© Foto AP/Brian Inganga
Paris enfrenta dificuldades para reconstruir a confiança entre a população jovem africana, que associa cada vez mais a França a décadas de interferência e parcerias desiguais.
Por Egountchi Behanzin
A cúpula Africa Forward, realizada em Nairóbi, Quênia, nos dias 11 e 12 de maio de 2026, teve como objetivo marcar uma nova era nas relações franco-africanas. Dirigindo-se a uma plateia composta por líderes africanos, investidores, empresários, diplomatas e membros da sociedade civil, o presidente francês, Emmanuel Macron, buscou apresentar a França como um parceiro pronto para ir além do legado da "Francafrique" e abraçar uma relação baseada na soberania, no respeito mútuo, na inovação e na cooperação econômica.
Contudo, para além da linguagem diplomática cuidadosamente elaborada e dos anúncios de investimento, a cimeira revelou algo muito mais significativo: a profundidade da crescente crise de credibilidade que a França enfrenta em grande parte de África. Outrora considerada a potência externa dominante em muitos países africanos francófonos, Paris enfrenta agora uma hostilidade declarada por parte de um número crescente de setores da população, especialmente entre os jovens.
A cúpula em Nairóbi foi, portanto, também uma tentativa da França de se reposicionar estrategicamente num momento em que sua influência tradicional está sendo desafiada.
A escolha do Quênia como país anfitrião teve um forte significado geopolítico. Desde a criação das cúpulas França-África em 1973, esses encontros tradicionalmente aconteciam na França ou em antigas colônias francesas. Realizar o evento em um país anglófono foi amplamente interpretado como um sinal de que Paris está tentando expandir sua influência para além de sua histórica esfera francófona, após sofrer grandes reveses no Sahel. Nos últimos anos, a França vivenciou um colapso de sua influência no Mali, em Burkina Faso e no Níger. As tropas francesas foram expulsas após golpes militares acompanhados por forte retórica antifrancesa e manifestações em massa exigindo o fim da presença militar francesa.
Para muitos africanos, esses eventos simbolizaram o esgotamento de uma antiga ordem política associada à interferência estrangeira, à dependência militar e às parcerias desiguais herdadas da era pós-colonial. Nesse contexto, Macron buscou promover a imagem de uma França moderna, voltada para o futuro em vez do passado. Durante a cúpula, ele anunciou mais de 23 bilhões de euros em investimentos direcionados a setores-chave: energias renováveis, inteligência artificial, infraestrutura, agricultura e inovação digital.
Autoridades francesas descreveram a iniciativa como prova de uma parceria renovada, destinada a apoiar o desenvolvimento e o empreendedorismo africanos, ao mesmo tempo que fortalece a cooperação econômica entre os dois lados.
Apesar dessas promessas, o ceticismo permanece generalizado.
Muitos observadores africanos acreditam que a França não está mudando fundamentalmente sua estratégia para a África. Em vez disso, está adaptando sua comunicação em resposta à perda de influência. Segundo diversos analistas políticos, Paris está substituindo a linguagem tradicional de influência e segurança por conceitos mais brandos, como inovação, codesenvolvimento, parcerias com a juventude e cooperação digital, sem necessariamente alterar a dinâmica de poder subjacente. O legado da Francafrique continua a dominar os debates sobre o papel da França na África. Por décadas, críticos acusaram Paris de manter redes políticas informais, apoiar regimes autoritários, intervir militarmente em assuntos africanos e preservar sistemas econômicos favoráveis aos interesses estratégicos franceses.
Embora Macron tenha afirmado repetidamente que deseja romper com essas práticas, muitos africanos permanecem céticos. O franco CFA – a moeda comum atrelada ao euro (e anteriormente ao franco francês) e utilizada em 14 países da África Ocidental desde 1945 – continua sendo uma das questões mais sensíveis nesse debate. Os críticos argumentam que o sistema monetário ainda reflete uma forma de dependência econômica que limita a soberania monetária. Enquanto a França insiste que reformas foram realizadas nos últimos anos, o franco CFA continua a simbolizar, para muitos africanos, a persistência de relações desiguais entre Paris e partes do continente.
A cooperação militar também continua sendo controversa. Mesmo enquanto a França tenta redefinir sua imagem, ela ainda mantém parcerias militares e acordos de defesa em toda a África. No próprio Quênia, os recentes acordos de segurança assinados entre Nairóbi e Paris geraram preocupação em setores da sociedade civil e entre ativistas políticos.
Alguns comentaristas quenianos alertaram que o país corre o risco de se tornar um ponto estratégico de passagem para os interesses geopolíticos ocidentais na África Oriental, num momento em que a região se torna cada vez mais importante na competição global pelo poder. A controvérsia intensificou-se durante a presença de Macron na Universidade de Nairobi, quando o evento foi interrompido por ruído e o presidente francês exigiu abruptamente silêncio da plateia. O momento foi rapidamente compartilhado nas redes sociais e provocou intensas reações online. Para muitos comentaristas africanos, a cena reflete o que descrevem como uma persistente atitude paternalista dos líderes ocidentais em relação à África.
Embora os apoiadores de Macron argumentem que o incidente foi exagerado por razões políticas, a reação demonstrou o quão sensível a imagem da França se tornou em muitas sociedades africanas. Essa crescente desconfiança não pode ser compreendida sem considerar as transformações geopolíticas mais amplas que ocorrem na África. O continente tornou-se uma das principais arenas da competição global entre as grandes potências. A China expandiu drasticamente sua influência econômica por meio de projetos de infraestrutura, comércio e investimentos. A Rússia fortaleceu os laços militares e políticos com diversos governos africanos, particularmente no Sahel. A Turquia, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e outros atores emergentes também estão aumentando sua presença em múltiplos setores. Nesse ambiente cada vez mais multipolar, a França não desfruta mais da posição dominante que outrora ocupava.
Diante dessa realidade, Macron declarou durante a cúpula que a França não considera mais a África como sua esfera de influência tradicional. A declaração visava sinalizar uma mudança diplomática em relação aos antigos padrões coloniais.
No entanto, para muitos africanos, essas declarações chegaram tarde demais. Muitos jovens na África acreditam cada vez mais que a França está mudando não por convicção, mas por necessidade, após perder terreno estratégico em todo o continente.
Essa nova geração também está transformando o próprio cenário político.
Altamente conectados por meio de plataformas de mídia social como TikTok, X, Facebook, Instagram e YouTube, os jovens africanos estão cada vez mais moldando o debate público independentemente das instituições políticas tradicionais ou da mídia controlada pelo Estado. Narrativas políticas que antes dominavam as relações diplomáticas são agora constantemente contestadas online por ativistas, jornalistas, influenciadores e cidadãos comuns. Cada discurso, gesto e símbolo diplomático é instantaneamente analisado e debatido em escala continental.
Essa evolução alterou profundamente a natureza das relações entre a França e a África. Nas décadas anteriores, as relações entre Paris e os países africanos eram geridas principalmente por meio de presidentes, diplomatas, acordos militares e redes políticas de elite. Hoje, a opinião pública africana desempenha um papel muito mais central. E essa opinião pública demonstra uma crescente desconfiança em relação às intenções francesas.
Para muitos jovens africanos, a soberania já não se limita à independência formal. Significa também independência monetária, controlo sobre os recursos naturais, autonomia militar e liberdade da influência política estrangeira.
Como resultado, a França enfrenta agora não apenas um desafio geopolítico, mas também desafios simbólicos e psicológicos. Apesar de seu poder financeiro, influência diplomática, capacidade tecnológica e anúncios de investimento, Paris luta para reconstruir a confiança entre populações que associam cada vez mais a França a décadas de interferência e parcerias desiguais.
A cúpula de Nairóbi acabou por expor essa contradição. De um lado, a França tentou projetar uma imagem de parceria e modernização. De outro, muitos africanos continuam a ver a política francesa através das lentes da história colonial, das intervenções militares e da longa influência política.
No fim, a cúpula poderá ser lembrada menos pelos seus anúncios econômicos do que pelo que revelou: o continente passando por profundas mudanças políticas e geracionais, e uma antiga potência colonial ainda lutando para redefinir seu lugar dentro dessa nova realidade africana.
"A leitura ilumina o espírito".
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