
Uma série de irregularidades recentes exige uma governança mais rigorosa e um monitoramento mais próximo de um setor em expansão, escreve um especialista.
Essa expansão ocorre em um mercado de combustíveis já exposto à captura pelo crime organizado. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto passado, foi descrita pela Receita Federal do Brasil como a maior operação do país contra o crime organizado em termos de cooperação institucional e abrangência. As autoridades afirmaram que cerca de 1.000 postos de combustíveis ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech supostamente operava como um “banco paralelo”, e pelo menos 40 fundos de investimento teriam sido usados para ocultar ativos.
Metanol, dinheiro e o PCC
A suposta estrutura não era marginal. As autoridades apreenderam cerca de US$ 220 milhões em ativos, e os promotores de São Paulo ligaram o esquema ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção criminosa mais poderosa do Brasil. A suposta estrutura incluía fundos de investimento com US$ 5,5 bilhões em ativos , usinas de etanol, postos de gasolina, empresas de fachada, instituições de pagamento e importações irregulares de metanol usado na adulteração de combustível.
Essa é a vulnerabilidade oculta no boom dos biocombustíveis. Os mercados de combustíveis são atraentes para o crime organizado porque combinam enorme fluxo de caixa, tributação complexa, margens de lucro reduzidas, opacidade na mistura e logística transfronteiriça rotineira. Ao contrário da cocaína ou do ouro ilegal, o combustível é uma mercadoria legal. Os lucros criminosos podem ser lavados por meio de distribuidores, postos de gasolina, contas a receber, empresas comerciais e ativos de infraestrutura aparentemente comuns. Os biocombustíveis adicionam outra camada de complexidade, pois as matérias-primas, os aditivos, as alegações de carbono e os sistemas de certificação criam pontos adicionais de manipulação.
O metanol ilustra o problema. O biodiesel é produzido pela transesterificação de gorduras e óleos, geralmente utilizando metanol como álcool de cadeia curta. Em mercados legítimos, o metanol é um insumo industrial. Em mercados de combustíveis com supervisão precária, ele pode se tornar um vetor para fraudes. Metanol desviado ou irregular pode ser usado para adulterar combustíveis, sonegar impostos e ocultar a origem do produto. O monitoramento das importações, da distribuição, dos usuários finais declarados e da entrega efetiva do metanol deve, portanto, fazer parte da governança dos biocombustíveis, e não ser uma mera formalidade técnica.
O papel da China acrescenta uma dimensão global. A Agência Internacional de Energia afirma que o país responde por cerca de 58% da produção mundial de metanol e está expandindo a capacidade de produção de metanol de baixo carbono. Isso torna o fornecimento chinês fundamental para a transição para combustíveis limpos. Mas também torna essencial a rastreabilidade desde o terminal portuário até o usuário final declarado. O risco não está na origem do metanol, mas sim no seu desvio dentro de redes de distribuição com supervisão deficiente.
No mês passado, a Caldic, distribuidora de produtos químicos com sede na Holanda e controlada majoritariamente pela Advent International, foi alvo de investigação no Brasil por supostos vínculos com a venda de metanol que, segundo os investigadores, teria sido desviado para um esquema de fraude de combustíveis ligado à PCC . Sua subsidiária brasileira, a Quantiq, afirmou estar cooperando com os investigadores e que uma auditoria interna não encontrou irregularidades por parte da administração. Independentemente da conclusão dos promotores, o caso expõe uma lacuna de governança mais profunda, visto que a diligência prévia estabelecida para a venda de produtos químicos comuns pode ser inadequada em mercados de combustíveis vulneráveis à adulteração, desvio e lavagem de dinheiro.
A GPC Química, pertencente à Dexxos Participações, também foi citada em um documento judicial em agosto passado e posteriormente passou a ser investigada por vendas de metanol, embora os volumes suspeitos tenham sido descritos como menores. A Dexxos afirmou que não tolera atos ilegais, enquanto a GPC declarou que conduziu seus negócios estritamente de acordo com as leis e regulamentações aplicáveis.
O risco vai além do diesel e da gasolina. No cinturão canavieiro de São Paulo, suspeitos presos por 2024 incêndios em canaviais teriam confessado à polícia ligações com o crime organizado. Um funcionário do estado suspeitou do envolvimento do PCC como retaliação a ações governamentais de combate ao crime. Mais de 2.100 incêndios afetaram 59.000 hectares de cana-de-açúcar e áreas de reflorestamento naquele ano, causando prejuízos estimados em R$ 350 milhões. Um procurador federal alertou que ainda não havia provas de incêndio criminoso coordenado pelo crime organizado, mas o episódio demonstra a vulnerabilidade que regiões produtoras de matéria-prima para biocombustíveis podem ter quando há sobreposição de terras, fiscalização e mercados criminosos.
O óleo de palma representa uma ameaça diferente, porém relacionada. No Pará, a Brasil Biofuels e a Agropalma , as maiores produtoras de óleo de palma, foram acusadas por grupos de direitos humanos de graves abusos ligados a conflitos fundiários, violência e supostas apropriações fraudulentas de terras, embora ambas as empresas neguem as acusações e contestem as alegações. Esses casos não são comprovados pela Lei de Controle de Poluição por Óleo de Palma (PCC). Mas expõem uma vulnerabilidade semelhante: governança fundiária frágil e controles inadequados na cadeia de suprimentos de matérias-primas supostamente sustentáveis.
As disputas financeiras em torno do setor também merecem atenção. A Bio Clean Energy, uma empresa brasileira de biodiesel, fornece outro exemplo. Seu cofundador entrou com uma ação civil com base na Lei RICO no Distrito Sul de Nova York contra o Banco Bradesco, a Bradesco Securities US, a Tricon Energy e vários indivíduos. O processo classifica a natureza da ação como extorsão. Documentos e declarações públicas alegam um esquema que destruiu os negócios de biodiesel da Bio Clean, mas essas são apenas alegações, não conclusões judiciais.
Reduzindo os riscos da próxima fronteira verde
A lição não é que o Brasil deva abandonar os biocombustíveis. O etanol, o biodiesel e o combustível de aviação sustentável continuarão sendo fundamentais para a estratégia energética do país e para os esforços globais de descarbonização. A lição é que combustíveis limpos exigem governança limpa. A intensidade de carbono não pode ser a única métrica. Bancos, comerciantes, reguladores, companhias aéreas e compradores de combustível também precisam levar em consideração o que poderia ser chamado de prêmio da governança criminosa, o custo oculto de obter combustíveis de baixo carbono de cadeias de suprimentos vulneráveis ao crime organizado, sonegação fiscal, conflitos fundiários, adulteração e financiamento ilícito.
Isso significa transparência na identificação dos beneficiários finais para distribuidores de combustíveis, usinas de etanol, produtores de biodiesel, operadores portuários e empresas de comercialização. Significa que os reguladores financeiros devem tratar as fintechs do setor de combustíveis, fundos de recebíveis e veículos de investimento como potenciais locais de lavagem de dinheiro. Significa que os reguladores de energia devem monitorar as importações de metanol, a devida diligência do cliente, os registros de entrega, as anomalias de mistura e as solicitações de crédito tributário. Significa também que os sistemas de certificação para biodiesel e combustível de aviação sustentável devem verificar não apenas as emissões, mas também conflitos fundiários, áreas embargadas, abusos trabalhistas e exposição a riscos criminais.
A expansão dos biocombustíveis no Brasil representa uma oportunidade estratégica. Ela pode reduzir a dependência do petróleo, apoiar as economias rurais e ajudar a descarbonizar setores que não conseguem se eletrificar rapidamente. Mas a mesma infraestrutura que permite a expansão dos biocombustíveis também os torna vulneráveis à captura pelo crime organizado. A questão não é mais se os biocombustíveis podem crescer. Eles podem. A questão é se o Estado, os bancos, os comerciantes e os compradores conseguirão ampliar a fiscalização com rapidez suficiente para impedir que o capital criminoso transforme o combustível limpo em mais uma fronteira ilícita.

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