BRASIL - A explosão dos biocombustíveis encontra a fronteira do crime no Brasil.

Uma usina de açúcar e etanol opera em Itapetininga, estado de São Paulo, Brasil.Jonne Roriz/Bloomberg via Getty Images


Uma série de irregularidades recentes exige uma governança mais rigorosa e um monitoramento mais próximo de um setor em expansão, escreve um especialista.

RIO DE JANEIRO — O crescimento global dos biocombustíveis está ganhando força. A guerra no Oriente Médio, a volatilidade dos preços do petróleo e os temores de interrupções no fornecimento no Estreito de Ormuz reforçaram a demanda por alternativas ao petróleo, principalmente em economias asiáticas dependentes de importações. A guerra no Oriente Médio deve impulsionar os preços da energia em 24% somente neste ano, enquanto as interrupções no estreito produziram o que analistas chamam de o maior choque de oferta de petróleo da história.

Esse impulso geopolítico está reforçando uma transição mais longa que já está em curso. A demanda global por biocombustíveis está se aproximando de 200 bilhões de litros por ano e poderá chegar a 310 bilhões de litros por ano até 2030. O crescimento é impulsionado por políticas de combustíveis rodoviários, maiores exigências de mistura, demanda da aviação e do setor marítimo, e padrões emergentes de combustíveis de baixo carbono. Os biocombustíveis são atraentes porque podem ser misturados a motores, depósitos e sistemas de distribuição existentes, enquanto a eletrificação avança de forma desigual nos setores de aviação, agricultura, transporte marítimo e transporte de cargas pesadas.

Mas o Brasil demonstra por que os biocombustíveis não devem ser tratados simplesmente como commodities de energia limpa. Eles também envolvem cadeias de suprimentos de alto volume, infraestrutura intensiva e complexidade financeira. Dependem de cultivos, óleos, álcoois, portos, terminais, distribuidores, sistemas tributários, regimes de certificação, bancos e empresas de pagamento. Em mercados onde o crime organizado já se infiltra na logística, nas finanças e na distribuição de combustíveis, a transição energética pode criar novas oportunidades para lucros ilícitos.

O Brasil é o caso de teste mais importante. É um dos maiores produtores mundiais de biocombustíveis e tem se empenhado em aumentar as metas de mistura. Em junho passado, o Conselho Nacional de Política Energética aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 27% para 30% (E30) e de biodiesel no diesel de 14% para 15% (B15). Autoridades agrícolas dos EUA relataram que o Brasil produziu 9 bilhões de litros de biodiesel em 2024 e previram expansão contínua em 2025. O óleo de soja foi a principal matéria-prima utilizada, enquanto o metanol e os aditivos representaram cerca de 10% dos custos de produção.

Essa expansão ocorre em um mercado de combustíveis já exposto à captura pelo crime organizado. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto passado, foi  descrita  pela Receita Federal do Brasil como a maior operação do país contra o crime organizado em termos de cooperação institucional e abrangência. As autoridades afirmaram que cerca de 1.000 postos de combustíveis ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões  entre 2020 e 2024. Uma fintech supostamente operava como um “banco paralelo”, e pelo menos 40 fundos de investimento teriam sido usados ​​para ocultar ativos.

Metanol, dinheiro e o PCC 

A suposta estrutura não era marginal. As autoridades  apreenderam  cerca de US$ 220 milhões em ativos, e os promotores de São Paulo ligaram o esquema ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção criminosa mais poderosa do Brasil. A suposta estrutura incluía fundos de investimento com  US$ 5,5 bilhões em ativos , usinas de etanol, postos de gasolina, empresas de fachada, instituições de pagamento e importações irregulares de metanol usado na adulteração de combustível.

Essa é a vulnerabilidade oculta no boom dos biocombustíveis. Os mercados de combustíveis são atraentes para o crime organizado porque combinam enorme fluxo de caixa, tributação complexa, margens de lucro reduzidas, opacidade na mistura e logística transfronteiriça rotineira. Ao contrário da cocaína ou do ouro ilegal, o combustível é uma mercadoria legal. Os lucros criminosos podem ser lavados por meio de distribuidores, postos de gasolina, contas a receber, empresas comerciais e ativos de infraestrutura aparentemente comuns. Os biocombustíveis adicionam outra camada de complexidade, pois as matérias-primas, os aditivos, as alegações de carbono e os sistemas de certificação criam pontos adicionais de manipulação.

O metanol ilustra o problema. O biodiesel é produzido pela transesterificação de gorduras e óleos, geralmente utilizando metanol como álcool de cadeia curta. Em mercados legítimos, o metanol é um insumo industrial. Em mercados de combustíveis com supervisão precária, ele pode se tornar um vetor para fraudes. Metanol desviado ou irregular pode ser usado para adulterar combustíveis, sonegar impostos e ocultar a origem do produto. O monitoramento das importações, da distribuição, dos usuários finais declarados e da entrega efetiva do metanol deve, portanto, fazer parte da governança dos biocombustíveis, e não ser uma mera formalidade técnica.

O papel da China acrescenta uma dimensão global. A Agência Internacional de Energia afirma que o país responde por cerca de  58% da produção mundial de metanol  e está expandindo a capacidade de produção de metanol de baixo carbono. Isso torna o fornecimento chinês fundamental para a transição para combustíveis limpos. Mas também torna essencial a rastreabilidade desde o terminal portuário até o usuário final declarado. O risco não está na origem do metanol, mas sim no seu desvio dentro de redes de distribuição com supervisão deficiente.

No mês passado, a Caldic, distribuidora de produtos químicos com sede na Holanda e controlada majoritariamente pela Advent International, foi alvo  de investigação  no Brasil por supostos vínculos com a venda de metanol que, segundo os investigadores, teria sido desviado para um  esquema de fraude de combustíveis ligado à PCC  . Sua subsidiária brasileira, a Quantiq,  afirmou  estar cooperando com os investigadores e que uma auditoria interna não encontrou irregularidades por parte da administração. Independentemente da conclusão dos promotores, o caso expõe uma lacuna de governança mais profunda, visto que a diligência prévia estabelecida para a venda de produtos químicos comuns pode ser inadequada em mercados de combustíveis vulneráveis ​​à adulteração, desvio e lavagem de dinheiro. 

A GPC Química, pertencente à Dexxos Participações,  também foi citada  em um documento judicial em agosto passado e posteriormente passou a ser investigada por vendas de metanol, embora os volumes suspeitos tenham sido descritos como menores. A Dexxos afirmou que não tolera atos ilegais, enquanto a GPC declarou que conduziu seus negócios estritamente de acordo com as leis e regulamentações aplicáveis.

O risco vai além do diesel e da gasolina. No cinturão canavieiro de São Paulo, suspeitos presos por 2024 incêndios em canaviais  teriam confessado à polícia  ligações com o crime organizado. Um funcionário do estado suspeitou do envolvimento do PCC como retaliação a ações governamentais de combate ao crime. Mais de 2.100 incêndios afetaram 59.000 hectares de cana-de-açúcar e áreas de reflorestamento naquele ano, causando  prejuízos estimados  em R$ 350 milhões. Um procurador federal alertou que ainda não havia  provas  de incêndio criminoso coordenado pelo crime organizado, mas o episódio demonstra a vulnerabilidade que regiões produtoras de matéria-prima para biocombustíveis podem ter quando há sobreposição de terras, fiscalização e mercados criminosos.

O óleo de palma representa uma ameaça diferente, porém relacionada. No Pará,  a Brasil Biofuels  e  a Agropalma , as maiores produtoras de óleo de palma, foram  acusadas  por grupos de direitos humanos de graves abusos ligados a conflitos fundiários, violência e supostas apropriações fraudulentas de terras, embora ambas as empresas neguem as acusações e contestem as alegações. Esses casos não são comprovados pela Lei de Controle de Poluição por Óleo de Palma (PCC). Mas expõem  uma  vulnerabilidade semelhante: governança fundiária frágil e controles inadequados na cadeia de suprimentos de matérias-primas supostamente sustentáveis.

As disputas financeiras em torno do setor também merecem atenção. A Bio Clean Energy, uma empresa brasileira de biodiesel, fornece outro exemplo. Seu cofundador  entrou com uma ação civil com base na Lei RICO  no Distrito Sul de Nova York contra o Banco Bradesco, a Bradesco Securities US, a Tricon Energy e vários indivíduos. O  processo  classifica a natureza da ação como extorsão. Documentos e declarações públicas  alegam  um esquema que destruiu os negócios de biodiesel da Bio Clean, mas essas são apenas alegações, não conclusões judiciais.

Reduzindo os riscos da próxima fronteira verde

A lição não é que o Brasil deva abandonar os biocombustíveis. O etanol, o biodiesel e o combustível de aviação sustentável continuarão  sendo fundamentais  para a estratégia energética do país e para os esforços globais de descarbonização. A lição é que combustíveis limpos exigem governança limpa. A intensidade de carbono não pode ser a única métrica. Bancos, comerciantes, reguladores, companhias aéreas e compradores de combustível também precisam levar em consideração o que poderia ser chamado de prêmio da governança criminosa, o custo oculto de obter combustíveis de baixo carbono de cadeias de suprimentos vulneráveis ​​ao crime organizado, sonegação fiscal, conflitos fundiários, adulteração e financiamento ilícito.

Isso significa transparência na identificação dos beneficiários finais para distribuidores de combustíveis, usinas de etanol, produtores de biodiesel, operadores portuários e empresas de comercialização. Significa que os reguladores financeiros devem tratar as fintechs do setor de combustíveis, fundos de recebíveis e veículos de investimento como potenciais locais de lavagem de dinheiro. Significa que os reguladores de energia devem monitorar as importações de metanol, a devida diligência do cliente, os registros de entrega, as anomalias de mistura e as solicitações de crédito tributário. Significa também que os sistemas de certificação para biodiesel e combustível de aviação sustentável devem verificar não apenas as emissões, mas também conflitos fundiários, áreas embargadas, abusos trabalhistas e exposição a riscos criminais.

A expansão dos biocombustíveis no Brasil   representa uma oportunidade estratégica. Ela pode reduzir a dependência do petróleo, apoiar as economias rurais e ajudar a descarbonizar setores que não conseguem se eletrificar rapidamente. Mas a mesma infraestrutura que permite a expansão dos biocombustíveis também os torna vulneráveis ​​à captura pelo crime organizado. A questão não é mais se os biocombustíveis podem crescer. Eles podem. A questão é se o Estado, os bancos, os comerciantes e os compradores conseguirão ampliar a fiscalização com rapidez suficiente para impedir que o capital criminoso transforme o combustível limpo em mais uma fronteira ilícita.


SOBRE O AUTOR


Robert Muggah

Muggah é cofundador e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, um dos principais centros de estudos do Brasil. Ele também é cofundador do SecDev Group e da SecDev Foundation , grupos de segurança digital e análise de riscos com atuação global.

"A leitura ilumina o espírito".

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