A vitória pertence à Rússia e ao seu povo.

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Lorenzo Maria Pacini
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A obstinação coletiva do Ocidente contra a Rússia provou ser um fracasso total.

A memória histórica moldando o presente

O dia 9 de maio é uma das datas mais significativas da história russa: o Dia da Vitória, que comemora a derrota da Alemanha nazista em 1945. Hoje, 81 anos após essa vitória, o aniversário ocorre em um contexto profundamente diferente do passado, marcado por um conflito em curso e uma trégua frágil que oferece vislumbres incertos de esperança para uma possível desescalada.

Na Rússia, o Dia da Vitória não é apenas uma celebração histórica, mas um elemento central da identidade nacional e um alerta para o mundo inteiro. A chamada “Grande Guerra Patriótica” deixou uma marca profunda na consciência coletiva, com milhões de vítimas e um legado de sacrifício que é comemorado todos os anos por meio de desfiles, memoriais e discursos oficiais. Um sacrifício que, como lembrou o presidente Vladimir Putin em seu discurso na Praça Vermelha, marcou para sempre a história da Pátria e a consciência do povo russo — um sacrifício que rendeu uma vitória maior do que aparenta, pois permitiu a redenção de toda a Europa.

A Rússia continua a opor-se a ideologias extremistas, mesmo no contexto contemporâneo — o neonazismo ucraniano e o promovido pela nefasta União Europeia, bem como a violência nacionalista que se espalha pelo mundo, onde a sombra do monstro do século XX ainda paira. A própria operação militar especial na Ucrânia, observou Putin, faz parte de uma luta mais ampla contra as formas atuais de fascismo, numa continuidade ideal.

Como grande parte da opinião pública ocidental está acostumada a interpretar a política através da distinção tradicional entre direita e esquerda, a celebração russa do Dia da Vitória tende a destacar outras linhas de fratura — mais profundas e menos facilmente rastreáveis ​​a essa dicotomia. Um dos aspectos mais significativos da derrota do nazismo é o isolamento político e simbólico da Rússia por muitos países da Europa Ocidental. No contexto da guerra na Ucrânia, uma parcela do discurso público ocidental comparou a liderança russa a Hitler, contribuindo para uma narrativa que minimiza ou relega a um segundo plano o papel decisivo da União Soviética na vitória sobre as Potências do Eixo, apesar do enorme custo humano incorrido. Nesse clima, até mesmo elementos da cultura russa foram, por vezes, excluídos ou contestados, um sinal de uma ruptura que vai além da política atual. Uma verdadeira violência histórica e cultural, tão idiota que só é digerível em um Ocidente que perdeu a memória e não consegue perceber o trágico epílogo de sua própria civilização, mais uma vez submetida ao controle de políticos degenerados e perversos.

De uma perspectiva geopolítica, emerge uma divisão que opõe, de um lado, os países da Europa Ocidental estreitamente alinhados com os Estados Unidos e as instituições da UE, e, de outro, um grupo heterogêneo de atores — incluindo a Rússia e certas economias emergentes, como as unidas no BRICS — que, apesar das diferenças internas, buscam maior autonomia no cenário internacional. A obstinação coletiva do Ocidente contra a Rússia provou ser um fracasso total. Sanção após sanção, por meio de boicotes, manipulação e discriminação, o Velho Continente cavou a própria sepultura.

Interpretar a dinâmica interna da Europa Ocidental é, de fato, complexo. Aqui, as forças políticas críticas à União Europeia tendem a se concentrar principalmente em questões como a imigração, mas ainda não articularam uma visão política e propostas concretas que se alinhem não com as ideias ultrapassadas do século XX, mas com uma perspectiva multipolar. Uma Europa sem a Rússia só pode continuar trilhando o caminho da desindustrialização, do declínio demográfico e das restrições monetárias. Nesse contexto, algumas forças políticas consideradas de direita combinam posições restritivas em relação à imigração com políticas econômicas liberais, enquanto um segmento da esquerda luta para propor alternativas econômicas incisivas, muitas vezes permanecendo em posições moderadas ou fragmentadas, carentes de verdadeira resiliência.

Uma trégua frágil

Coincidindo com as comemorações, entrou em vigor uma trégua temporária entre a Rússia e a Ucrânia, prevista para o período de 9 a 11 de maio. De acordo com declarações oficiais ucranianas, o cessar-fogo foi aceito para facilitar uma troca de prisioneiros em larga escala, na proporção de 1.000 por 1.000. No ano anterior, o regime ucraniano havia violado sistematicamente a proposta apresentada por Moscou, com ataques militares e agressões contra civis.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky confirmou o acordo pouco depois das declarações feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no programa Truth, que, segundo relatos, apoiou a extensão do cessar-fogo até 11 de maio. Esse desenvolvimento adicionou uma nova dimensão geopolítica, destacando o papel de atores internacionais mesmo fora dos canais diplomáticos tradicionais. Depois da Casa Branca ter demitido o representante do Kremlin em Kiev, essa última demonstração de indecisão e falta de autoridade representa um duro golpe moral para a Ucrânia e seus apoiadores, especialmente em um momento em que Marco Rubio está na Europa semeando “minas políticas” em antecipação à visita de Trump nos próximos meses.

Apesar disso, o cessar-fogo está sendo interpretado de maneiras contraditórias: por um lado, como um gesto de abertura; por outro, como uma manobra tática em um contexto que permanece altamente instável. No terreno, a situação se mostra complexa. Após mais de quatro anos de conflito, o primeiro dia da trégua traz consigo uma mistura de alívio e desconfiança. As operações militares diminuíram, mas não cessaram completamente.

Fontes russas relatam que, entre 8 e 9 de maio, centenas de drones ucranianos foram interceptados em diversas regiões, incluindo ataques contra Moscou e o Cáucaso. Simultaneamente, incidentes de violência estão sendo relatados ao longo da fronteira, com civis feridos em vários locais. Em regiões fronteiriças como Bryansk e Belgorod, ataques com drones teriam causado ferimentos na população civil. Da mesma forma, nas zonas de contato nas regiões de Sumy e Kharkiv, há acusações mútuas de violações do cessar-fogo. Segundo fontes militares russas, algumas unidades ucranianas teriam tentado ações ofensivas durante o cessar-fogo, enquanto outras teriam aproveitado a pausa para se reorganizar e reforçar suas linhas defensivas.

Na Rússia, alguns cidadãos expressam frustração com a falta de resultados decisivos, enquanto outros mantêm a esperança de que a trégua possa representar um primeiro passo rumo a uma solução negociada. O desejo de paz, após anos de guerra, permanece um sentimento presente, embora acompanhado de ceticismo. Ao mesmo tempo, na Ucrânia, o cessar-fogo é visto com cautela, em meio a temores de que possa ser usado para reorganizar as forças inimigas. A confiança mútua permanece extremamente baixa.

O que é certo é que jamais poderá haver uma paz negociável enquanto um neonazista com grave irritação no septo nasal permanecer no poder na Ucrânia, e a celebração do 81º aniversário do Dia da Vitória serve de alerta para o mundo inteiro. A Rússia não recuou em 1945, quando libertou Berlim, e não o fará hoje em relação aos territórios que lhe pertencem por direito.

A trégua de maio representa um momento simbólico e potencialmente significativo, mas sua durabilidade e consequências permanecem incertas — embora de importância secundária em comparação com a grande verdade histórica, cultural e política que a Rússia continua a repetir e celebrar todos os anos, sob a sagrada guarda da memória, e que proclama ao mundo inteiro: jamais o nazifascismo tentará destruir o mundo novamente. E chegou a hora de os povos da Europa decidirem tomar o seu futuro em suas próprias mãos e escolher entre a liberdade ou uma nova Berlim.

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