes e o trabalho doméstico, dinamizaram a economia e a sociedade, que era até em tão formada por aldeias agrícolas indiferenciadas, isto é, não estratificadas em classe e sem propriedade privada. O desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção criou a necessidade de um centro administrador, surgindo então as “Cidades-templo” – centralizadas a partir dos templos religiosos – como Çatalhöyük e Uruque, aproximadamente entre 9 mil e 7 mil a.p.
Nessas condições, apesar de não haver ainda dominação cruel e violenta entre as classes, já havia a divisão entre classes sociais e a propriedade privada, cujo processo de individuação ao mesmo tempo em que permitiu o desenvolvimento tecnológico, produziu cisões ainda maiores entre os agrupamentos comunitários. (REDE, 2011)
4.
Com a expansão das “Cidades-templo” e as guerras, a casta militar entrou em disputa com os sacerdotes, responsáveis pela administração da cidade, conquistando a hegemonia política. A atividade militar expansionista gerou a necessidade de aperfeiçoamento tecnológico, promovendo a indústria dos metais, fortemente utilizada na confecção de ferramentas militares. É neste período, aproximadamente entre 3 mil e 2 mil a.p., que o Estado político-militar é criado para organizar o que a literatura especializada chama de “Cidades-estado” ou “Cidade-reino”, nas regiões do Oriente e Ásia.
O exército e o sacerdócio de cada “Cidade-estado” se uniram para colonizar povos alheios, utilizando-se da força e da antiga mitologia para manipular e conduzir a “psico-antropologia” dos povos explorados. Após certo período, as “Cidades-estados” evoluíram para impérios, e começaram a guerrear entre elas. Suméria, Acádia, Egito, Pérsia, Babilónia, Grécia, Roma etc.; entraram num ciclo histórico de disputas hegemônicas pela dominação imperial do comercio internacional, a partir das regiões conhecidas na época.[v] (REDE, 2011)
Com as “Cidades-estado”, a guerra passa a ser a principal instituição responsável pela acumulação de riqueza, determinada pelos interesses das classes ou castas que dominam os meios de produção e as relações de trabalho. (ENGELS, 1981 & DARCY, 1987 & REDE, 1996). A educação, nesse contexto, é dividida da mesma forma que a sociedade, e passa a ter a finalidade de segregar e dominar.
Entre as classes dominantes, a educação é orientada para as questões do Estado, onde a formação do caráter guerreiro e o domínio da cultura religiosa e letrada era o princípio norteador. Neste caso, os filhos dos soldados aprenderiam a arte militar e administração do Estado, e os filhos dos sacerdotes eram educados segundo a cultura letrada, mantendo sua posição de elite associada.
E para os povos dominados, a educação restringia-se à obrigação de trabalhar em algum ofício sob ordens da elite e obedecer às leis e costumes religiosos, agora comandados pela parceria entre as castas militares com a sacerdotal, aliciada para escrever sistemas religiosos ideológicos como maneira de se manter no poder enquanto serve aos interesses da casta militar.[vi] Os princípios educacionais passaram de formação livre, potente e diversa, para repressões morais e imposições autoritárias, com objetivos alheios aos do povo dominado.
Com a revolução dialeticamente negativa das “Cidades-estado” – pois a causa primeira do movimento que elas iniciam contraria o metabolismo vital da espécie –, as gerações iniciais perdem seu estatuto de humano em formação integral e as mulheres perdem sua posição de matriarca, isto é, pela mediação da elite econômica, militar e sacerdotal, degenera-se o princípio fundamental de conservação da espécie, de modo que as crianças e as mulheres passam a existir como objetos de posse e de troca pelo patriarca[vii]. (PONCE, 2008)
5.
Segundo Karl Marx, as múltiplas relações contraditórias entre o modo de produção e os instrumentos jurídicos, políticos e culturais de reprodução das injustiças criam realidades aparentes, onde o significado dos objetos e das relações humanas são invertidos.
O hospital que deveria tratar e curar doenças, torna-se uma empresa, onde o paciente torna-se cliente e a finalidade da instituição passa a ser o lucro, fazendo do paciente objeto de exploração por parte dos sócios anônimos. A instituição escolar, que deveria cumprir a função de formar pelo menos a psico-antropologia de cidadão burguês, no sistema capitalista ganha a finalidade de manter a estrutura econômica, social e política desigual, disciplinando e ideologizando as gerações para aceitarem e se adequarem às relações contraditórias, hipócritas e reificadas. (BOURDIEU, 2011).
Nesse caso, os códigos legais e jurídicos de países republicanos expressam a aparência de uma realidade democrática, isto é, exercem apenas uma falsa realidade de liberdade, igual e fraternal, enquanto a essência das relações socio-políticas-econômicas é a reprodução da dominação de classes e opressão de gênero. (MARX, 1984 e MARX, 2008)
De acordo com Landislau Dawbor, 1% das pessoas do planeta terra possui mais de 50% da riqueza produzida no globo. Portanto, a sociológica econômica crítica não hesita em afirmar que a sociedade em que vivemos é uma continuação dos modos de dominação de classe existentes desde a formação das cidades Estados antiga, de modo que toda a estrutura social é separada segundo a posição de cada classe no sistema produtivo, e que na atual fase do capitalismo, uma super burguesia internacional comanda as forças estatais dos países associando-se às burguesias nacionais para explorar os recursos naturais e as populações do planeta. (DOWBOR, 2017).
No Paleolítico Superior a espécie humana se organizou racionalmente em estrutura econômica, política e cultural, através de relações pedagógicas integrais com toda a tribo\aldeia, segundo um projeto de autoconstrução livre e potente em habilidades e conhecimento. Assim como no início do processo de humanização da nossas espécie, os indivíduos e as famílias atuais precisam se organizar racionalmente em nível econômico, isto é, através do trabalho associado, especialmente em atividades fundamentais ao metabolismo vital da humanidade, como alimentação, moradia, saúde e educação e cultura, a partir de um novo sentido de vida, voltado à formação de intelectuais orgânicos.
Sem a conciliação entre a ontologia humana integral, isto é, não alienada, e a conservação da natureza externa equilibrada, não há esperança para o futuro da humanidade. (ALVARO, 2008 & ÁLVARO, 2005). O nível da neurose coletiva, da desagregação social e a destruição do equilíbrio natural, são realidades que comprovam essa verdade fundamental.
Ou seja, a passagem para outro estágio evolutivo da humanidade exige uma nova “psico-antropologia”, necessária para levar a cabo a expansão do novo modelo produtivo e existencial – comunismo – , baseado numa força produtiva regenerativa, e não destrutiva, e relações produtivas entre famílias e indivíduos associados, não apenas “parentes”, e com outro sentido de vida, não somente sobreviver ou ser reconhecido por status, mas sim realizar a totalidade das potencias humanas possíveis atualmente em harmonia com o meio social e natural. (MARX, 2008).
A filosofia da praxis orienta a “ação oportuna e eficiente” para a hegemonia do poder executivo municipal – prefeituras –, que é onde ocorre a vida comunitária, e posteriormente a expansão para o nível nacional e internacional.
*Weslley R. Palombarini é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP).
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