A pax americana no Japão

Carsten Höller, Portas de correr, 2003


Por KRISTIAN FEIGELSON*

Considerações sobre o livro recém-lançado de Michael Lucken

O 80º. aniversário do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki permitiu revisitar a memória dolorosa do Japão. Uma história que permanece viva numa sociedade que questiona sua dependência dos Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial. O livro recente Les occupants, les Américains au Japon après la Seconde Guerre mondiale esclarece diferentes aspectos desse pós-guerra da perspectiva da “Pax Americana”.

O autor, Michael Lucken, é historiador e professor de civilização japonesa no Institut National des Langues et Civilisations Orientales (Inalco). Ele publicou inúmeras obras, entre as quais Les Japonais et la guerre 1937-1952.[i] A partir de uma leitura cruzada e documentada de arquivos americanos e japoneses, ele descreve as consequências da ocupação, ao mesmo tempo que revela os marcos de uma história frequentemente ignorada, mas crucial para compreender o desenvolvimento do Japão contemporâneo.

O Pacífico, palco de guerras e desafios americanos

O interesse do livro é apresentar em detalhes tanto os protagonistas como suas posições ideológicas, inicialmente construídas em torno de duas máquinas de guerra temíveis. Michael Lucken focaliza um período pouco analisado, o pós-1945, para passar em revista todas as figuras dessa época e analisar as consequências de suas ações, articulando três capítulos: descreve, em primeiro lugar, “uma estratégia de longo prazo”, para avaliar uma ocupação que permitiu “democratizar as mentalidades”, antes de avaliar, no último capítulo, “os sucessos e limites do modelo americano”. Como o autor destaca logo na introdução, a ocupação do Japão não se reduziu apenas a considerações militares. A abordagem americana sempre foi pragmática, embora marcada por um profundo desconhecimento de suas realidades.

Foi bem tarde, no final da década de 1930, que os Estados Unidos se esforçaram por analisar e interpretar um Japão que já tinha se tornado hegemônico no Pacífico. Esta zona, ao mesmo tempo próxima e distante, tornou-se, desde o final do século XIX, um desafio estratégico para os Estados Unidos, dando origem a múltiplas incursões navais. Mas a invasão da Manchúria em 1931 e, posteriormente, a ofensiva dos japoneses em todas as frentes na Ásia alteraram profundamente esta situação, até o ataque surpresa a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, que obrigou Franklin D. Roosevelt a entrar na guerra.

A intervenção americana pôs fim ao expansionismo japonês após a dura batalha de Okinawa e os dois bombardeios atômicos que obrigaram os japoneses a uma rendição incondicional. A destruição massiva sofrida no arquipélago, o ultranacionalismo e a crescente impopularidade do expansionismo ajudam a explicar o consenso da sociedade japonesa, derrotada e exausta, em relação à ocupação americana. Os julgamentos de Tóquio (1946-1948), cópias de Nuremberg, condenaram uma pequena parte do establishment responsável pelos crimes em massa numa guerra que causou mais de 20 milhões de mortos na Ásia.[ii] Mas pouparam o Imperador, símbolo vivo e mitificado desse militarismo.

Com cerca de 500.000 soldados anglo-americanos, a ocupação americana só terminou formalmente em 1952, com o Tratado de São Francisco, assinado em 1951. Mas a “Pax Americana” obedecia a uma estratégia de longo prazo, primeiro frente aos soviéticos, depois ao surgimento de um poder comunista na China (1949), enquanto se perfilava a Guerra da Coreia (1950-1953), num contexto internacional de Guerra Fria e de divisões entre blocos. A confrontação ideológica Leste/Oeste reforçava o pragmatismo americano na Ásia. Os Estados Unidos temiam uma virada do Japão para a órbita comunista, com um partido comunista ativo, pró-soviético em termos de esfera de influência, mesmo que uma fração pró-chinesa surgisse em 1950.

As conferências de Yalta e, depois, Potsdam tinham oficializado a divisão do mundo entre os vencedores. A declaração de guerra dos soviéticos ao Japão ocorreu após o ataque atômico a Nagasaki, o que não impediu os americanos de terem as mãos livres para ocupar o arquipélago. Neste contexto, a ocupação americana marca não só um forte compromisso de Washington nesta parte da Ásia, mas simboliza também uma dissolução progressiva da influência europeia, tal como tinha se manifestado desde o final do século XIX, no momento das veleidades de abertura do Japão à Europa.

Modernidade ou modernização?

A ocupação americana foi curta em termos militares, menos de sete anos, mas duradoura em seus efeitos geopolíticos e econômicos. É ao considerar seus efeitos transformadores que Michael Lucken questiona a noção de modernidade japonesa. Para além de todos os estereótipos orientalistas de um país que durante muito tempo fascinou o Ocidente, esta modernidade sempre foi vista como estando na encruzilhada de tradições bem enraizadas.[iii] Modernidade não deve aqui ser confundida com modernização.

O “nacionalismo purificador japonês” do período pré-guerra, fruto também de uma certa vontade de modernização, podia ser interpretado como um baluarte contra uma modernidade de tipo ocidental rejeitada por certas elites desta época. Muito antes da aliança com as forças do Eixo em 1940, a organização administrativa japonesa tinha sido calcada num modelo prussiano. Era necessário sair da Ásia para entrar na Europa, e a ocidentalização empreendida após 1899 contribuiu para modernizar profundamente uma burocracia a serviço do regime imperial.[iv]

Michael Lucken mostra como, depois de 1945, o Japão consentiu em desenvolver uma modernização ao estilo anglo-saxão e, ao fazê-lo, integrou certos valores da modernidade, em torno da democracia e do liberalismo. As novas elites que surgiram no pós-guerra procuraram adaptar seu país a um novo modelo de eficiência. O “American way of life” colidiu, após séculos de isolamento, com a modernização empreendida na era Meiji (1868-1912).

A abertura ao mundo tinha sido compartilhada, ou antes clivada, entre um pensamento de tipo chinês e um pensamento ocidental, voltado para a Europa. Ao esforçar-se por assimilar ideias e modelos europeus, era preciso tornar-se moderno sem, contudo, ser ocidental.[v] Para além do Japão, numerosos conceitos e neologismos foram então reinterpretados na cultura sino-japonesa. O termo “modernização” (kindaika 近代化) seria, bem depois, substituído pelo de “globalização” (gurōbaru-ka グローバル化) após 1990.

Mas a importação de um novo modelo americano introduz, pouco a pouco, grandes mudanças, especialmente uma democratização inesperada das mentalidades. Esta afeta diferentes aspectos da sociedade japonesa, desde a educação à urbanização, passando pelo esporte, com o beisebol, ou ainda pela abertura à arte americana, mas também pelas relações sociais no local de trabalho.

A “Pax Americana” contribui para formar novas elites adeptas dos princípios da democracia liberal, ao mesmo tempo que se esforça por moldá-las a um pragmatismo americano de inspiração protestante, que, segundo o filósofo John Dewey, “exige uma percepção inteligente dos objetivos a atingir, uma seleção e uma aplicação ordenadas dos meios necessários para sua realização”.[vi]

Esta forma de “reorientação das mentalidades” inscrevia-se em todo tipo de iniciativas concretas, que vão desde a reorganização das universidades segundo um novo modelo americano até à constituição de fundações privadas ligadas às grandes empresas corporativas, passando pelos meios de comunicação e pela introdução do jazz. Mas também na implementação, sob a égide do SCAP (Supreme Commander of the Allied Powers), de um importante dispositivo de censura e controle social para influenciar as mentalidades. Isso não se fez sem resistências, como testemunham as duas últimas partes do livro.

Já na década de 1950, o cinema de Yasujiro Ozu, tal como o de Mikio Naruse, tornava-se portador de todas as inquietações decorrentes dessa modernização galopante que iria perturbar de forma duradoura a sociedade tradicional japonesa. Todas estas mudanças colocavam-na em contradição com seu passado. Tanto mais que, vivida de forma ambivalente, esta americanização continuava, no fundo, sendo tanto consentida como imposta.

Os debates sobre as contribuições de uma ocupação estrangeira continuaram vívidos e compartilhados nas revistas dos intelectuais japoneses. Os anos 1960-1970, com os sucessivos movimentos ambientalistas e depois estudantis contra a guerra do Vietnã, marcaram também um despertar tardio contra um modelo industrial e militar então considerado dominante e predatório. Isto tanto mais que, desde 1965, os Estados Unidos utilizavam suas bases militares em Okinawa para desenvolver suas ofensivas no Vietnã.

Mas estas reações atestam também a liberalização democrática de uma sociedade capaz de realizar debates sociais, estéticos e políticos tão intensos quanto os que atravessam as sociedades ocidentais.

Em menos de duas gerações, o Japão acabou florescendo na evolução de um capitalismo modernizado e de uma sociedade consumista. A americanização aberta e agressiva desestabilizou um sistema antigo, ao mesmo tempo compartimentado e hierárquico, obrigando-o a uma maior transversalidade e inovação.

O Japão conseguiu assim tornar-se a segunda potência econômica mundial. Este modelo triunfante dos anos 1980 contribuiu para o boom das indústrias criativas e, vinte anos depois, para o surgimento de um novo soft power japonês anglicizado (“Cool Japan”, também conhecido como Kuru Japan).[vii] Ao competir agora com o modelo anglo-saxão importado do pós-guerra, o Japão, que seus ocupantes tinham inicialmente considerado “feudal e imaturo”, acabou, pouco a pouco, tendo sua vingança. Mas esta última postura integra suas limitações, como se a guerra testemunhasse sempre um retorno cíclico do recalcado.

Entre uma história dolorosa e uma memória envenenada

A obra de Michael Lucken coloca utilmente em perspectiva as relações ambíguas do Japão com os Estados Unidos após 1945, concluindo com “um imperialismo reinventado”, retomando a questão do pragmatismo japonês renovado em torno de uma democracia revigorada. O contraste é remarcado com a Coreia do Sul (1961-1987) e Taiwan (1947-1987), antigas colônias do Japão que, inversamente, mas também sob vigilância americana, instauraram no imediato pós-guerra regimes militares e ditatoriais que perduraram por várias décadas.

Reavaliar, a partir do passado, um questionamento do presente permitiria, desta perspectiva, uma confrontação útil entre a história e a memória. Este tema é abordado implicitamente na conclusão, sem, no entanto, reavaliar esta dimensão essencial do pós-guerra. As recentes eleições no Japão, marcadas pela ascensão brutal do PLD, o partido ultraconservador e nacionalista no poder, reavivam evoluções dolorosas no seio de uma sociedade que está longe de ter liquidado todas as suas contas com o passado.

Os discursos abertamente revisionistas da esfera política dominante negam o princípio de um imperialismo japonês anterior a 1945, para reescrever a história. Tanto os massacres japoneses de Nanquim na China (1937), como a situação das milhares de mulheres coreanas ditas de “conforto”, sequestradas em bordéis do exército japonês, voltam a ocupar o centro das atenções. Embora reavivem a memória dolorosa das vítimas ou de seus descendentes, estes crimes tabu não reparados são objeto de instrumentalização política de ambos os lados, bem como de múltiplas controvérsias fora do Japão.

A peregrinação anual de ex-primeiros-ministros e de membros da extrema-direita japonesa ao santuário Yasukuni-jinja (靖国神社, ou literalmente “o santuário xintoísta do país pacificado”), fundado em 1869 no centro de Tóquio, simboliza tanto um culto ritual e retrógrado ao imperador Hirohito como uma contribuição à vontade política de “nacionalizar” um período da história do Japão livre de todas as suas impurezas[viii]. Entre os 2,4 milhões de soldados japoneses desaparecidos na Guerra do Pacífico e inscritos nos registros do santuário xintoísta, figuram os nomes dos 14 criminosos de guerra enforcados após o veredito do tribunal de Tóquio. Tantos fatores que, desde 1978, envenenam as relações com seus vizinhos próximos, da China à Coreia do Sul.

Antes de 1930, o Japão insular e imperial via-se como o libertador desses povos asiáticos que acabou por subjugar, em nome de uma ideologia pan-asiática. Esta permitiu-lhe legitimar sua conquista da Ásia, imitando as práticas coloniais europeias de então. Mas a expansão militarista japonesa acabou conduzindo, ao final, a uma guerra desenfreada de quinze anos em toda a Ásia e, posteriormente, a uma derrota brutal em 1945.

O Japão, atormentado por seus velhos demônios, pretende hoje reescrever sua Constituição pacifista de 1946, “imposta” pelo ocupante americano, para restabelecer a que surgiu da era Meiji. A reescrita da história tornou-se problemática numa sociedade em que a discrepância entre “história erudita” e “história escolar” sobre estas questões continua evidente.[ix] A obra de Michael Lucken, apresentada como uma lição para o presente, surge, assim, na hora certa para testemunhar utilmente aspectos desconhecidos desta história e incitar-nos a avaliar todos os seus desafios hoje em dia.

*Kristian Feigelson é professor de sociologia na Universidade Sorbonne Nouvelle. Autor, entre outros livros, de La fabrique filmique: métiers et professions (Armand Colin). [https://amzn.to/4sSlq3F]

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Referência


Michael Lucken. Les occupants, les Américains au Japon après la Seconde Guerre mondiale. Paris, La Découverte, 2025, 336 págs. [https://amzn.to/49mWw45]

Notas


[i] Michael Lucken, Les Japonais et la guerre (1937-1952), Paris, Fayard, 2013. Ver também John Dower, Embracing Defeat, Japan in the Wake of World War II, New York, Norton, 1999; Max Hastings, Nemesis: the Battle for Japan 1944-1945, London, William Collins, 2007; M. Paine, The Wars for Asia (1911-1949), New York, Cambridge University Press, 2012.

[ii] De acordo com estimativas de todas as vítimas desta guerra da Ásia-Pacífico. Ver Jean-Louis Margolin, Violences et crimes du Japon en guerre (1937-1945), Armand Colin Paris, 2007. Ver mais especificamente Michaël Prazan, Le Massacre de Nankin 1937: entre mémoire, oubli et négation, Paris, Belles Lettres 2026. E também a esse respeito o historiador japonês Kasahura Tokushi, Le Massacre de Nankin, Paris, Maisonneuve & Larose/Hémisphères, 2024.

[iii] Numa obra anterior, Michael Lucken salientava a porosidade das fronteiras entre o Oriente e o Ocidente (Japon, l’Archipel du sens, Paris, Perrin, 2016).

[iv] Ver Mitsuo Kobayakawa, “L’administration au Japon: son passé et son avenir”, Revue Française d’Administration Publique, 73/1995. Sobre os efeitos dessa modernização, Herbert P. Bix, Hirohito and the Making of Modern Japan, New York, HarperCollins, 2000.

[v] No sentido da definição de Pierre-François Souyri, Moderne sans être occidental: aux origines du Japon d’aujourd’hui, Paris, Gallimard, 2016.

[vi] Citado na página 53, John Dewey já se referia ao envio de tropas americanas para a Europa em 1916-1917 (America and War, vol. II, Londres, Georges Allen and Unwin, 1929). Em 1919, o filósofo já tinha sido traduzido no Japão, embora fosse ignorado nos Estados Unidos, antes de inspirar, como destaca Michael Lucken, esta estratégia de ocupação americana a longo prazo.

[vii] Cf. Kristian Feigelson e Wafa Ghermani, Les Industries des images en Asie de l’Est: entre mondialisation et identités locales (Chine-Hong Kong, Corée, Japon, Taiwan), Théorème 33, Paris, PSN, 2021.

[viii] Cf. Tetsuya Takahashi, Morts pour l’Empereur: la question du Yasukuni, Paris, Belles Lettres, 2012.

[ix] Em relação a esta questão da reescrita da história por ambas as partes, ver Samuel Guex, “Les manuels d’histoire japonais vus de Chine”, Ebisu/Etudes Japonaises 38, 2007, p. 25-51.


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